Para além dos campos: o futebol no Grande ABC também pulsa nas telas
Conheça obras que celebram o futebol no Grande ABC como força de memória, identidade e transformação social.
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 17/07/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O futebol no Grande ABC vai muito além das quatro linhas. Ele pulsa nas quebradas, nasce nas vielas, ganha corpo nos campos de terra e ecoa nas arquibancadas improvisadas. É na periferia que o amor pela bola atravessa gerações, molda vivências e se transforma em identidade coletiva.
Nos últimos anos, essa paixão também passou a ocupar as telas. O futebol no Grande ABC virou linguagem audiovisual, memória em movimento e ferramenta de afirmação cultural. Fora dos holofotes, uma nova geração de cineastas tem documentado a relação profunda entre o esporte e a vida nas margens, contando histórias que nascem nas várzeas, nos bairros e no concreto das periferias.
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Veja produções audiovisuais sobre futebol no ABC Paulista
Neste 19 de julho, Dia Nacional do Futebol, o portal ABCdoABC preparou uma lista exclusiva de produções audiovisuais sobre o futebol no Grande ABC. Confira:
“Várzea do ABC Futebol Clube” (2025)
Victor Buzzo, diretor do documentário “Várzea do ABC Futebol Clube”, feito pela Murmur Filmes, é uma das vozes mais engajadas no registro do futebol amador da região. Com mais de uma década de envolvimento direto com o esporte, ele decidiu transformar sua vivência em obra cinematográfica. “Eu trabalho já a mais de 12 anos cobrindo o futebol amador do ABC. Comecei numa época onde se tinha um canal na TV da operadora Net que era o ” Net cidade” lá era um lugar onde se ensinava funções de uma emissora. Aprendendo sobre câmera e gostar de futebol uma coisa levou a outra.”, conta.

A proposta do filme, segundo ele, nasceu da necessidade de oferecer uma perspectiva de dentro da várzea. “Depois com o repertório que tinha em relação ao tema achei interessante fazer um projeto a partir de uma visão minha que está lá.”, afirma.
Por trás das imagens e das histórias contadas, no entanto, há uma realidade que pesa: a ausência de apoio. “As maiores dificuldades hoje de produzir com certeza é a falta de incentivo. E apoio de entidades que poderiam fazer isso acontecer de forma melhor”
Ainda assim, ele segue firme em sua missão: fomentar o futebol de várzea. “Eu faço isso desde 2012 nunca época onde só algumas pessoas e assim como eu fazia de forma voluntária fazia e me ver hoje com muitos fazendo e recebendo por isso é gratificante.”
Para quem quiser assistir ao filme, haverá uma exibição gratuita no Crec Paulicéia, em São Bernardo do Campo, no dia 25 de julho de 2025, às 18h.
“É dia de Festival” (2025)
O documentário “É Dia de Festival” nasce do coração e da experiência de Neri Silvestre, produtor e gestor cultural. A obra se debruça sobre três times de bairro: Jardim Santo André, Vila Suíça e Vila Lutécia. Mais do que filmar partidas, Neri conta sobre uma dívida pessoal, de gratidão e de afeto, mas que passou a ser de Glaucia (produtora), Fernandinho (produtor) e toda equipe de produção. “Os times me acolheram, me deram carinho, amizade, amor, alegria, comida, roupa e segurança. Por isso, sempre tive o desejo de contar as histórias dessas pessoas, desses meus heróis e mestres que sempre fizeram tudo pela molecada”, explica.

Para ele, o futebol de várzea é uma extensão do conceito mais amplo de cultura. “O povo faz cultura e o futebol de várzea é cultura. Quando você é criança, está na rua sozinho, correndo perigos, e encontra um time de várzea, ali você descobre a vida coletiva, a beleza, a bondade, o conhecimento, o encantamento e até uma forma de fruição espiritual. Você descobre sua importância.”
Esse olhar sensível traduz não apenas a importância simbólica do futebol, mas também sua função prática na formação de indivíduos e no fortalecimento das relações sociais. “É nesse espaço que acontecem a socialização, a educação, o compartilhamento, a solidariedade, o respeito e os aprendizados.”
Mas como tantos outros realizadores da região, ele enfrenta um problema recorrente: a escassez de recursos. “Faltam recursos públicos ou privados, quase não existe uma política cultural para isso, para os de baixo possam produzir e contar suas histórias, mas sabemos tudo isso precisa ser reconhecido e valorizado pelo estado, por é a nossa cultura que é central e deve ser vista como patrimônio e como algo que vai deixar essas histórias para o futuro.”, pontua.
Para Neri Silvestre, o futebol de várzea é muito mais do que bola rolando em campos de terra: é um espaço de formação humana e social que carrega valores profundos. Em sua obra audiovisual, ele traduz a vivência coletiva das periferias e o poder que o esporte tem de transformar vidas.
“Quando você é criança, está na rua sozinho, correndo perigos, e encontra um time de várzea, ali você descobre a vida coletiva, a beleza, a bondade, o conhecimento, o encantamento e até uma forma de fruição espiritual. Você descobre sua importância. É nesse espaço que acontecem a socialização, a educação, o compartilhamento, a solidariedade, o respeito e os aprendizados. Valores como a sinceridade, a humildade e a honestidade são cultivados dentro da coletividade.”
Com sensibilidade, Neri defende que o futebol de várzea deve ser valorizado como parte essencial da cultura local. Sua fala ecoa um sentimento comum entre moradores do ABC Paulista que veem nos campos de bairro um espaço legítimo de construção de identidade. “Afinal, para quem é do campo da cultura, o futebol de várzea é a nossa escola da vida e do amor.”
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“Sem Impedimento” (2024)
Em “Sem Impedimento“, o diretor William Martins Conceição volta suas lentes para um recorte urgente: o futebol feminino no ABC. “Meu objetivo foi retratar a força e a impressionante ascensão do futebol feminino na região do ABC. Um esporte que enfrenta desafios muito maiores do que a modalidade masculina e que sempre precisou — e ainda precisa — de um olhar mais atento e respeitoso do público em geral.”

Realizado de forma autônoma, com baixo orçamento e sem parcerias institucionais, o projeto enfrentou diversos percalços. “ clubes grandes sequer responderam aos meus e-mails e mensagens, e alguns chegaram a recusar entrevistas — talvez pelo fato de eu ser uma “mini produtora”, quem sabe (rsrs!). Foi aí que decidi direcionar o foco para times de várzea e centros sociais que promovem o futebol feminino aqui no ABC”
Apesar da estrutura modesta, o impacto é real. “Acredito que o papel do documentário é justamente esse: contribuir para a normalização e o incentivo da prática do esporte na região do ABC.”
Para William, o audiovisual também tem papel educativo e formador: “Mostrar aos pais e responsáveis que está tudo bem a filha deles gostar de futebol. […] O futebol pode ser uma ferramenta incrível para promover responsabilidade, integração social e hábitos saudáveis.”
“Esquadrão Imortal” – O Dia Que o Futebol Venceu
Diferente das outras obras, o documentário “Esquadrão Imortal – O Dia Que o Futebol Venceu”, dirigido por Antonio Ferreira, mergulha na história gloriosa, e ao mesmo tempo melancólica, do A.D. São Caetano. Uma equipe que, mesmo sem levantar taças, se tornou símbolo de superação e unidade na região do ABC.

O filme resgata a epopeia do Azulão na Copa Libertadores de 2002, quando o time desafiou gigantes da América do Sul e chegou à final, perdendo para o Olímpia, do Paraguai. “Uma das intenções principais desse documentário é mostrar que a vitória não está só com quem ganha, mas também com todos aqueles que participam e fazem essa história acontecer”, revela a sinopse da produção.
Mais do que o resultado em campo, a narrativa se concentra na transformação social e cultural gerada por aquele time. A cidade viveu um momento único: desfiles de rua, crescimento do comércio, turismo esportivo e, acima de tudo, a sensação de pertencimento.
A obra resgata depoimentos de nomes marcantes como Jair Picerni, Adhemar Ferreira e Somália, entre outros, e enfatiza o papel do time na identidade local.
Futebol como território de memória e futuro
No Dia Nacional do Futebol, é impossível ignorar o poder do esporte como memória viva. Seja na várzea ou no campo internacional, o futebol no ABC carrega histórias que merecem ser contadas. As produções de Victor Buzzo, Neri Silvestre, William Martins e Antonio Ferreira mostram como o audiovisual pode ser instrumento de preservação histórica, reflexão social e valorização da cultura popular.
Essas obras são também um grito de resistência diante da falta de incentivo, da escassez de políticas culturais e do silenciamento histórico das periferias. Ao documentar o futebol, esses realizadores estão também registrando vidas, sonhos e transformações.