ABC Cast Conexões com Giovanni Ballarin analisa a nova lógica da busca com IA

Especialista em marketing digital discute como a inteligência artificial mudou o comportamento do consumidor e o posicionamento das marcas na busca online

Crédito: (Divulgação)

A forma como as pessoas encontram informação na internet influencia diretamente o comportamento de consumo. O que antes exigia tempo, comparação entre diferentes fontes e uma sequência de escolhas agora começa a ser resolvido em uma única interação, mediada por sistemas que entregam respostas prontas e estruturadas. A jornada digital encurta, mas também se transforma, alterando o ponto de partida das decisões e o espaço ocupado pelas marcas nesse processo.

Esse movimento afeta toda a lógica do ambiente digital. Empresas que durante anos disputaram posições em páginas de busca passam a enfrentar um cenário em que a visibilidade depende de um novo tipo de leitura, feita por inteligências artificiais que analisam reputação, consistência e presença distribuída ao longo da internet. O clique não é mais o primeiro objetivo e sim a consequência de algo que acontece antes, dentro de respostas já organizadas para o usuário.

É nesse contexto que o ABC Cast Conexões, em seu terceiro episódio da segunda temporada, recebe o empresário e estrategista digital Giovanni Ballarin, CEO do Mestres do Site, para discutir como a inteligência artificial está redefinindo o comportamento do consumidor e reorganizando o jogo do posicionamento online. Com atuação voltada à construção de presença digital e estratégias de crescimento, ele traz uma leitura que parte da prática de mercado e acompanha de perto as mudanças que já impactam empresas de diferentes setores.

O comportamento do consumidor

O comportamento do consumidor já não segue a lógica que estruturou a internet nos últimos anos. A pesquisa baseada em SEO, palavras-chave, a navegação entre diferentes páginas e o processo de comparação antes da decisão perderam espaço para uma dinâmica mais direta, em que a resposta chega pronta, organizada e com aparência de decisão já encaminhada. Esse movimento não é pontual nem restrito a um tipo específico de usuário, ele se espalha por diferentes perfis de consumo e altera a forma como as pessoas interagem com a informação.

Giovanni Ballarin observa que essa mudança já está em curso e avança em uma velocidade incomum para padrões digitais. “Isso mudou e está mudando numa velocidade que a gente nunca tinha visto antes. Só para dar uma base, o Google tinha cerca de 16,4 bilhões de pesquisas diárias, enquanto o ChatGPT chegou perto de 2,5 bilhões de requisições por dia. É um crescimento muito grande e veio junto com uma forma diferente das pessoas buscarem informação na internet”, afirma.

A lógica de navegação fragmentada começa a dar lugar a uma relação mais direta com sistemas que concentram e organizam respostas. O usuário deixa de percorrer caminhos e passa a delegar essa etapa inicial para a inteligência artificial, que assume o papel de intermediária nesse processo. “Antigamente quando gente precisava de algo, ia lá no Google, fazia uma pesquisa com palavras-chave e saía clicando em cada resultado. Esse é o comportamento antigo. Ele ainda existe, mas está mudando de uma forma muito rápida. As pessoas estão fazendo perguntas tanto para o Google quanto para a inteligência artificial”, diz Giovanni Ballarin.

Esse deslocamento muda também a expectativa de quem busca. A resposta agora passa a ser tratada como síntese de um processo que antes era feito manualmente. “Você espera uma resposta elaborada de alguém que saiu fazendo aquele trabalho que você fazia antes de sair clicando. A IA visitou o teu site, viu o que você faz, se você é bom ou não, viu as avaliações, o que as pessoas estão falando sobre você e traz uma resposta pronta com aquilo que você precisa”, explica. Nesse ambiente, a decisão passa a ser moldada em um fluxo mediado por sistemas que organizam a informação e influenciam diretamente o caminho que o consumidor vai seguir.

A disputa invisível que define quem aparece ou desaparece

Giovanni Ballarin - Inteligência Artificial
Giovanni Ballarin (Divulgação)

A reorganização do comportamento de busca desloca a disputa entre empresas para um território menos visível, mas muito mais determinante. A presença digital, antes medida apenas por posicionamento em páginas de busca, passa a depender da forma como a informação é interpretada por sistemas que filtram, organizam e constroem respostas. De acordo com Giovanni Ballarin, neste ponto, não basta apenas existir na internet, é preciso ser reconhecido como relevante dentro de um conjunto amplo de sinais distribuídos ao longo do tempo.

Giovanni chama atenção para o fato de que essa visibilidade não nasce da inteligência artificial, mas do que já foi construído pelas próprias empresas no ambiente digital. “A IA não cria nada do zero, ela não é criativa a esse ponto. Se ela está buscando informação, ela está buscando nos elementos digitais, naquilo que a gente chama de patrimônios digitais que a empresa tem. Se eu peço uma recomendação, ela vai buscar aquilo que já existe”, afirma. Esse processo amplia o peso de fatores como reputação, consistência de conteúdo e a forma como terceiros falam sobre a marca. “Qual que é o pior elogio que existe? É aquele que eu faço sobre mim mesmo. Para a internet isso é muito verdade. Se eu tenho um cliente, um terceiro falando sobre mim, isso tem muito mais valor do que eu mesmo falar. Isso tem um peso poderoso para as inteligências artificiais”, diz Giovanni Ballarin.

A forma como essas respostas são construídas, obviamente, também influencia diretamente o resultado entregue ao usuário, criando um ambiente em que a neutralidade não é um ponto garantido. “A IA conversacional tem a tendência de te agradar. Ela o tempo inteiro vai querer te agradar. Mesmo que você peça para ela não responder aquilo que você quer ouvir, de alguma maneira ela vai sempre te agradar”, explica Giovanni Ballarin.

A importância da presença digital e estrutura segundo Giovanni Ballarin

Se firmar e conseguir relevância passa, atualmente, pela forma como uma empresa se posiciona na internet, não é mais possível estar concentrada em um único canal, depende de uma presença distribuída, construída ao longo de diferentes pontos de contato. O ambiente digital opera como um sistema em que cada elemento contribui para a forma como a marca é percebida e interpretada, pois a jornada do consumidor não começa em um único lugar e tampouco segue um caminho linear, o que exige uma ocupação mais ampla e consistente desses espaços.

Giovanni Ballarin reforça que essa construção precisa acompanhar o percurso real do consumidor antes da decisão. “A gente pensa sempre de forma ampla. Quais são todos os canais possíveis de aquisição de oportunidades para essa empresa? E a gente vai ocupando todos esses espaços. O ideal é que a empresa esteja presente em toda jornada que o cliente percorre antes da decisão”, afirma. Esse entendimento amplia o conceito de presença digital e desloca o foco de ações pontuais para uma estrutura contínua, que acompanha o comportamento de quem busca, avalia e decide.

A ausência dessa construção tem impacto direto no resultado. Quando a empresa não ocupa esses espaços, a decisão passa a ser formada sem a sua participação. “Se você não está ocupando esse espaço digital com conteúdo, relacionamento, presença em diferentes canais, o cliente já formou a opinião dele com outras empresas. Ele chega no momento da compra com uma visão construída sem você”, diz Giovanni Ballarin.

O erro das empresas ao tentar acompanhar a inteligência artificial

Inteligência Artificial - IA - Propriedade Intelectual
(Imagem/Freepik)

A incorporação da inteligência artificial no dia a dia das empresas tem acontecido de forma acelerada, mas nem sempre acompanhada de entendimento sobre como utilizá-la de maneira estratégica. A adoção rápida, muitas vezes guiada pela necessidade de acompanhar o mercado, acaba gerando um uso superficial, com impacto limitado na construção de presença e posicionamento. O resultado é um volume crescente de conteúdo que não diferencia, não representa a empresa e não contribui para consolidar autoridade no ambiente digital.

Giovanni Ballarin aponta que esse problema começa na forma como as próprias empresas se comunicam. “A maior parte dos conteúdos produzidos por IA que as empresas estão fazendo são ruins. Porque a pessoa não sabe expressar o que ela faz nem para outra pessoa, imagina para uma inteligência artificial. Ela vai entregar algo genérico, mais do mesmo, que não representa a essência do negócio”, afirma. Esse padrão reforça uma presença digital pouco consistente, que ocupa espaço, mas não constrói relevância dentro dos sistemas que organizam a informação.

A busca por resultados imediatos também contribui para esse cenário. A expectativa de retorno rápido entra em conflito com a lógica de construção contínua exigida pelo ambiente digital atual. “O brasileiro é muito imediatista, ele quer resultado rápido. Só que você não consegue posicionar a tua empresa numa resposta de inteligência artificial pagando. Não existe esse atalho ainda. Isso virou um desafio para todo empresário”, afirma Giovanni.

O futuro da presença digital passa por consistência e visão de longo prazo

A incorporação da inteligência artificial no cotidiano das pessoas não aponta para uma substituição completa das estratégias atuais, mas para uma reorganização do que sustenta a presença digital ao longo do tempo. O avanço das ferramentas amplia a capacidade de produção e análise, mas também eleva o nível de exigência sobre aquilo que é construído pelas empresas. Além da ferramenta, o que ganha força aqui, é a própria consistência da presença, a clareza da comunicação e a capacidade de manter relevância mesmo diante de mudanças tecnológicas.

Giovanni Ballarin reforça que essa construção não pode estar atrelada a uma única solução ou tendência momentânea. “Eu sou a favor sempre do planejamento de longo prazo. A empresa não pode perder a essência de pensar onde ela vai estar daqui cinco ou dez anos. Porque a tecnologia muda, mas a empresa precisa continuar viva independente disso”, afirma. Esse olhar amplia o debate e desloca o foco do uso imediato da inteligência artificial para a estrutura que sustenta a marca ao longo do tempo. “Se você focar em uma tecnologia só, você corre um risco grande. O ideal é construir ativos digitais. Website, redes sociais, relacionamento com base, presença local. Quanto mais ativos você tiver, mais protegido você está dessas mudanças”, diz Giovanni.

Ao mesmo tempo, o avanço da inteligência artificial já se consolida como um fator presente na rotina de consumo, com impacto direto na forma como as empresas serão encontradas e recomendadas. “A IA traz um ganho de produtividade que é praticamente impossível ignorar. Então em algum momento as empresas vão ser recomendadas dentro desse uso. A IA está muito mais presente na vida das pessoas do que o Google esteve no começo”, explica Giovanni Ballarin. Assim, a disputa por relevância passa a exigir mais do que adaptação tecnológica, exige consistência, estratégia e uma construção contínua de presença capaz de atravessar as transformações do ambiente digital.

Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

ABC Cast Conexões - Giovanni Ballarin - Inteligência Artificial
Giovanni Ballarin durante entrevista ao ABC Cast Conexões (Divulgação/ABCdoABC)

A entrevista com Giovanni Ballarin, do Mestres do Site, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação do jornalista Thiago Antunes, também repórter no ABCdoABC. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal. A direção geral é de Alex Faria, fundador do veículo, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Assista ao episódio completo:

Além do canal no YouTube, a entrevista com Giovanni Ballarin pode ser acessada pelo SpotifyDeezerAmazon Music e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 02/05/2026 08:00
  • Alterado: 01/05/2026 19:56
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC