Grajaú: o novo polo cultural do samba em São Paulo
O evento atrai visitantes de várias partes de São Paulo
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 01/03/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Todo domingo, a Rua Manuel Guilherme dos Reis se transforma em um vibrante ponto de encontro, onde centenas de pessoas se reúnem para celebrar a música do Pagode da 27. Este evento, que conquistou uma notoriedade que vai além das fronteiras do Grajaú, já atrai visitantes de várias partes de São Paulo e, ao se aproximar de seus 20 anos em 2025, demonstra o crescimento do samba na zona sul da cidade.
Historicamente, o samba sempre teve suas raízes nas periferias de São Paulo. No entanto, durante muitas décadas, as regiões mais referenciadas para o ritmo foram a Barra Funda, Bixiga e a zona norte. Na Barra Funda, por exemplo, acredita-se que surgiram os primeiros movimentos do samba paulistano. Essa área abriga a renomada escola Camisa Verde e Branco, que já conquistou nove campeonatos. No Bixiga, onde sambistas icônicos como Adoniran Barbosa e Geraldo Filme fizeram história, destaca-se a escola Vai Vai, reconhecida como uma das mais vitoriosas do Carnaval. Já na zona norte, a concentração de escolas de samba é impressionante, com 29 títulos de Carnaval em sua trajetória.
No entanto, nos últimos anos, o Grajaú tem emergido como um novo símbolo do samba em São Paulo. Personalidades notáveis do gênero musical, como Teresa Cristina, Mauro Diniz e Carica, já se apresentaram no Pagode da 27. Esse movimento cultural também gerou um aumento na visibilidade dos artistas locais, que agora podem ser vistos em diversos locais da cidade, tanto em apresentações solo quanto em colaborações com outros artistas renomados como Criolo, Dexter, Martnália e Marcelo D2.
A transformação da imagem do Grajaú não ocorreu sem desafios. Jefferson Santiago, um dos músicos do Pagode da 27 e residente da região desde os anos 1990, relembra que o bairro era considerado perigoso naquela época. “O Grajaú enfrentava sérios problemas de segurança. No entanto, hoje vemos um renascimento cultural que alterou a percepção sobre o bairro”, afirma Santiago. Ele acredita que essa evolução impactou positivamente a autoestima dos moradores, permitindo que eles se sentissem mais orgulhosos de sua origem.
Guilherme Barros, também integrante do grupo musical, ressalta que o crescimento da cena cultural no Grajaú é fruto da iniciativa dos próprios moradores. “O surgimento do Pagode da 27 é um reflexo disso. Embora a zona sul não tenha uma tradição forte no Carnaval até agora, a escola Terceiro Milênio, originária do Grajaú e agora no grupo especial do Carnaval paulistano, demonstra o potencial da região”, explica.
A Terceiro Milênio foi fundada em 1998 e neste ano estará pela terceira vez desfilando na elite das escolas de samba. A vice-presidente Miriângela Moura comenta que a criação da agremiação foi impulsionada pela ausência da cultura do samba na região e pelo desejo de dar voz aos talentos locais.
Moisés da Rocha, apresentador do programa “O Samba Pede Passagem” na Rádio USP por muitos anos, enfatiza que as comunidades de samba no Grajaú não são apenas espaços festivos; elas desempenham um papel social crucial em meio à falta de apoio estatal. “Esses grupos representam quilombos de resistência cultural”, afirma.
A comunidade conhecida como Samba da Praça Grajaú também é um exemplo notável desse renascimento cultural. Ronaldo Augusto da Silva, conhecido como Gibi, relata que quando a roda começou há 12 anos havia poucos participantes; hoje atraem até 3 mil pessoas em dias ensolarados. Ele observa que essas reuniões não apenas oferecem entretenimento gratuito à população local mas também impulsionam o comércio regional.
Além disso, Alexandro de Oliveira menciona a influência significativa do tradicional Samba da Vela de Santo Amaro sobre as iniciativas no Grajaú. Os sambistas locais reconhecem o legado deixado por esse movimento ao contribuírem para o crescimento de eventos como o Pagode da 27.
Portanto, à medida que o Grajaú continua sua jornada rumo ao reconhecimento como um centro cultural vital para o samba em São Paulo, é evidente que essa transformação é resultado do esforço coletivo dos moradores e dos artistas comprometidos com a promoção de suas raízes culturais.