Estudo da USP mostra como a chapinha deixa cabelo por dentro

Pesquisa inédita com raios X revela que o calor da chapinha destrói o interior do cabelo antes mesmo de danificar a superfície

Crédito: Divulgação/Freepik

Uma pesquisa de doutorado inovadora, desenvolvida no Instituto de Física (IF) da USP, acendeu um alerta vermelho para quem costuma combinar procedimentos químicos no cabelo e abusar do calor de secadores e chapinhas. O estudo revelou que a associação entre descoloração, alisamento ácido (como a escova progressiva) e altas temperaturas causa danos severos, profundos e totalmente irreversíveis à estrutura capilar, deixando o fio literalmente oco por dentro.

Conduzido pela engenheira química Cibele de Castro Lima sob a orientação do professor Cristiano Oliveira, o experimento utilizou técnicas avançadas de microscopia eletrônica, espectroscopia e espalhamento de raios X. Isso permitiu aos cientistas observar, em tempo real, as alterações na fibra capilar submetida a temperaturas entre 30°C e 270°C, faixas térmicas rotineiras em salões de beleza.

O Interior Sofre Primeiro

Beleza Natural Estimulando o Cabelo (4)

A principal descoberta da pesquisa quebra o mito popular de que o calor queima primeiro a superfície do cabelo para só depois afetar o interior. Na verdade, os raios X provaram o oposto: o córtex (a camada interna do fio) é muito mais sensível ao calor do que a cutícula (a camada externa).

  • Abaixo da superfície: As transformações estruturais destrutivas começam no interior da fibra capilar antes de darem sinais visíveis do lado de fora.
  • Degradação da Queratina: Em cabelos virgens (sem química), os processos de degradação das cadeias de queratina — proteína que dá força e resistência ao cabelo — começam a partir de 220°C. Entre 220°C e 250°C, ocorre a desnaturação e a quebra total das estruturas internas do córtex.
  • Derretimento dos Lipídios: Os lipídios (gorduras naturais responsáveis por manter a hidratação) perdem a estabilidade rapidamente. Acima de 260°C, essas estruturas desaparecem por completo.
  • Resistência Enganosa: Enquanto o córtex começa a se deteriorar perto de 230°C, a cutícula aguenta firme até passar dos 250°C. O resultado macroscópico disso é catastrófico: em temperaturas extremas (próximas a 270°C), a cutícula externa pode parecer preservada, mas o córtex sumiu, deixando o fio totalmente oco, frágil, poroso e propenso à quebra imediata.

O Alerta do “Cheiro Podre”

O estudo também trouxe uma explicação física para aquele forte odor característico liberado quando a chapinha é passada no cabelo. Longe de ser apenas o produto “agindo”, o cheiro forte é sinônimo de destruição química.

“O ‘cheiro podre’ percebido durante o uso da chapinha está relacionado à liberação de gases produzidos pela decomposição de aminoácidos que contêm enxofre, como a cistina, responsável pela resistência dos cabelos”, explica Cibele de Castro Lima. Esse fenômeno começa a acontecer assim que a temperatura da fibra capilar ultrapassa o limite crítico de 200°C.

O Combo Destrutivo: Química + Calor

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Se o calor isolado já danifica os fios virgens, o cenário é muito pior para os cabelos quimicamente tratados. Nos testes, os fios descoloridos e alisados demonstraram uma instabilidade térmica drasticamente menor:

  • As microestruturas de queratina perderam o alinhamento muito mais rápido durante o aquecimento;
  • As gorduras de proteção e hidratação desses fios começaram a colapsar em temperaturas baixíssimas, logo acima dos 70°C para os cabelos alisados.

De acordo com os pesquisadores, os parâmetros científicos gerados por este estudo servem como base para que a indústria cosmética desenvolva protetores térmicos mais eficientes e formulações de alisamento menos agressivas, além de fornecer um guia de segurança para que cabeleireiros e consumidores moderem a temperatura de suas ferramentas térmicas no dia a dia.

  • Publicado: 07/06/2026 15:57
  • Alterado: 07/06/2026 15:58
  • Autor: Daniela Ferreira
  • Fonte: Agência SP