Frevo e Samba disputam espaço no Carnaval de Olinda
Prefeitura baixa decreto com multa de R$ 10 mil para garantir prioridade ao frevo no Carnaval de Olinda; grupos de samba denunciam segregação cultural.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 14/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
O Carnaval de Olinda, Patrimônio Cultural da Humanidade, enfrenta em 2026 um de seus maiores desafios de convivência. De um lado, as tradicionais orquestras de frevo, com seus metais e som acústico; do outro, as potentes baterias de samba, que arrastam multidões com auxílio de som mecânico. O embate sobre quem tem prioridade nas estreitas ladeiras de paralelepípedo deixou o campo da música e virou uma batalha jurídica e política na sede da prefeitura.
O Decreto da “Tradição”
Para tentar organizar o fluxo e proteger as manifestações ancestrais, a prefeita Mirella Almeida (PSD) publicou um decreto que estabelece multas pesadas para quem impedir a circulação de grupos de frevo, maracatu e afoxé. A medida foca especialmente no som mecânico e nos carros de apoio, que, segundo a Associação das Agremiações de Frevo de Olinda (Afrevo), “abafam” os instrumentos de sopro e criam gargalos perigosos nas vias íngremes.
“Olinda é multicultural, mas o título da UNESCO foi conquistado pelo frevo. É uma competição desigual: instrumentos de sopro contra som mecânico de alto volume”, afirma Hilton Santana, vice-presidente da Afrevo.
Samba: Invasão ou Evolução?
Representantes do samba, como Múcio Mariano, da Bateria Cabulosa, defendem que o ritmo é brasileiro e já faz parte da identidade pernambucana há décadas. Eles argumentam que grupos como Patusco e Preto Velho (nascidos nos anos 70) abriram caminho para uma folia plural que atrai o público jovem e mantém as ruas cheias.
Entretanto, a pressão surtiu efeito: a Bateria Cabulosa cancelou seu desfile nas ladeiras este ano após o novo decreto. Para os sambistas, existe uma “segregação” por parte de setores da cidade que não consideram o gênero como parte legítima do Carnaval de Olinda.
A Política por Trás da Folia
O debate sobre a “pureza” do Carnaval também esbarra em questões eleitorais e orçamentárias. Relatórios apontam que a distribuição de verbas nem sempre segue critérios de antiguidade ou relevância cultural, mas sim proximidade política. Grupos ligados à atual gestão e ao ex-prefeito Lupércio Nascimento receberam cachês superiores a troças centenárias, o que alimenta o descontentamento da Afrevo.
A oposição, liderada por Vinicius Castelo (PT) — que teve forte apoio do setor do frevo nas últimas eleições —, critica a falta de transparência nos editais. Enquanto o imbróglio financeiro segue nos gabinetes, o folião nas ruas encontra uma Olinda dividida entre o som dos metais e o peso do surdo.
Soluções no Horizonte
A Afrevo sugere que os grupos de samba e baterias com carros de som sejam deslocados para a região baixa da cidade, onde o asfalto e as vias planas comportam melhor as estruturas pesadas. O objetivo é deixar o Sítio Histórico para o frevo “no gogó” e na orquestra. Embora o clima seja de tensão, ambos os lados concordam em um ponto: o Carnaval de Olinda é grande demais para ser silenciado, mas precisa de ritmo para não atropelar a própria história.