Golpes ligados à Copa do Mundo quase dobram e geram alerta

Reclamações em órgãos de defesa do consumidor multiplicam por oito a poucos dias do torneio. Criminosos usam tecnologia para roubo ágil.

Crédito: Via IA

A Copa do Mundo impulsiona uma onda sem precedentes de ataques cibernéticos contra torcedores brasileiros nas semanas que antecedem o início do torneio de 2026. O uso massivo de inteligência artificial generativa reduziu drasticamente o tempo de execução dos crimes digitais. Órgãos de defesa do consumidor e empresas de segurança da informação emitem alertas contínuos sobre a sofisticação das novas táticas criminosas.

Um levantamento exclusivo da NordVPN expõe a real dimensão do problema de segurança no país. Os dados indicam que 34% dos usuários relataram contato direto com fraudes ligadas ao futebol nos anos de 2024 e 2025. O índice apurado representa quase o dobro dos 19% documentados durante o ciclo preparatório do torneio de 2022.

Os reflexos desse avanço tecnológico do crime lotam os sistemas de atendimento público no estado paulista. As queixas oficiais registradas no Procon-SP saltaram de 19 ocorrências em março para 63 registros em abril. O volume de denúncias atingiu a marca alarmante de 156 ocorrências em maio, somando um total de 238 reclamações formalizadas apenas neste trimestre.

Hackers miram a Copa do Mundo com sites falsos

Golpe - Hacker
Divulgação/Freepik

Especialistas em segurança rastrearam uma operação massiva batizada de GHOST STADIUM, comandada ativamente por um grupo de origem chinesa. Os criminosos controlam mais de 300 domínios maliciosos desenvolvidos exclusivamente para clonar o site oficial da FIFA.

A arquitetura do golpe busca capturar credenciais de acesso e dados reais de cartão de crédito. A operação integra um ecossistema criminoso gigantesco que já ativou mais de 4.300 endereços eletrônicos fraudulentos desde agosto de 2025.

Os criminosos não precisam necessariamente explorar vulnerabilidades técnicas. Muitas vezes, basta criar uma mensagem convincente sobre ingressos, promoções ou transmissões para induzir a vítima a fornecer informações sensíveis ou acessar páginas fraudulentas”, alerta Luiz Claudio, CEO e fundador da consultoria especializada LC SEC.

A velocidade dos golpes na Copa do Mundo

Golpe - Fraude - Pishing
(Imagem: Freepik)

A velocidade de criação das armadilhas dita o novo ritmo das operações criminosas na internet. Campanhas maliciosas de phishing, que antes exigiam semanas de trabalho, agora podem ser criadas em poucas horas.

A automação barateou o custo operacional do crime digital e massificou os ataques. “Hoje, com ferramentas de inteligência artificial generativa acessíveis a qualquer pessoa, esse ciclo caiu para poucas horas”, afirma Marcelo Souza, vice-presidente de Produto da Certta.

A transformação nos métodos de pagamento agravou significativamente o prejuízo financeiro das vítimas. O Pix substituiu boletos e cartões em muitas operações fraudulentas, tornando os golpes mais difíceis de reverter. A liquidação imediata dos valores enviados impede o estorno e dificulta o bloqueio cautelar pelas instituições financeiras.

O Pix também muda a equação de forma bastante concreta. A instantaneidade e a irreversibilidade da transação eliminam a janela de reação”, destaca o vice-presidente da Certta.

Os falsários criam ecossistemas inteiros de mentiras para fisgar torcedores desavisados. Perfis falsos utilizam logomarcas adulteradas para simular parcerias oficiais com grandes patrocinadores. A infiltração em grupos legítimos ajuda a construir uma falsa sensação de confiança antes da fraude.

Redes sociais e o mercado paralelo de figurinhas

Álbum da copa
Rovena Rosa/Agência Brasil

As redes sociais são o principal canal de atração de vítimas para golpes relacionados à Copa do Mundo. O Instagram lidera os registros, concentrando 51% dos casos maliciosos rastreados pela NordVPN.

O WhatsApp aparece logo atrás, com 48% das ocorrências, funcionando como canal direto de persuasão. O Facebook registra 35% das fraudes, enquanto o TikTok já responde por 26% dos links que direcionam usuários para armadilhas financeiras.

O mercado de itens colecionáveis também virou alvo de criminosos. As reclamações sobre figurinhas passaram de zero em março para 34 em abril e chegaram a 109 ocorrências em maio. A pressa para completar álbuns faz muitos consumidores ignorarem sinais claros de fraude.

As estatísticas revelam a dimensão do problema. O órgão estadual contabilizou 115 casos de não entrega ou atrasos injustificados, além de 34 ocorrências de ofertas não cumpridas ou vendas enganosas. Outros 24 registros envolveram produtos incompletos ou diferentes do anunciado.

Especialista alerta sobre deepfakes na Copa do Mundo

Reprodução

O uso de bancos de dados vazados tornou os ataques mais sofisticados. Informações como CPF, histórico de compras e e-mails são usadas para criar golpes altamente personalizados.

A engenharia social explora diretamente a emoção dos torcedores. “Durante grandes eventos esportivos, criminosos costumam explorar o aumento do interesse do público e a urgência para criar golpes digitais”, explica Paulo Cesar Costa, CEO da PH3A.

O cardápio de armadilhas inclui falsos sorteios de ingressos, sites clonados de hotéis, promoções irreais de eletrônicos e aplicativos piratas infectados por malware.

A clonagem de voz e imagem preocupa especialistas pela semelhança com conteúdos autênticos. “Em mensagens de texto, desconfie de conteúdos excessivamente apelativos, urgentes ou emocionalmente manipuladores, alerta o especialista.

Entre os sinais de alerta para identificar deepfakes estão mãos deformadas, sincronização labial imperfeita, mudanças bruscas na voz e sombras incompatíveis com a iluminação da cena.

A principal recomendação é desconfiar de ofertas boas demais para ser verdade. Antes de clicar em qualquer promoção, o ideal é confirmar se ela foi publicada no perfil oficial da marca”, orienta o CEO.

Recomendações e blindagem digital do consumidor

A checagem cruzada de informações continua sendo a principal defesa contra fraudes digitais. Para reduzir os riscos, especialistas recomendam:

  • Pesquisar a reputação da loja ou do vendedor antes de efetuar pagamentos;
  • Desconfiar de preços muito abaixo do mercado;
  • Verificar o CNPJ e a atividade econômica da empresa;
  • Checar a data de criação do domínio do site, especialmente quando tiver menos de 30 dias;
  • Evitar lojas que aceitam apenas Pix como forma de pagamento;
  • Ignorar mensagens de urgência e escassez artificial;
  • Guardar comprovantes, capturas de tela e histórico de conversas;
  • Verificar a autenticidade de itens colecionáveis e a identificação do fornecedor;
  • Registrar reclamações no Procon e boletins de ocorrência quando houver suspeita de golpe.

A antecipação aos movimentos criminosos exige vigilância constante e educação digital. As quadrilhas atualizam seus métodos na mesma velocidade das novas tecnologias. Adotar uma postura crítica diante de promoções, links e mensagens suspeitas é uma das principais formas de proteger dados pessoais e evitar prejuízos durante a Copa do Mundo de 2026.

  • Publicado: 08/06/2026 16:00
  • Alterado: 08/06/2026 16:00
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: ABCdoABC