Falta de mão de obra qualificada vira maior gargalo da indústria no ABC
A escassez de talentos técnicos atinge níveis alarmantes em 2026, exigindo que o setor industrial brasileiro redesenhe suas estratégias de retenção e produtividade.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 19/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
A falta de mão de obra qualificada é hoje um dos maiores gargalos para a expansão do setor fabril, superando desafios logísticos e tributários tradicionais. Segundo nota técnica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a preocupação com a ausência de profissionais capacitados saltou de 5% em 2015 para expressivos 23% em 2024. Este fenômeno ocorre em um momento paradoxal: enquanto o desemprego atinge patamares historicamente baixos (5,1%), as fábricas lutam para preencher postos que exigem conhecimento técnico especializado.
No Grande ABC, berço da industrialização brasileira, o impacto é sentido de forma direta no chão de fábrica. Setores como o de embalagens, essenciais para a cadeia de suprimentos global, enfrentam uma transformação demográfica e comportamental que ameaça o ritmo de produção. Para entender as nuances desse cenário, conversamos com Marcel Batistella Mazurkyewistz, co-CEO do Grupo Mazurky, que detalha como a crise de talentos altera a rotina operacional e financeira das empresas.
O impacto real da falta de mão de obra qualificada na operação

A teoria dos dados estatísticos ganha contornos dramáticos quando analisada sob a ótica de quem gere grandes volumes de produção. A falta de mão de obra qualificada deixa de ser um número em um relatório da CNI para se tornar um desafio diário de gestão de pessoas e processos. De acordo com Mazurkyewistz, a estabilidade que outrora caracterizava o setor deu lugar a uma volatilidade preocupante.
“A escassez de mão de obra se reflete em equipes cada vez mais enxutas tentando sustentar o ritmo produtivo. O que antes era um quadro estável, formado por trabalhadores experientes que constituíam a espinha dorsal do chão de fábrica, hoje se tornou um cenário marcado por alta rotatividade e dificuldade de reposição“, explica o executivo.
Essa dinâmica gera um custo invisível: o ciclo ininterrupto de treinamento. A baixa retenção de novos funcionários obriga as indústrias a investirem recursos constantes em integração, sem que o colaborador chegue a atingir o pico de produtividade esperado. Além disso, há a perda do capital intelectual. A tradição de famílias operárias no ABC, onde o conhecimento técnico era passado de pai para filho, está em declínio acentuado.
A disputa entre a fábrica e a economia dos aplicativos
O avanço da “uberização” e das plataformas digitais alterou a percepção dos jovens sobre o que constitui uma carreira atraente. A autonomia imediata oferecida pelo trabalho autônomo compete diretamente com a rigidez de horários e a presença física exigida pela indústria. Para reverter a falta de mão de obra qualificada, as empresas estão sendo forçadas a modernizar não apenas suas máquinas, mas sua cultura organizacional.
Marcel Mazurkyewistz destaca que o movimento atual é de aproximação com as novas gerações. O foco recai em mostrar que a indústria contemporânea é tecnológica e automatizada, distanciando-se da imagem obsoleta de ambientes insalubres. O objetivo é provar que, embora a fábrica não ofereça a flexibilidade total de um aplicativo, ela entrega estabilidade e um plano de carreira técnica que o trabalho digital informal raramente sustenta.
As estratégias de combate à falta de mão de obra qualificada incluem:
- Investimento em programas de aprendizagem acelerada.
- Formação de parcerias estratégicas com escolas técnicas locais.
- Modernização do ambiente fabril para torná-lo visualmente e tecnologicamente atraente.
- Fomento ao desenvolvimento técnico progressivo com foco em propósito concreto.
O efeito dominó na produtividade e rentabilidade

Quando uma vaga técnica permanece aberta por muito tempo, o prejuízo não se limita à função não exercida. Existe um efeito dominó que compromete toda a saúde financeira da organização. A falta de mão de obra qualificada afeta a capacidade de entrega e, por consequência, a confiança do mercado.
O co-CEO do Grupo Mazurky alerta que o problema reduz a escala produtiva de forma silenciosa. As máquinas estão disponíveis, mas a falta de operadores preparados para manuseá-las com segurança e eficiência trava a linha de produção. Isso resulta em um aumento inevitável nos custos operacionais, já que a empresa precisa recorrer a horas extras constantes para suprir os buracos na escala.
“Isso compromete prazos de entrega, fragiliza a confiança dos clientes e pode resultar na perda de contratos. Ao longo do ano, esse encadeamento afeta a rentabilidade de forma silenciosa: aumentam os custos com recrutamento recorrente, enquanto a escala se reduz e as margens se estreitam“, afirma Mazurkyewistz.
O cenário é agravado pela aposentadoria iminente da geração mais experiente. Sem substitutos à altura, a transição de conhecimento é interrompida, criando um vácuo técnico que as empresas ainda lutam para preencher através da automação intensiva.
Transformação regional no Grande ABC

A crise de talentos atinge o coração da identidade do Grande ABC. Historicamente dependente do setor fabril, a região vê sua estrutura social e econômica ser pressionada pela falta de mão de obra qualificada. O impacto transborda os muros das fábricas, afetando desde a arrecadação municipal até o comércio local que orbita os polos industriais.
A ruptura da tradição operária local exige uma reinvenção rápida. A pressão por automação é a resposta lógica, mas ela demanda investimentos vultosos que nem todas as pequenas e médias indústrias conseguem suportar isoladamente. A transformação do perfil das vagas é inevitável: postos puramente manuais estão sendo substituídos por funções que exigem supervisão de sistemas e interpretação de dados complexos.
Perspectivas para 2026 e o futuro da indústria
Olhando para o horizonte de 2026, a solução para a falta de mão de obra qualificada passa obrigatoriamente pela educação e pela tecnologia. A automação não deve ser vista como uma substituta total do ser humano, mas como uma ferramenta que eleva a necessidade de qualificação intelectual do trabalhador.
Para Marcel Mazurkyewistz, o cenário exige um “realismo otimista”. As empresas que sobreviverem e prosperarem nos próximos anos serão aquelas que assumirem o papel de formadoras, atuando como verdadeiras extensões das escolas técnicas. A cultura empreendedora do ABC, acostumada a crises cíclicas, é o ativo que pode liderar essa reconversão da mão de obra em nível nacional.
O sucesso industrial nos próximos anos dependerá de uma ação coletiva entre governo, instituições de ensino e o setor privado. Somente através da reconstrução da imagem da indústria como um ambiente de futuro e inovação será possível atrair os jovens talentos necessários para manter o Brasil competitivo globalmente. A falta de mão de obra qualificada é um desafio estrutural, mas também uma oportunidade para elevar o padrão técnico de toda a cadeia produtiva nacional.