Estudos naturalísticos de direção

Câmeras móveis revelam como motoristas realmente se comportam no trânsito e ajudam a pensar políticas públicas mais eficazes

Crédito: Imagem: IA/ChatGPT – OpenAI

Você já parou para pensar quantas câmeras existem hoje nas cidades para monitorar pessoas? Elas são usadas para identificar casos de violência urbana, localizar foragidos da polícia ou até mesmo encontrar pessoas desaparecidas.

Só em São Paulo, como já destacamos aqui, são mais de 31 mil câmeras, número que cresce a cada nova divulgação da prefeitura. Mas e se, em vez de câmeras fixas, tivéssemos câmeras móveis, instaladas em veículos circulando pelas ruas?

É exatamente esse o princípio dos estudos naturalísticos de direção, ou Naturalistic Driving Studies (NDS). Câmeras que podem ser instaladas em automóveis, ônibus, motocicletas e bicicletas, que registram o comportamento humano na mobilidade urbana, em especial no transporte individual motorizado. Estas câmeras podem não só mostrar como as pessoas se comportam no trânsito, como também podem registrar um possível flagrante de sinistro de trânsito pela ótica de quem está no local do evento.

Câmeras de Videomonitoramento - Estudos Naturalísticos de Direção
Arquivo/Agência Brasil

Comportamento das pessoas no trânsito

Esses estudos já foram realizados em países como Estados Unidos, União Europeia, Austrália, Canadá, Japão, China e Irã. O diferencial é que as câmeras captam o que ocorre fora do veículo, permitindo observar o comportamento real dos motoristas, sem que eles se preocupem em estar sendo monitorados.

O exemplo mais representativo é o SHRP2 (Strategic Highway Research Program – Phase 2), conduzido nos Estados Unidos. A pesquisa envolveu mais de 3.500 veículos, resultou em 1 milhão de horas de vídeo, 56 milhões de quilômetros percorridos e mais de 1.500 sinistros registrados, publicados em 2015.

Com outro propósito, mas utilizando câmeras externas, a Rússia tem uma quantidade expressiva de Dashcams instaladas nos veículos, traduzindo, câmeras externas com o objetivo de inibir possíveis fraudes de seguros, como simulação de batidas ou similares, assim como a corrupção por pessoas que deveriam fiscalizar e organizar o trânsito. China, Reino Unido e Alemanha são outros exemplos desse registro para evitar acidentes na condução e inibir fraudes em sinistros de trânsito, cada um com suas particularidades e categorias monitoradas. Nesses casos, a captação de imagens acaba sendo muito superior aos estudos naturalísticos, mas só podem ser usadas com autorizações legais de cada país.

E o Brasil?

Desde 2019, a cidade de Curitiba realiza o Estudo Naturalístico de Direção Brasileiro (NDS-BR), financiado pelo CNPq, Universidade Federal do Paraná e Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV).

No estudo inicial, os condutores foram monitorados durante duas semanas. Sendo que, apenas três motoristas, que trabalhavam em aplicativos de mobilidade, foram acompanhados por uma semana. No entanto, como percorriam maiores distâncias diárias, o volume de dados coletados foi proporcional ao dos demais participantes.

O que foi observado em Curitiba?

Os resultados nos mostraram algo que temos observado no trânsito em geral por percepção, mas agora com dados concretos. Um dos dados mais relevantes foi o uso do aparelho celular ao volante. Os registros confirmaram que motoristas que cometem essa infração tendem a reduzir a velocidade enquanto dividem a atenção entre dirigir e usar o aparelho. Outro dado curioso é que essa prática é mais frequente quando o condutor está sozinho: na presença de passageiros, ela diminui consideravelmente.

Outro comportamento registrado foi o excesso de velocidade. Ele não ocorreu apenas em avenidas movimentadas, mas principalmente em ruas locais, onde a frequência chegou a 130 infrações por hora.

Por fim, os estudos mostraram que, em trechos monitorados por radar, muitos motoristas reduzem a velocidade apenas no ponto da fiscalização, voltando a acelerar logo em seguida. Isso indica que o cumprimento da lei é muitas vezes reativo e localizado, e não uma prática de segurança internalizada.

Estudos Naturalísticos de Direção
Reprodução/Amancio (2021)

Reflexões

Os estudos naturalísticos de direção trazem um olhar inovador e realista sobre o comportamento humano no trânsito. Diferentemente de pesquisas baseadas em entrevistas ou em dados agregados de acidentes, o NDS permite registrar em tempo real como os motoristas agem diante de situações cotidianas. Os resultados do Brasil, ainda que iniciais, confirmam tendências já observadas em outros países: o uso do celular, o desrespeito aos limites de velocidade e a adaptação comportamental ao radar mostram que o problema não está apenas na lei ou na fiscalização, mas na cultura de risco incorporada no modo de dirigir.

O uso de Dashcams por parte de iniciativa de seguradoras de veículos pode ser mais uma alternativa, pouco divulgada e utilizada no Brasil, que pode contribuir na redução de sinistros e corroborar com os possíveis registros de acidentes flagrados por câmeras.

Portanto, a continuidade desses estudos se torna essencial para embasar políticas públicas mais eficazes, combinando engenharia viária, educação para o trânsito e fiscalização inteligente. O trânsito mais seguro não será fruto apenas de mais radares ou multas, mas de compreender a fundo como as pessoas se comportam e como é possível induzir mudanças duradouras em prol da vida.

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
Divulgação/ABCdoABC

Especialista em mobilidade urbana e agente de transformação nesse setor. Atualmente, é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Atua como pesquisador no Programa de Pós-Doutorado em Engenharia de Transportes e é professor credenciado na Faculdade de Tecnologia da Unicamp. Possui doutorado em Engenharia Elétrica pelo Departamento de Comunicação da FEEC/Unicamp (2020), mestrado em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da USP (2009) e pós-graduação em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005). Formado em Administração de Empresas (2002) e Engenharia Mecânica (1999) pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 05/09/2025
  • Fonte: Sorria!,