Fé e Lucro: o desafio da verdadeira responsabilidade social no Brasil
Entre a fé e o lucro, cresce o debate sobre responsabilidade social, coerência e o papel transformador das empresas e igrejas
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 07/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
O Brasil é um país de fé. Mas é também um país de contradições. De um lado, igrejas lotadas e slogans corporativos com palavras como “propósito”, “gratidão” e “transformação”. Do outro, uma sociedade com mais desigualdade que empatia e mais discurso que entrega.
A pergunta é simples — e incômoda: onde está a responsabilidade social quando a fé e o lucro caminham juntos, mas não olham para o mesmo lado?
Quando o propósito vira estratégia de marketing
Nos últimos anos, vimos crescer o número de empresas que “pregam propósito” com a mesma intensidade que pregadores televisivos vendem milagres. Mas, no fundo, o que muitas delas praticam é um tipo de fé conveniente: a fé no retorno da imagem, não no impacto real.
O termo responsabilidade social virou clichê de campanha. Enquanto isso, o país continua figurando entre os piores índices de educação, segurança, saúde e empregabilidade, mesmo sendo a 10ª economia do planeta.
Como pode uma nação tão religiosa, tão emocional e tão rica continuar produzindo tanta desigualdade O problema é que fé sem ação é retórica, e lucro sem propósito é vazio. E quando ambos se encontram no mesmo CNPJ, o resultado costuma ser um discurso bonito, mas um legado estéril.
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A fé que não cabe no balanço

Há algo de profundamente distorcido na forma como medimos sucesso. Celebramos líderes religiosos bilionários e executivos que “doam parte dos lucros” enquanto mantêm estruturas que perpetuam a exclusão. E chamamos isso de responsabilidade social. Mas responsabilidade social não é esmola institucionalizada.
Responsabilidade social é entender que a fé que transforma vidas precisa andar de mãos dadas com o lucro que as sustenta — e ambos devem servir à sociedade, não explorá-la. Não é o dízimo nem o bônus de fim de ano que define o impacto, mas o quanto se devolve em dignidade, educação e oportunidades.
Enquanto o país continuar confundindo caridade com marketing, e ética com storytelling, continuará sendo um território fértil para o cinismo.
Lucro é bom. Mas depende de quem lucra.
Falar de lucro não é pecado. Pecado é lucrar com a ignorância, com a fé alheia ou com a ausência do Estado. Lucro saudável é aquele que multiplica — não apenas cifras, mas também possibilidades.
O verdadeiro líder — seja ele religioso, político ou corporativo — entende que o poder econômico é só ferramenta. Fé é energia. Lucro é combustível. Mas propósito sem entrega é vaidade travestida de virtude.
O Brasil que ora, mas não age

Temos 897 mil organizações da sociedade civil. Temos igrejas em cada esquina. Temos empresários que falam de Deus em eventos de networking. E ainda assim, temos milhões sem acesso a saneamento, educação de qualidade e emprego digno.
A fé é abundante. O lucro também. O que falta é coerência.
O evangelho do impacto
Fé e lucro não são inimigos. Mas também não podem ser cúmplices da omissão. O Brasil precisa de menos pregações e mais exemplos; menos “propósito” nas embalagens e mais propósito nas planilhas.
A verdadeira responsabilidade social não é dar o que sobra — é redistribuir o que transforma. Porque no fim das contas, não é a fé que move montanhas — é a responsabilidade de quem tem poder para não deixá-las cair sobre os outros.
E talvez seja justamente aí que esteja o ponto cego da nossa economia e da nossa espiritualidade: confundimos prosperidade com posse e fé com retórica. A verdadeira riqueza — como define Antonio Veiga, empreendedor social — “é o que sobra depois que se perde tudo”. Ela não está no saldo bancário, mas no saldo moral. Não se mede em faturamento, mas em legado. Porque fé e lucro, quando se divorciam da responsabilidade social, produzem apenas poder e vaidade; mas quando caminham juntos com propósito, produzem o que o dinheiro sozinho jamais comprará — riqueza de sentido, de gente e de futuro.
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