Fisiologismo na política e o impacto da corrupção local no Brasil

O fisiologismo expõe como corrupção e trocas de favores seguem estruturando prefeituras e câmaras municipais em todo o país

Crédito: (Antônio Cruz/Agência Brasil)

O debate nacional reacendido pela carta de Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado, criticando o governo Lula, revela um fenômeno político que também domina prefeituras e câmaras municipais em todo o país: o fisiologismo.

A prática, muitas vezes suavizada pelo termo técnico, nada mais é do que corrupção, suborno e troca de favores políticos.

A lógica do fisiologismo e a corrosão institucional

A definição de “corromper” é clara: estragar, perverter, adulterar e, sobretudo, subornar.

Na carta divulgada em 30/11, Alcolumbre classificou como ofensiva a tentativa do governo federal de criar uma “falsa impressão” de que divergências entre os poderes seriam resolvidas por “interesse fisiológico, com cargos e emendas”.

O texto surgiu durante o conflito gerado pela decisão de Lula de escolher Jorge Messias para o STF, contrariando a expectativa de Alcolumbre, que defendia a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

Lula e Jorge Messias
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

As práticas fisiológicas estão tão incorporadas à política brasileira que já não causam indignação — são tratadas com normalidade pela própria imprensa. Porém, o termo “fisiologismo” funciona como um eufemismo para o que realmente ocorre: corrupção institucionalizada.

Cargos, contratos e mensalinhos: a rotina do poder municipal

Nas prefeituras e câmaras municipais, esse fisiologismo se expressa principalmente por meio da negociação de cargos comissionados, “mensalinhos”, contratos direcionados e licitações manipuladas.
Vereadores, além do apoio político, indicam empresas para contratos diretos, formando uma rede de vantagens que influencia decisões públicas e sequestra a independência do Legislativo.

Assim como a violência cotidiana deixou de causar espanto, o fisiologismo político também foi normalizado. O termo usado para justificar esse cenário é sempre o mesmo: governabilidade.

Do mensalão às emendas Pix: a evolução do toma-lá-dá-cá

Há muito tempo, o país abandonou o caminho demorado e legítimo do convencimento e do diálogo com o eleitor, substituindo-o pelo atalho fácil do toma-lá-dá-cá, conceito popularizado no escândalo do mensalão, em 2005, por Roberto Jefferson.

Depois disso, o Congresso e o Executivo mantiveram a lógica das trocas, inovando ao substituir o suborno mensal por emendas Pix. Nos municípios, nada mudou: cargos, mesadas, envelopes e favorecimento por meio de contratos continuam sendo a moeda política.

Quando a prática errada se torna regra, resta uma pergunta incômoda: será preciso jogar segundo as regras da corrupção para, algum dia, conseguir mudá-las?

Márcio Prado

Márcio Prado - Peninha - Ribeirão Pires
Peninha (Divulgação)

Márcio Prado, mais conhecido como Peninha, carrega há anos o apelido inspirado no personagem dos gibis da Disney. Jornalista com mais de uma década de atuação, ele encontrou no jornalismo investigativo sua vocação, movido pela indignação diante de apurações superficiais e pela determinação em expor esquemas de corrupção, desvios de recursos e práticas ilícitas no poder público e na iniciativa privada. Seu trabalho vai além da publicação direta: muitas vezes contribui de forma anônima com órgãos de investigação, fortalecendo a cidadania e reafirmando o papel da imprensa como fiscal da sociedade.

  • Publicado: 03/02/2026
  • Alterado: 03/02/2026
  • Autor: 04/12/2025
  • Fonte: Michel Teló