Governo tenta frear projeto de anistia, mas enfrenta resistência e atraso na articulação

Mobilização de ministros não surte o efeito esperado

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Em uma tentativa de conter o avanço do projeto que prevê anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, o Palácio do Planalto acionou ministros de sua base aliada para reverter o apoio ao requerimento de urgência da proposta. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a ministra Gleisi Hoffmann, responsável pela articulação política, atuaram diretamente na mobilização.

Apesar dos esforços, membros do primeiro escalão do governo relataram dificuldades em convencer os parlamentares a recuar. Deputados pressionados por suas bases eleitorais, especialmente aquelas alinhadas ao bolsonarismo, resistem à retirada de assinaturas, temendo desgaste com seus eleitores.

Projeto ganha força com apoio de partidos da base

Protocolado pelo Partido Liberal (PL) na segunda-feira (14), o requerimento contou com o apoio de 262 deputados, cinco a mais que o mínimo necessário. O que chamou a atenção foi o número significativo de assinaturas vindas de partidos da própria base do governo, como União Brasil, Republicanos, PP, PSD e MDB — legendas que atualmente controlam dez ministérios.

O movimento foi visto como uma resposta ao atraso do governo em agir para evitar a articulação. Líderes do centrão classificaram a reação do Planalto como tardia e de efeito político simbólico. Como o regimento da Câmara não permite a retirada de assinaturas após o protocolo, a estratégia governista passou a ser a apresentação de uma lista de “arrependidos”, a ser levada ao colégio de líderes.

Câmara dividida, e governo pressiona por solução política

Cabe agora ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidir se levará o projeto ao plenário. Pressionado tanto pelo governo quanto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que vê a anistia como afronta à Justiça, Motta tenta equilibrar os interesses. Ele já indicou que o tema será discutido coletivamente, evitando decisão monocrática.

A movimentação ocorre em meio a um período de esvaziamento do Congresso por causa do feriado. Muitos parlamentares estão fora de Brasília, e a pauta da semana foi dominada por projetos de menor relevância.

Enquanto isso, aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro articulam uma nova versão do projeto, mais enxuta, que excluiria as lideranças do movimento golpista, como o próprio Bolsonaro. O texto, ainda em construção, busca viabilidade no Congresso ao propor penas mais brandas para manifestantes de menor envolvimento nos atos.

Divergências internas e críticas ao discurso de gleisi

A ministra Gleisi Hoffmann também foi alvo de críticas após sugerir publicamente que o Congresso poderia discutir eventuais reduções de pena ou anistias, o que gerou desconforto com integrantes do STF. Após a repercussão negativa, ela recuou e reafirmou a competência exclusiva da Corte para tratar das sentenças relacionadas ao 8 de janeiro.

Em publicação nas redes sociais, Gleisi ponderou que o debate político é legítimo, mas que qualquer decisão judicial cabe exclusivamente ao Judiciário. A fala foi vista como uma tentativa de amenizar o desgaste institucional provocado por sua declaração anterior.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 17/04/2025
  • Fonte: FERVER