Figuras esquecidas pela História estarão na série de Luiz Fernando Carvalho
A minissérie ainda sem título, contará com 16 capítulos e 30 minutos cada para falar sobre o período da Independência_x000D_
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 03/11/2021
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Luiz Fernando Carvalho pretende, com sua minissérie ainda sem título, com 16 capítulos e 30 minutos cada para falar sobre o período da Independência, e apresentar o avesso da História. “O olhar comum para aquele momento é romanceado, quando foram momentos bárbaros. Assim, é preciso fazer uma autocrítica, a começar pela própria cultura branca, que se julgava superior”, explica.
“Minha proposta é fazer uma reflexão sobre a aurora do século 21”, explica o encenador ao Estadão. “Estamos diante da ‘colonialidade’, sistema fundado pela modernidade. Logo, apresentamos a modernidade como uma sucessão de eventos trágicos. O despontar de uma era trágica.”
A TV Cultura aceitou a proposta e, desde setembro, Carvalho iniciou sua habitual forma de trabalho. Carvalho escalou um elenco heterogêneo, com multiplicidade de vozes, em que atrizes baianas discutem seus problemas com angolanas que vivem em Portugal. E, apesar da presença de atores consagrados (Antonio Fagundes, por exemplo, vai viver d. João VI assim como André Frateschi será o intérprete de Chalaça), o diretor pretende inverter o papel do protagonismo. “Currículo não pesa.”
Carvalho ensaia com o elenco em um galpão na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo. Trata-se, como de hábito, de um trabalho de aprofundamento de conhecimento, ou seja, não se trata apenas de repetir as cenas, mas de estudar e entender o momento histórico. Para isso, o diretor promoveu palestras elucidativas, como com a historiadora Ynaê Lopes dos Santos. “Pensar o século 19 é refazer o caminho antes dele, na divisão do mundo entre opressores e oprimidos.”
Os ensaios continuam no galpão até 17 de dezembro e, em janeiro, começam as filmagens, que deverão ocorrer no Rio, Salvador e Lisboa, no Palácio de Queluz, palco do início (1808) e do fim da história (1834) contada pela série.
PRESENÇA FEMININA
Assim, ao lado do dramaturgo Luís Alberto de Abreu, o diretor elabora um projeto que busca reivindicar a participação de um conjunto de saberes, culturas, subjetividades e personagens que foram postos à margem ou que, violentamente, foram apagados pela história oficial. “A importância da presença feminina na Independência do Brasil está em d. Leopoldina, artífice central daquele processo”, observa Carvalho, que escalou uma atriz inglesa para o papel. “Surgem também figuras como Maria Felipa, cuja participação foi referencial na luta pela independência da Bahia, e o Padre José Maurício, maestro negro da Corte Imperial, mas ausente dos registros tradicionais.”
Ao relevar a importância de figuras hoje esquecidas, o diretor combate o que chama de Pedagogia da Ausência, ou seja, um sistema que funciona a partir da exclusão e do apagamento de nomes e fatos. “A série, portanto, é uma escavação em busca do passado, reencontrando fantasmas nas salas do império, colonialismo, violência social, autoritarismo e escravidão.”
PREPARAÇÃO
Dessa forma, o processo criativo é detalhado, como sempre acontece nos trabalhos de Carvalho. “É o momento em que todos participam, sem exceção”, conta o encenador, destacando, por exemplo, a presença das costureiras que confeccionam os figurinos criados por Alexandre Herchcovitch, em um ateliê montado no espaço. “Todo conhecimento é compartilhado, pois essa é a síntese do galpão.”
É esse entendimento que faz com que o projeto da minissérie seja um trabalho atual, não de época. “Nosso presente está repleto de passado. Me parece fundamental essa ponte entre nossas fundações e os desdobramentos que ocorreram nos séculos seguintes. O século 19 foi um período estrutural, marcando avanços e retrocessos com os quais lidamos até hoje.”
“São várias questões em busca de respostas: a quem interessou a Independência? Ela realmente existiu ou foi um golpe da elite?”, questiona Carvalho. “Em meus trabalhos, sempre me pergunto: que país é esse? Agora se faz necessária a atualização dessa interrogação. Nos tempos de hoje, quando a linguagem do streaming se torna cada vez mais onipresente no cotidiano das pessoas, o convite da TV Cultura é um enorme desafio: refazer o diálogo entre entretenimento e educação.”