Feminicídios crescem e investimento em segurança cai em SP
Dados oficiais apontam alta da violência contra mulheres e baixo aporte na Polícia Civil
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 17/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
De janeiro a outubro deste ano, ao menos 207 mulheres foram vítimas de feminicídios no estado de São Paulo. No mesmo período, São Paulo figurou entre os estados que menos investiram em Segurança Pública por habitante no país, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025. Para o Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), a combinação entre o avanço dos feminicídios e a redução de recursos públicos compromete diretamente o enfrentamento à violência de gênero.
Levantamento divulgado pelo Instituto Sou da Paz no último dia 8 aponta que os feminicídios cresceram 10% no estado em comparação com o mesmo período de 2024, quando foram registrados 188 casos. De acordo com a análise do Sindpesp, discursos misóginos e crimes cibernéticos também contribuem para a escalada da violência contra mulheres.
São Paulo está entre os últimos em investimento per capita

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 mostra que São Paulo ocupou a 26ª posição entre as 27 unidades da federação no quesito gasto per capita com Segurança Pública em 2024. O estado, governado por Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), investiu R$ 362,48 por habitante, apesar de ter registrado arrecadação recorde de R$ 275 bilhões em impostos no ano passado.
São Paulo aparece à frente apenas do Maranhão, que investiu R$ 317,47 por morador, com receita estimada em R$ 24,1 bilhões. Na outra ponta do ranking, o Amapá lidera os investimentos nacionais, com R$ 1.355,21 por habitante, mesmo com orçamento previsto de R$ 9,75 bilhões em 2024.
Baixo investimento impacta combate aos feminicídios

Para o Sindpesp, o histórico de baixo investimento na Polícia Civil paulista enfraquece investigações, compromete o atendimento especializado às vítimas e contribui para o aumento dos feminicídios.
“Casos de violência doméstica exigem investigação qualificada, pedidos de medidas protetivas ao Judiciário e acolhimento humanizado nas delegacias especializadas. Tudo isso depende de recursos. A Polícia Civil detém essas atribuições e poderia fazer muito mais pela sociedade, mas os investimentos vêm sendo reduzidos”, afirma a delegada Jacqueline Valadares, presidente do sindicato.
Segundo ela, crimes digitais, que também potencializam a violência de gênero, demandam apuração técnica e uma Polícia Civil estruturada, cenário que hoje não corresponde à realidade do estado.
Delegacias da Mulher enfrentam estrutura insuficiente

Atualmente, São Paulo conta com 142 Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), sendo 18 com funcionamento 24 horas, além de 170 Salas DDMs, com atendimento virtual ininterrupto. Apesar da ampliação, a estrutura disponível não tem sido suficiente para conter o avanço dos feminicídios, como indicam as estatísticas oficiais.
“O governo criou novas DDMs 24 horas neste ano, mas não investiu o necessário em recursos humanos e materiais. Para suprir a demanda, retirou policiais de outras delegacias, que ficaram desfalcadas. Foi o famoso ‘despir um santo para cobrir outro’”, critica Jacqueline Valadares.
Déficit de profissionais agrava cenário
De acordo com o Sindpesp, o déficit atual da Polícia Civil paulista é de cerca de 15 mil profissionais. Para a entidade, enfrentar os feminicídios passa necessariamente pela recomposição do efetivo, investimento em capacitação e valorização salarial.
“É preciso investir em pessoas, contratar mais servidores, capacitar equipes e garantir salários compatíveis. Sem isso, talentos migram para outras carreiras ou para estados que oferecem melhores condições”, conclui a presidente do sindicato.
Os dados reforçam o alerta de que o combate aos feminicídios exige mais do que discurso: demanda investimento contínuo, estrutura adequada e políticas públicas eficazes.