Exames de vista podem ajudar no diagnóstico precoce do Alzheimer
Pesquisadores investigam alterações na retina como possíveis marcadores do Alzheimer e apontam caminhos para prevenir a demência
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 07/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
O Alzheimer, doença neurodegenerativa que atinge milhões de pessoas no mundo, pode ser identificado de maneira mais simples do que se imagina. Um estudo recente, publicado na revista científica Alzheimer’s & Dementia, indica que exames oftalmológicos de rotina podem revelar alterações na retina que sinalizam os estágios iniciais da doença.
A pesquisa, conduzida por cientistas americanos, observou em camundongos geneticamente modificados para desenvolver sintomas semelhantes ao Alzheimer a presença de vasos retinianos torcidos, artérias estreitadas e inchadas, além de uma redução na ramificação dos vasos sanguíneos. Essas alterações foram acompanhadas de mudanças em proteínas, tanto no cérebro quanto na retina dos animais.
Apesar dos avanços, a tecnologia ainda não está disponível para uso clínico. Os resultados são promissores, mas os pesquisadores ressaltam que será necessário ampliar os estudos para humanos antes de transformar a descoberta em prática médica. A expectativa é que, caso confirmada, a técnica possa identificar sinais da doença até 20 anos antes do aparecimento dos primeiros sintomas.
A retina como extensão do cérebro
A retina é considerada por muitos cientistas uma extensão direta do sistema nervoso central. Diferente do cérebro, que está protegido pela caixa craniana, os olhos oferecem acesso relativamente simples a essa rede complexa de neurônios. Isso torna a análise ocular um caminho viável para investigar doenças neurológicas.
Segundo a professora Viviane Zétola, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), hoje, quando pacientes idosos apresentam queixas de esquecimento, o protocolo médico inclui exames de audiometria. “Ainda não existe o mesmo protocolo para pacientes com distúrbios visuais”, explica. Para ela, é necessário investigar a relação entre condições como catarata e glaucoma com a demência, já que tais comorbidades têm conexões conhecidas com doenças neurodegenerativas.
Evidências da ligação entre visão e Alzheimer
A relação entre problemas de visão e demência é cada vez mais estudada pela comunidade científica. A perda de visão já está reconhecida como um dos 14 fatores de risco modificáveis para o Alzheimer, de acordo com a comissão da revista The Lancet. No entanto, os mecanismos fisiológicos que ligam os dois fenômenos ainda não são totalmente compreendidos.
Um estudo de coorte publicado na Journal of the American Medical Association (JAMA) mostrou que a catarata pode aumentar em até 92% o risco de desenvolver demência, especialmente a de origem vascular, além de reduzir o volume da massa cinzenta no cérebro.
Outra revisão, que analisou resultados de 13 meta-análises e mais de 230 artigos científicos originais, reuniu informações de 99 milhões de pessoas ao redor do mundo. Os dados apontaram uma relação significativa entre catarata, degeneração macular e Alzheimer. Retinopatia diabética e perda de visão também apresentaram correlação, ainda que mais fraca.
Esses achados reforçam a importância de integrar a oftalmologia aos esforços de diagnóstico precoce e prevenção da demência.
O impacto social da doença
O Alzheimer é a forma mais comum de demência, responsável por 60% a 70% dos casos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que mais de 55 milhões de pessoas vivam com algum tipo de demência no mundo, e esse número deve chegar a 139 milhões até 2050, em razão do envelhecimento populacional.
No Brasil, dados da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz) indicam que cerca de 1,2 milhão de pessoas convivem com a doença, mas quase metade delas não tem diagnóstico formal. A demora em identificar os sintomas compromete o tratamento e aumenta o impacto social e econômico sobre famílias e sistemas de saúde.
Nesse cenário, novas ferramentas diagnósticas, como a proposta pelo estudo americano, podem representar um divisor de águas. Identificar a doença de forma precoce permitiria não apenas iniciar tratamentos antes, mas também planejar cuidados, melhorar a qualidade de vida dos pacientes e reduzir custos para o sistema público de saúde.
Prevenção continua sendo fundamental
Enquanto novas tecnologias não chegam à prática clínica, especialistas reforçam que a prevenção é o caminho mais eficaz para reduzir os riscos do Alzheimer e de outras demências.
Alessandra Camacho, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que “é preciso manter a cabeça ativa e uma vida social”. De acordo com a especialista, hábitos simples, como estudar, ler, praticar atividades físicas, evitar o cigarro e o consumo excessivo de álcool, além de manter uma alimentação equilibrada, contribuem para preservar a saúde cerebral.
A recomendação vai ao encontro de estudos internacionais que relacionam estilo de vida saudável à redução do risco de doenças neurodegenerativas. O estímulo cognitivo e a socialização aparecem como fatores de proteção importantes para manter a mente ativa por mais tempo.
Desafios e perspectivas
O caminho até que exames oftalmológicos se tornem aliados do diagnóstico precoce do Alzheimer ainda é longo. Será necessário comprovar a eficácia da técnica em seres humanos, definir protocolos de aplicação e garantir que a tecnologia seja acessível à população.
Apesar disso, especialistas veem com otimismo a possibilidade. Caso confirmada, a inovação pode permitir que pacientes sejam diagnosticados décadas antes do surgimento dos sintomas, possibilitando intervenções precoces e mudanças no estilo de vida que retardem a progressão da doença.
O estudo também reforça a necessidade de uma abordagem multidisciplinar no enfrentamento do Alzheimer, unindo áreas como neurologia, oftalmologia, geriatria e saúde pública. O avanço científico, somado à conscientização sobre hábitos saudáveis, pode abrir novos horizontes para milhões de pessoas que hoje vivem sob a ameaça da demência.