Filipe Luís e Davide Ancelotti: os recomeços de Brasil à França
Após passagens pelo futebol brasileiro, ex-jogador e filho de um dos maiores técnicos da história iniciam novos capítulos na Ligue 1 como treinadores
- Publicado: 26/08/2026 15:01
- Alterado: 26/08/2026 15:01
- Autor: Vitor Bianco
Há algo de curioso em começar uma carreira quando o mundo inteiro já sabe quem você é. Filipe Luís e Davide Ancelotti descobriram isso quase ao mesmo tempo.
Um, ex-lateral que construiu uma carreira vitoriosa na Europa antes de voltar ao Brasil e se transformar em treinador.
O outro, filho de um dos maiores técnicos da história, acostumado desde cedo a viver sob a sombra de um sobrenome que dispensa apresentações.
Agora, os dois estão diante do mesmo desafio: construir a própria história à beira do campo.

Filipe Luís chega ao Monaco depois de descobrir, no Flamengo, que a transição entre vestir a camisa e comandar quem a veste não é tão simples quanto parece. O ex-lateral que enxergava o jogo de dentro do campo agora precisa convencer jogadores a enxergá-lo como comandante.
Na França, porém, não será apenas o treinador do Flamengo que chegará à beira do campo. Chegará também o Filipe Luís jogador. Os europeus sabem de seu histórico multicampeão no Brasil, mas o que eles conhecem é o campeão, o capitão, o lateral que passou anos no Atlético de Madrid e que construiu uma reputação muito antes de decidir ser técnico. Seu desafio talvez seja justamente fazer com que o treinador deixe, aos poucos, o jogador para trás.
Davide Ancelotti enfrenta uma questão diferente.
Durante anos, seu sobrenome foi impossível de separar de sua profissão. Ser filho de Carlo Ancelotti certamente abriu portas, proporcionou experiências que poucos profissionais teriam tão cedo e permitiu que ele acompanhasse de perto alguns dos maiores vestiários do futebol mundial. Mas o mesmo sobrenome que abre portas também pode se transformar em uma porta difícil de atravessar.
Por isso, assumir o Lille representa mais do que uma promoção profissional. É a primeira oportunidade de escrever uma história que não tenha o pai como personagem principal.
Não será mais “o filho de Carlo Ancelotti”. Será simplesmente Davide Ancelotti.
Talvez seja justamente isso que torne tão interessante acompanhar os dois na Ligue 1. Eles não chegam à França como páginas em branco. Pelo contrário. Chegam carregados de histórias, expectativas e julgamentos prévios.
Filipe precisa provar que pode ser tão bom quanto foi no Flamengo. Davide precisa mostrar que sua carreira não é apenas uma extensão daquela construída pelo pai.
No futebol, existe uma tendência de acreditar que o começo é sempre o momento mais fácil. Antes do primeiro jogo, tudo é possibilidade. O treinador ainda não perdeu, o projeto ainda não fracassou e nenhuma escolha foi transformada em erro.
Mas começar de novo também significa aceitar que tudo aquilo que veio antes pode deixar de ser suficiente.
É isso que Monaco e Lille oferecem aos dois: a possibilidade (e a obrigação) de recomeçar.
Filipe Luís já teve uma carreira que muitos jogadores jamais terão. Davide Ancelotti já viveu dentro de alguns dos maiores clubes do mundo antes mesmo de comandar um deles. Ainda assim, quando o árbitro apita e a bola começa a rolar, nada disso garante uma vitória.
No fim das contas, o futebol sempre encontra uma maneira de lembrar que ninguém consegue viver para sempre daquilo que já foi.
Na França, Filipe Luís e Davide Ancelotti têm a oportunidade de fazer justamente o contrário: descobrir aquilo que ainda podem ser.