Evasão no ensino médio acende alerta no Grande ABC
Queda de matrículas e mudanças no perfil dos estudantes refletem desafios sociais e educacionais na região
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 27/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
A redução no número de estudantes do ensino médio em todo o país reacendeu o debate sobre permanência escolar e desigualdade educacional. No Grande ABC, onde a juventude enfrenta pressões econômicas, mobilidade urbana complexa e entrada precoce no mercado de trabalho, o tema ganha contornos ainda mais urgentes. O esvaziamento das salas de aula não pode ser lido apenas como efeito demográfico ou estatístico, mas como reflexo direto das condições sociais que atravessam o cotidiano dos jovens da região.
Embora os dados mais detalhados de evasão por município ainda demandem validação específica, redes de ensino e especialistas já apontam sinais de enfraquecimento na trajetória escolar, especialmente na transição para o ensino médio. A queda na matrícula nacional, somada ao peso de São Paulo nesse cenário, indica que o impacto atinge diretamente polos industriais e periféricos como o ABC.
Ensino médio concentra maior risco de abandono

O ensino médio continua sendo a etapa mais vulnerável da educação básica. É nesse momento que muitos estudantes passam a dividir o tempo entre estudo e trabalho ou abandonam a escola diante da necessidade de renda. Em cidades com forte presença de empregos informais e deslocamentos longos, como ocorre em parte do ABC, a permanência escolar se torna um desafio logístico e financeiro.
Além disso, mudanças estruturais recentes no modelo curricular e a percepção de baixa conexão entre conteúdo escolar e mercado de trabalho contribuem para o desinteresse de parte dos jovens. O resultado é um afastamento gradual que, muitas vezes, não aparece imediatamente como evasão formal, mas se manifesta em faltas recorrentes e baixa frequência.
Pressões sociais moldam a trajetória dos jovens
A realidade socioeconômica do Grande ABC ajuda a explicar por que a evasão tende a se concentrar em territórios com maior vulnerabilidade. A necessidade de contribuir com a renda familiar, a falta de políticas consistentes de busca ativa e a ausência de redes de apoio escolar ampliam o risco de abandono.
Também pesa o impacto das desigualdades internas entre os municípios. Enquanto algumas cidades conseguem manter maior estabilidade nas redes de ensino, outras enfrentam dificuldades para garantir continuidade pedagógica, infraestrutura adequada e programas de permanência. Essa heterogeneidade reforça a necessidade de políticas regionais articuladas.
A modalidade de Educação de Jovens e Adultos, historicamente importante para recuperar trajetórias interrompidas, também enfrenta retração nacional. A redução de turmas limita o retorno de quem deixou a escola, o que afeta diretamente trabalhadores jovens e adultos do ABC que buscam qualificação tardia.
Políticas públicas e permanência escolar

O avanço de programas de incentivo financeiro à permanência, como o Programa Pé-de-Meia, surge como uma tentativa de conter o abandono. No entanto, especialistas apontam que a política isolada não resolve o problema sem integração com transporte, alimentação, tempo integral e acompanhamento pedagógico.
A ampliação da jornada escolar tem mostrado crescimento em nível nacional, mas ainda não alcança de forma homogênea as regiões metropolitanas. No ABC, a expansão do tempo integral depende de infraestrutura, financiamento e reorganização das redes municipais e estadual.
A melhoria do fluxo escolar, com redução da distorção idade-série, é um indicador positivo, mas não elimina o desafio central. Permanecer matriculado não significa necessariamente estar engajado ou aprender em condições adequadas. “Se não entendermos que é preciso ter política pública articulada para aumentar o atendimento, ficaremos novamente longe da meta daqui a 10 anos”, afirma Gabriel Corrêa, Todos Pela Educação.
ABC precisa de estratégia regional integrada
A complexidade do território do Grande ABC exige respostas que ultrapassem iniciativas isoladas por município. A mobilidade entre cidades, o compartilhamento de redes estaduais e municipais e a dinâmica econômica regional tornam indispensável um planejamento educacional integrado.
Entre os caminhos apontados por especialistas estão o fortalecimento da busca ativa, o monitoramento da frequência em tempo real, a ampliação de escolas em tempo integral nas áreas mais vulneráveis e a articulação com políticas de juventude e emprego protegido. Sem essas medidas, o risco é consolidar uma geração que conclui menos a educação básica e entra no mercado de trabalho com menor qualificação.
A evasão escolar no ABC faz parte de um termômetro das desigualdades sociais e das oportunidades oferecidas aos jovens da região. Enfrentar o problema exige investimento contínuo, coordenação entre governos e foco na permanência com aprendizagem, para que a escola volte a ser vista como caminho viável de futuro.