Everton e o pintor do impossível: artista une mágica e arte plástica em espetáculo premiado
Ilusionista e artista visual, Everton conquistou o Grand Prix latino-americano de mágica com um ato dramático e autoral. Agora, ele se prepara para representar o Brasil no Mundial de Mágica na Itália
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 23/06/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Foi em 2006, ainda adolescente, que Everton conheceu o mundo da mágica. “Eu descobri o Google e uma das minhas primeiras pesquisas foi sobre mágica. Achei um curso online que liberava as aulas aos poucos e comecei a estudar”, conta. Incentivado pela mãe, que trabalhava com decoração de festas, Everton começou a se apresentar em eventos e a usar o dinheiro para investir em novos materiais. Nascia ali uma paixão que se tornaria carreira.
Natural de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, Everton cresceu longe dos grandes centros culturais. “Fui conhecer um mágico pessoalmente só depois de cinco ou seis anos trabalhando com isso. Até lá, eu mesmo fabricava meus equipamentos com o que tinha à disposição”, lembra. A mágica e o desenho andaram juntos desde o início, duas linguagens que hoje se fundem em seu espetáculo autoral.
Um espetáculo que levou sete anos para nascer
Everton é o criador de um número de mágica teatral e dramático, intitulado “O pintor do absurdo”, que já foi premiado em competições nacionais e internacionais. A performance, que dura apenas seis minutos, levou sete anos para ser desenvolvida. “Parece loucura gastar tanto tempo em algo tão curto, mas é um trabalho minucioso. Criei primeiro os efeitos impossíveis e depois fui atrás de formas de realizá-los, inclusive com impressora 3D e modelagem”, explica.
Inspirado em Ricardo Arada, teórico da mágica, Everton construiu um personagem único: um pintor que perde o controle da própria criação enquanto tenta fazer um autorretrato. “Nesse ato, o mágico não é o causador, mas a vítima. É um personagem que sofre com a transformação dos objetos, com o desaparecimento das ferramentas. É uma mágica mais poética, com forte carga dramática e teatral”, afirma.
Da criação ao reconhecimento internacional
A trajetória nas competições começou em 2018, quando Everton assistiu à apresentação dos brasileiros William Seven e a dupla Charlatans no Campeonato Mundial de Mágica, na Coreia do Sul. Inspirado por eles, ele criou sua performance e, apenas um mês depois, participou de sua primeira competição, em Botucatu, onde conquistou o terceiro lugar.
Desde então, o espetáculo foi sendo aprimorado até que, em 2023, venceu o Campeonato Brasileiro de Ilusionismo, no Rio de Janeiro. Esse título garantiu a carta de recomendação para competir no campeonato do Flasoma (Federação Latino-Americana de Sociedades Mágicas): Campeonato Latino-Americano de Mágica, realizado em fevereiro de 2024. Lá, Everton conquistou o Grand Prix, prêmio máximo do festival. “Eu vendi meu carro para ir à competição. Foi uma aposta muito alta, mas era um material que eu acreditava demais”, revela.
Com o Grand Prix, Everton garantiu uma vaga para representar o Brasil no Campeonato Mundial de Mágica, que acontece em julho, na Itália.
O pintor do absurdo: entre mágica e metáfora
O número apresentado por Everton se destaca por fugir da estética clássica da mágica de cartola e coelho. Seu personagem é um artista que luta contra sua própria criação. “É uma metáfora sobre o processo artístico. O espetáculo é sobre um pintor que tenta pintar a si mesmo, mas tudo foge do controle. Há um grande efeito visual no final que impacta muito o público”, antecipa.
A atuação foge da fórmula tradicional de ilusionismo. “A maioria dos mágicos se coloca como o causador das coisas impossíveis. O meu personagem é a vítima. Isso cria uma tensão dramática diferente. É como usar um superpoder inútil para falar de coisas humanas, de dor, de criação, de caos”, reflete.
Mágica e tecnologia: o futuro do ilusionismo
Para Everton, a tecnologia não tirou o encanto da mágica, mas tornou mais difícil capturar a atenção do público. “Hoje é mais difícil fazer as pessoas assistirem a algo por uma hora sem pegar o celular. A inteligência artificial também trouxe um desafio: as pessoas veem vídeos tão realistas que acham que tudo é edição, mesmo o que é feito ao vivo”, comenta.
Apesar disso, ele acredita que o espetáculo ao vivo ganhará mais valor. “Acredito que, depois de um boom tecnológico, as pessoas vão buscar novamente o real. Vão querer ver teatro, circo, mágica ao vivo, com os próprios olhos”, afirma.
Flasoma e o Campeonato Mundial de Mágica
A Flasoma (Federação Latino-Americana de Sociedades Mágicas) é a principal competição de mágica da América Latina. Realizado a cada três anos, o evento reúne artistas de diversos países, com apresentações em diferentes categorias: manipulação, close-up, mentalismo, ilusionismo, entre outras. O Grand Prix é concedido ao número considerado mais completo e original entre todos os vencedores de categoria.
Já o Campeonato Mundial de Mágica, organizado pela FISM (Fédération Internationale des Sociétés Magiques), é considerado a “Copa do Mundo” da mágica. O evento ocorre a cada três anos e reúne os melhores artistas de cada continente. A próxima edição será em julho, na Itália, onde Everton representará o Brasil com sua performance autoral.
Um conselho para quem deseja entrar no mundo da mágica
Everton é direto ao aconselhar novos artistas: “Só entre se for vital, se você não conseguir viver fazendo outra coisa. Trabalhar com arte é extremamente difícil. Foram anos de investimento sem retorno, vendendo carro, gastando tudo para poder participar das competições. Se isso não for uma necessidade, nem comece”.
Ainda assim, ele reforça a importância da arte na sociedade. “A mágica tira as pessoas da realidade. É um despertar. Ver o impossível acontecer transforma. Mesmo que seja um superpoder inútil, como eu costumo brincar”, diz com humor.