Fundação Grupo Volkswagen debate clima e desigualdades na COP30
Evento discutiu, no contexto da COP30, como emergências ambientais ampliam vulnerabilidades sociais e reforçou o papel da mobilidade social como eixo da Fundação.
- Publicado: 20/02/2026
- Alterado: 06/10/2025
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Patati Patatá Circo Show
A Fundação Grupo Volkswagen realizou, em São Paulo, a 8ª edição da Jornada do Conhecimento, evento anual que busca promover reflexões sobre temas urgentes da sociedade brasileira. Nesta edição, a discussão girou em torno das mudanças climáticas e das desigualdades sociais, em um momento em que o Brasil se prepara para sediar a COP30, em Belém do Pará.
Durante a abertura, o diretor-geral da Fundação, Vítor Hugo Neia, destacou a importância de aproximar as agendas ambiental e social. “A ideia do evento é refletir que são temas extremamente importantes, principalmente porque são as populações mais vulnerabilizadas dos campos e das cidades que mais sofrem o impacto social na terra”, afirmou.
Com o tema “Quando a emergência ambiental expõe as emergências sociais”, a Fundação reforçou seu propósito de mobilidade social, que norteia suas ações desde 1979 e já beneficiou mais de 3 milhões de pessoas.
Primeiro painel: impactos dos eventos extremos nas populações vulneráveis

O primeiro painel foi mediado pela jornalista Flávia Yuri Oshima e reuniu Ana Valéria Araújo, diretora executiva do Fundo Brasil de Direitos Humanos, e Sérgio Andrade, fundador e diretor da Agenda Pública. O debate destacou como os eventos climáticos extremos intensificam as desigualdades já existentes e comprometem o acesso a direitos básicos.
Ana Valéria lembrou que as comunidades mais afetadas são as que menos contribuíram para a crise climática, discutida na COP30. “Calor intenso, perda de bens materiais, insegurança alimentar e impossibilidade de trabalhar compõem os principais impactos relatados pelas populações periféricas”, afirmou. Ela reforçou que o Fundo Brasil tem atuado em linhas emergenciais para apoiar povos indígenas, quilombolas e trabalhadores em situações agravadas pela crise climática.
Sérgio Andrade abordou a necessidade de fortalecer as capacidades locais e a resiliência dos municípios. Ele apresentou a Plataforma de Transição Justa, iniciativa voltada a apoiar políticas de desenvolvimento econômico sustentável em territórios que precisam adaptar suas atividades sem ampliar desigualdades. “Sem uma base econômica sólida, não há como financiar políticas públicas nem gerar empregos”, ressaltou.
Os painelistas também enfatizaram a urgência, para além da COP30, de incorporar a transição ecológica justa às políticas locais e nacionais, para que a adaptação climática não deixe comunidades para trás.
Desafios regionais e fortalecimento de territórios
Sérgio Andrade destacou exemplos de regiões brasileiras onde a falta de políticas de desenvolvimento rural e infraestrutura agrava os efeitos das mudanças climáticas. No Sudeste do Pará, estado sede da COP30, por exemplo, mulheres assumem a liderança de propriedades rurais diante da migração masculina e da escassez de recursos. “Os filhos não querem mais ficar no campo, não há conectividade nem acesso. As pontes não têm manutenção e a produção se perde”, relatou.
Ele alertou para a importância de diversificar economias locais e investir em infraestrutura, educação e proteção social como parte das estratégias de enfrentamento às crises climáticas.
Ana Valéria reforçou a necessidade de reconhecer e apoiar os saberes e a organização comunitária dos povos tradicionais. “Os povos indígenas preservaram mais de 20% da vegetação nativa do país. É fundamental incluir essas comunidades nas decisões sobre seus territórios”, disse.
Segundo painel: soluções territoriais e combate ao racismo ambiental

A segunda mesa de debates, também mediada por Flávia Yuri Oshima, contou com a presença de Maria Amália Souza, fundadora do Fundo Casa Socioambiental, e Diogo Lima, sócio-diretor da consultoria Dendezê.
O foco foi o fortalecimento das capacidades locais e o enfrentamento do racismo ambiental, expressão que descreve como as crises ambientais afetam desproporcionalmente as populações mais pobres e racializadas.
Maria Amália defendeu que os recursos e soluções precisam chegar diretamente às comunidades que vivem e cuidam dos territórios. “As pessoas mais importantes nesse momento são aquelas que estão no território, que não querem sair de lá, mas desejam viver dignamente e proteger a terra. Se não acreditarmos que elas têm capacidade de executar suas próprias soluções, não haverá transformação”, afirmou.
O Fundo Casa, segundo ela, já realizou cerca de 5 mil apoios diretos a grupos comunitários e tem programas de brigadas voluntárias, incluindo as primeiras brigadas de mulheres indígenas no Pantanal, que atuam no combate a incêndios e na defesa ambiental.
“Essas mulheres colocam a própria vida em risco para proteger seus territórios. Elas são o coração da resistência socioambiental”, destacou.
Diogo Lima complementou que o enfrentamento à crise climática precisa ir além de eventos como a COP30 e ser acompanhado de decisões políticas e estruturais. “Vivemos como vivemos porque houve intencionalidade. As desigualdades foram produzidas. Por isso, o Estado tem papel essencial em reverter essa lógica, com planos estruturados de mitigação e adaptação climática”, afirmou.
Ele destacou a importância de planos municipais e federais de adaptação, citando o novo PAC e o Plano Periferia Viva como oportunidades de integrar políticas públicas com foco na sustentabilidade e na redução das desigualdades.
O papel do poder público e a participação comunitária
A discussão também abordou a baixa capacidade de resposta dos municípios diante de desastres climáticos. De acordo com dados citados durante o evento, menos de 30% dos municípios brasileiros atingidos por eventos extremos em 2024 tinham planos de contingência estruturados para 2025.
Nesse contexto, os painelistas defenderam a necessidade de formação técnica e participação popular. “As comunidades locais sabem o que precisa ser feito, mas muitas vezes não têm acesso aos instrumentos ou recursos para agir. O conhecimento delas é essencial para desenhar políticas eficazes”, ressaltou Maria Amália.
Diogo Lima também enfatizou a importância da COP30 e que gestores públicos e técnicos municipais precisam ser capacitados para implementar políticas de justiça climática. Ele relatou a experiência de formação com mais de 20 municípios no âmbito do novo PAC, onde as equipes locais foram treinadas para elaborar planos de ação voltados à sustentabilidade urbana e inclusão social.
São Bernardo do Campo e a agenda climática no ABC
Presente no evento, a secretária de Meio Ambiente de São Bernardo do Campo, Ruth Cristina Ramos, destacou a parceria entre a Prefeitura e a Fundação Grupo Volkswagen na construção de uma governança territorial voltada à sustentabilidade.
“É importante a gente poder discutir e se preparar para a COP30 com o setor produtivo e os atores sociais. As empresas têm uma agenda ESG importante e estão impactando positivamente o território”, afirmou.
Ela ressaltou ainda que São Bernardo e o Consórcio Intermunicipal do ABC têm se organizado para participar ativamente das discussões da COP30, trazendo o debate climático para o território. “O ABC precisa participar desse debate sobre os novos pactos e essa transição ecológica justa. São Bernardo tem condição de ser protagonista nessa agenda mundial”, completou.
Fundação Grupo Volkswagen reforça compromisso com o futuro sustentável
Encerrando a 8ª Jornada do Conhecimento, o diretor-geral Vítor Hugo destacou que o propósito da Fundação é promover mobilidade social por meio da inclusão produtiva e do fortalecimento de capacidades locais. Ele reforçou que o enfrentamento às mudanças climáticas, como a COP30 deve ser coletivo e contínuo.
“A transição ecológica não pode deixar ninguém para trás. É hora de unirmos esforços para garantir um futuro mais justo e sustentável para todas as pessoas”, concluiu.