Gambalaia apresenta “Já nascemos mortos”
Um espetáculo do Coletivo Sankofa. Espetáculo construído a partir de depoimentos e notícias sobre crimes contra homossexuais
- Publicado: 11/02/2026
- Alterado: 22/02/2016
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Itaú Cultural
Um relatório divulgado recentemente na grande mídia pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) aponta que em 2014 o número de pessoas LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) assassinadas aumentou em 4% em 2014. Crimes homofóbicos pertencem à categoria dos crimes de ódio. Um ódio que se espalha e cria raízes. A partir do fato de que pessoas estão sendo mortas pelo simples fato de amarem e desejarem corpos iguais. Quando nos calamos diante de cada demonstração de violência homofóbica compactuamos para um possível assassinato.
A partir dessas inquietações urgentes o Coletivo Cultural Sankofa criou o espetáculo “Já nascemos mortos”, que segue temporada no mês de fevereiro em Santo André.
Com a concepção e direção de Anderson Maciel, “Já nascemos mortos” parte da hipótese real de que homossexuais já nascem com sua sentença de morte anunciada, simplesmente por serem o que são. Nesta perspectiva, a institucionalização da homofobia é legitimada diariamente pela família, escola e Estado. “Quando nos calamos para o apedrejamento, para o gatilho puxado, para a paulada, escolhemos um lado mesmo que não seja feito pelas nossas mãos”, dispara Anderson Maciel, que, para chegar ao resultado deste espetáculo baseou-se em notícias de crimes homofóbicos e 20 depoimentos que deram voz a familiares de vítimas que puderam contar suas histórias de perda. Para estas entrevistas o Coletivo Sankofa ganhou o apoio do grupo “Mães pela Igualdade”, que reúne mães de várias partes do Brasil que lutam contra a discriminação, violência e homofobia.
Pessoas estão morrendo. E só porque amam e desejam pessoas do mesmo sexo” (Anderson Maciel, diretor)
COREOGRAFIAS DESFILAM SITUAÇÕES DE PERSONAGENS REAIS
As coreografias e os textos têm a intenção de apresentar corpos sentenciados. Neste caso, tanto o texto como a dança propriamente dita, conduzem o público à comoção e cumplicidade com essas mortes. O grupo trabalhou dentro da estética da dramaturgia do movimento – a potência do corpo em cena – de uma forma que os textos não tenham peso explicativo. As entrevistas realizadas pelo coletivo transformaram-se em uma dramaturgia confessional, como a história de uma criança que teve o pescoço apertado pelo próprio pai que não o aceitava diante de uma frase-sentença: “ Você vai aprende a ser homem! ”. “Já nascemos mortos” conta alguns destes casos que vão aos poucos misturando-se ou seguindo isoladas no percurso do espetáculo.
A cenografia foi pensada para que o público fique bem próximo dos atores-criadores: cadeiras serão distribuídas no palco para que as pessoas sejam parte integrante do espetáculo. No centro da cena, um caixão de criança, simbolizando a crueldade justificada, um símbolo do corpo julgado antes de suas escolhas. No ambiente cenográfico, um cheiro de dama da noite traz a experiência sensorial ao público.
“O espetáculo é uma possibilidade de se pensar sobre quem morre e quem mata, de que há uma grande violência se fortalecendo quando não impedimos uma piada homofóbica, quando não permitimos que o outro possa se expressar da sua forma. A peça também pode provocar uma pergunta: o que nos temos com isso?”, explica Anderson Maciel. O espetáculo nasceu a partir do projeto “Quem vai chorar por eles?”, que busca promover canais de abertura para se discutir a homofobia. Todas as ações propostas pelo projeto foram de certa forma para alimentar o processo de pesquisa e criação do espetáculo, como oficinas de teatro do oprimido e teatro documentário; uma série de roda de conversa com convidados sobre criminalização da homofobia, homossexualidade e família, afro homossexualidade e exibições de filmes seguidos de bate papo.
FICHA TÉCNICA
Concepção e Direção: Anderson Maciel Intérpretes Criadores: Carol Pitzer, Davi Scorzato, Jonas Bueno, Orlando Sousa, Rodrigo Mar e Tata Ribeiro
Textos: O Coletivo Preparação de Elenco: Adriano Mota Figurinos e Cenografia: Marcia Novais e Sissa de Oliveira Trilha Sonora: Uelinton Seixas
Desenho de Luz: Betto Severo Fotografia: Sissa Oliveira e Orlando de Souza
SERVIÇO:
Já nascemos mortos…
Dias: 26 e 27 de fevereiro de 2016, às 21h.
Local: Gambalaia Espaço de Artes
Rua: Das Monções, nº 1018, Jardim – Santo André/SP.
Ingresso: 20,00 – Inteira