Governo Lula pede exclusão de alimentos e Embraer de tarifaço de Trump

Governo tenta evitar sobretaxa de Trump a produtos como café, suco e aviões, e prepara plano de contingência em caso de retaliação

Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Com a aplicação de uma sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros prevista para ocorrer em apenas quatro dias, o governo Lula (PT) intensifica esforços para tentar evitar que alguns itens sejam afetados pela medida anunciada pelos Estados Unidos.

Fontes do governo confirmam que o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, está em diálogo com o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick. O objetivo é proteger categorias como alimentos da lista de produtos que serão onerados pela administração Trump.

Atualmente, o Brasil se destaca como o maior produtor e exportador mundial de suco de laranja, com 95% de sua produção destinada ao mercado externo. Destes, cerca de 42% têm os Estados Unidos como principal comprador. Além disso, o Brasil lidera as exportações de café para o país norte-americano, tendo enviado entre janeiro e maio de 2025 um total de 2,87 milhões de sacas, representando 17,1% do volume total exportado, conforme informações do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil).

Além das tentativas de adiamento da aplicação da sobretaxa, o governo brasileiro solicita também a exclusão das aeronaves fabricadas pela Embraer da lista tarifária. A justificativa para essa solicitação é que a fabricante nacional depende da importação de peças dos EUA para sua produção.

Em face da ausência de uma resposta clara por parte dos Estados Unidos, o governo brasileiro analisa diferentes cenários de reação e opta por manter em sigilo os detalhes do plano de contingência até que a sobretaxa seja oficialmente implementada.

A estrutura geral do plano destinado a proteger as empresas exportadoras foi finalizada pela equipe técnica na semana passada e aguarda a aprovação do presidente Lula, conforme relatado pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

MDIC

Nesta segunda-feira (28), Haddad se reuniu com Lula no Palácio do Planalto, com a participação de Alckmin. Após o encontro, o ministro declarou ter apresentado ao presidente todas as alternativas disponíveis para o Brasil. Contudo, reiterou que a prioridade continua sendo a negociação.

De acordo com Haddad, Alckmin está em constante contato com as autoridades americanas. Ele enfatizou que “o Brasil não se afastará da mesa de negociações” em nenhum momento.

O ministro também fez questão de esclarecer que Lula não tomará decisões sem antes compreender as especificidades do ato executivo dos EUA relacionado ao comércio com o Brasil. Quando questionado sobre uma possível reação a uma sobretaxa americana já decidida, Haddad respondeu negativamente.

“Ainda não sabemos qual será a decisão. Nossa expectativa é que não ocorra uma ação unilateral no dia 1º. Insistiremos para que a medida não seja imposta unilateralmente pelos Estados Unidos”, afirmou.

Haddad- Marcelo Camargo/Agência Brasil

Como reportado pela Folha de S.Paulo, entre as possíveis medidas emergenciais está a criação de um fundo privado temporário para facilitar o acesso ao crédito por parte das empresas ou setores impactados pelo aumento tarifário. O governo também considera implementar ações voltadas à preservação de empregos, similar ao programa emergencial criado durante a pandemia.

Durante conversa com jornalistas, Alckmin elogiou o planejamento do plano de contingência e reafirmou que a prioridade continua sendo avançar nas negociações com os americanos.

“Estamos elaborando um plano abrangente e eficaz; no entanto, nosso empenho nesta semana se concentra em resolver a situação. Estamos dialogando através dos canais institucionais“, disse ele.

Ao ser questionado sobre uma possível ligação direta entre Lula e Trump para negociações, Alckmin respondeu que ainda não discutiu esse assunto com o presidente. “Lula é um defensor do diálogo e é isso que estamos fazendo continuamente”, destacou.

No último domingo (27), Trump confirmou a implementação das sobretaxas a partir do dia 1º de agosto. Se efetivada, essa tarifa será uma das mais elevadas globalmente.

Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, expressou ceticismo quanto à possibilidade de adiar essa data limite. Ele faz parte de uma comitiva de oito senadores atualmente em Washington para persuadir empresários e autoridades americanas a considerar um diálogo com o Brasil.

Alckmin tem sido uma figura central nas negociações com os EUA desde antes do anúncio das tarifas recíprocas em abril. Em conversa recente com Lutnick no dia 19 deste mês, reiterou o interesse do governo brasileiro em negociar.

Lula também mencionou publicamente as dificuldades nas tratativas durante um evento em São Paulo na semana passada. Ele afirmou que Alckmin tem tentado contatar os americanos diariamente sem sucesso: “Ele liga todos os dias e ninguém está disposto a conversar”, comentou.

Nesta semana, o chanceler Mauro Vieira viajou aos Estados Unidos para participar de uma conferência da ONU em Nova York. Entretanto, até agora não surgiram sinais positivos para um encontro com representantes da administração Trump; caso contrário, Vieira deve cancelar sua viagem a Washington.

A equipe próxima ao presidente Lula enfatiza que não haverá concessões políticas relacionadas ao tarifaço ou qualquer questão jurídica envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Em nota oficial, o governo brasileiro reafirmou que sua soberania é inegociável nas discussões acerca das tarifas impostas pelos americanos.

Gabriel Escobar, encarregado de negócios da embaixada dos EUA no Brasil, manifestou interesse americano nos recursos minerais críticos presentes no território brasileiro durante um encontro com representantes do setor privado.

Em resposta às inquietações americanas sobre essas reservas minerais nacionais, Lula declarou publicamente que esses recursos pertencem ao povo brasileiro.

No âmbito interno, Alckmin tem promovido reuniões com líderes industriais e representantes do agronegócio para discutir os possíveis impactos econômicos decorrentes da sobretaxa.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 29/07/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo