Expansão do Hidrogênio Verde esbarra em gargalos na transmissão de energia

Setor acumula investimentos bilionários, mas encontra entraves na rede elétrica brasileira

Expansão do Hidrogênio Verde esbarra em gargalos na transmissão de energia

Crédito: Divulgação/Ari Versiani/PAC

Promissor como alternativa sustentável na transição energética e vetor estratégico para atração de investimentos, o hidrogênio verde tem ganhado destaque no Brasil. No entanto, apesar do potencial e do interesse de investidores, o avanço dos projetos enfrenta um grande obstáculo: a limitada capacidade da atual infraestrutura de transmissão de energia do país.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), órgão responsável pela gestão da malha de transmissão, rejeitou recentemente os oito primeiros pedidos de conexão à rede feitos por usinas de hidrogênio.

A justificativa foi clara: não há, no momento, margem segura para integrar projetos de tamanho porte. Cada empreendimento demanda em média 1,5 gigawatt (GW) de potência — volume comparável à produção da usina nuclear Angra 2.

Investimentos paralisados e pressão regional

Segundo estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), cerca de R$ 188 bilhões em investimentos estão condicionados à viabilização desses projetos.

A morosidade no reforço da rede elétrica preocupa líderes políticos e empresários, principalmente no Nordeste, região que concentra a maioria dos empreendimentos planejados, por estar próxima a polos de geração eólica e solar.

Governadores nordestinos, como Elmano de Freitas (Ceará), têm cobrado mais celeridade do governo federal. “É inaceitável que tenhamos investidores prontos para aplicar recursos e não consigamos garantir a infraestrutura básica para recebê-los”, afirmou o governador em evento recente.

O apelo também vem de representantes do setor produtivo. Fernanda Delgado, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde (ABIHV), alerta para o risco de fuga de investimentos internacionais: “Sem uma resposta rápida, outros países podem sair na frente e atrair esses recursos”.

Perspectivas e ações governamentais

Diante da pressão crescente, o governo encomendou à Empresa de Pesquisa Energética (EPE) um estudo detalhado para definir a expansão necessária da rede elétrica. A expectativa é que o levantamento oriente futuros leilões de novas linhas e medidas de proteção ao sistema. No entanto, os prazos estimados para conclusão das obras são considerados longos — soluções mais robustas só estariam disponíveis a partir de 2032.

A lentidão preocupa ainda mais diante da janela limitada para a concessão de benefícios fiscais. A legislação atual prevê cerca de R$ 18 bilhões em incentivos tributários, mas os créditos só estarão disponíveis entre 2028 e 2032. Se os projetos não estiverem conectados à rede a tempo, correm o risco de perder esse apoio.

Por enquanto, dos nove pedidos feitos ao ONS, apenas um segue em análise. Os demais foram reencaminhados à fila após mudanças nas regras de outorga. Enquanto isso, o país assiste à possibilidade de liderar o mercado global de hidrogênio verde esbarrar em desafios estruturais internos.

  • Publicado: 21/04/2025 23:33
  • Alterado: 21/04/2025 23:33
  • Autor: Suzana Rezende
  • Fonte: Associação Brasileira da Indústria de Hidrogênio Verde