Crianças hiperconectadas: como equilibrar tempo livre e uso de telas
Psicóloga alerta para impactos no sono, no comportamento e no aprendizado e defende planejamento de atividades offline para fortalecer vínculos familiares
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 23/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Durante as férias escolares, quando a rotina muda e o tempo livre aumenta, o excesso de telas como celulares, tablets, computadores e TVs tem se tornado um desafio para muitas famílias do Grande ABC. O alerta de especialistas é claro: embora a tecnologia faça parte da vida das crianças, o excesso de telas pode comprometer o desenvolvimento emocional, social e cognitivo, especialmente nesse período de pausa escolar.
Segundo a psicóloga e neuropsicóloga Adriana Vieira, as férias exercem um papel fundamental no desenvolvimento infantil. “Esse período favorece o descanso da escola e a consolidação do que foi aprendido. É quando a criança consegue organizar as ideias, aumentar a criatividade e a autonomia por meio das brincadeiras livres e do contato com pessoas fora do ambiente escolar”, explica. Ela destaca ainda que é nas férias que os laços familiares tendem a se fortalecer, contribuindo para a regulação emocional e para a construção de uma criança mais segura e confiante.
Quando o excesso de telas se torna um problema

O problema surge quando o tempo livre é preenchido quase exclusivamente por telas. De acordo com a especialista, o excesso de telas, comum durante as férias, pode gerar insônia, ansiedade e irritabilidade. “Além disso, há prejuízos na atenção, na memória e na criatividade, o que dificulta, inclusive, a readaptação ao ritmo escolar quando as aulas retornam”, afirma.
A interferência do excesso de telas no sono é um dos pontos de maior preocupação. Adriana explica que a luz azul emitida pelos dispositivos afeta a produção de melatonina, hormônio responsável pelo sono. “Isso causa dificuldade para dormir e reduz o tempo e a qualidade do descanso. No comportamento, podem surgir irritação, ansiedade e até agressividade, especialmente quando a criança é impedida de continuar usando a tela”, pontua. No campo da aprendizagem, os impactos incluem prejuízos na linguagem, na concentração, na memória e no desenvolvimento social e emocional.
Agenda offline e limites claros nas férias
Para evitar conflitos, a psicóloga defende que os limites sejam estabelecidos de forma clara e previsível. “Os pais podem definir tempo de uso e, se necessário, contar com aplicativos de bloqueio automático. Mas isso precisa vir acompanhado de alternativas atrativas, como passeios, viagens curtas, jogos de tabuleiro e brincadeiras interativas”, orienta. Ela acrescenta que envolver as crianças em tarefas domésticas também é uma estratégia positiva, pois reduz o tempo de tela e estimula cooperação e responsabilidade.
Nesse contexto, ganha força a chamada “agenda offline”. A proposta, segundo Adriana, é planejar intencionalmente atividades longe dos dispositivos digitais. “É organizar brincadeiras físicas, atividades culturais e de lazer, como se fosse um retorno às férias de antigamente, sem a necessidade constante de checar jogos, redes sociais ou mensagens”, define.
Atividades fora das telas, como visitas a museus, exposições, leitura, jogos de tabuleiro e brincadeiras coletivas — com bola, bonecas ou jogos simbólicos — são apontadas como grandes aliadas do desenvolvimento emocional e social. “Essas experiências desafiam a criança mental e socialmente e ajudam a desenvolver o ‘jogo de cintura’ essencial para o convívio em grupo”, ressalta a neuropsicóloga.
Outro ponto central é o exemplo dado pelos adultos. “Pais que passam muito tempo no celular deixam de oferecer atenção genuína aos filhos, o que pode gerar sentimento de rejeição e ansiedade. Além disso, por espelhamento, a criança aprende que esse é o comportamento esperado e incorpora o hábito muito cedo”, alerta Adriana.
A realidade descrita pela especialista se reflete no dia a dia de muitas famílias. Moradora de São Bernardo, a analista de sistemas Mayara Ribeiro, 38 anos, mãe de João Pedro, 9 anos, e Helena, 6 anos, vive esse dilema. Trabalhando em home office três dias por semana, ela conta que nem sempre consegue acompanhar de perto o tempo de tela dos filhos. “Quando percebo, os dois já estão no celular, no computador ou na TV. Tem o lado bom e o ruim. Ajuda a deixá-los ocupados enquanto precisamos trabalhar, mas estabelecer limites para evitar o excesso de telas sem estresse ou birra é muito difícil”, relata.
O desafio, segundo os especialistas, não está em eliminar a tecnologia, mas em encontrar equilíbrio para evitar o excesso de telas. Planejamento, diálogo, limites claros e, principalmente, presença dos adultos são apontados como caminhos possíveis para que as férias sejam um período de descanso, conexão familiar e desenvolvimento saudável — longe do excesso de telas.
