Estudo da USP vincula drogas com 53% das mortes violentas
Levantamento da USP em quatro capitais revela que cocaína e álcool são as substâncias mais presentes em vítimas de homicídios
- Publicado: 31/05/2026 10:38
- Alterado: 31/05/2026 10:38
- Autor: Daniela Ferreira
- Fonte: Agência SP
Um estudo conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) revelou que 53% das vítimas de mortes violentas em quatro capitais brasileiras apresentavam álcool ou drogas no organismo no momento do óbito. A pesquisa, publicada na revista científica Toxics, analisou 3.577 casos entre 2022 e 2024 nas cidades de Belém, Recife, Vitória e Curitiba, representando todas as regiões do país.
O levantamento utilizou protocolos rigorosos de toxicologia para identificar substâncias psicoativas, incluindo drogas ilícitas e medicamentos. De acordo com o biomédico Henrique Silva Bombana, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e autor principal do estudo, o objetivo foi criar uma base de dados padronizada que permitisse comparar o papel dessas substâncias em diferentes contextos de violência estrutural.
Cocaína e Álcool no Topo das Detecções

Os resultados mostram que a cocaína foi a substância mais encontrada, presente em 30% das vítimas, seguida pelo álcool (28%), benzodiazepínicos (7%) e cannabis (2%). O estudo identificou padrões claros de associação entre a substância e o tipo de ocorrência: a cocaína teve forte prevalência em casos de homicídio, enquanto o álcool foi o principal fator em acidentes de trânsito.
O perfil das vítimas reflete as estatísticas de violência no Brasil, sendo composto em sua maioria por homens (90%) e indivíduos com mais de 30 anos (56%). No caso dos homicídios, que representaram 67% das mortes analisadas, a maioria das vítimas foi atingida por disparos de arma de fogo, em um cenário de violência que o pesquisador associa tanto ao mercado ilegal de drogas quanto à flexibilização do controle de armas no período.
Variações Regionais e Suicídios

A pesquisa também apontou que o padrão de consumo varia conforme a geografia. Recife apresentou maior prevalência de mortes associadas ao álcool, enquanto Vitória e Belém registraram mais óbitos ligados ao uso de drogas ilegais sem a presença de álcool. Já em Curitiba, o consumo de álcool superou o de substâncias ilícitas.
No caso dos suicídios, que representaram 9% dos óbitos, houve um destaque para a presença de benzodiazepínicos (medicamentos sedativos). Para os pesquisadores, embora o estudo não estabeleça uma relação direta de causa e efeito, o uso dessas substâncias pode atuar como um “gatilho” em indivíduos que já apresentam ideação suicida.
Políticas Públicas e Saúde
Para os autores, a heterogeneidade dos dados reforça a necessidade de políticas públicas customizadas para cada região. Bombana argumenta que o enfrentamento da mortalidade violenta deve focar em saúde pública e redução de danos, em vez de estratégias puramente repressivas. Ele cita exemplos internacionais, como o de Portugal, onde a descriminalização e o foco sanitário resultaram na redução de overdoses e pequenos delitos.
O estudo foi realizado pelo grupo “Álcool, Drogas e Violência” da Faculdade de Medicina da USP, com apoio da Fapesp e em convênio com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad).