Estudo revela o impacto da falta de saneamento na vida das mulheres

Estudo inédito da BRK Ambiental em parceria com o Instituto Trata Brasil que uma em cada quatro mulheres não tem acesso adequado à água tratada, coleta e tratamento dos esgotos

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A falta de saneamento básico tem impactos negativos para toda a sociedade, e o problema é um dos fatores que reforçam a desigualdade de gênero no Brasil. Essa é uma das conclusões do estudo inédito “O Saneamento e a Vida da Mulher Brasileira”, que revela que o acesso a água e esgoto tiraria imediatamente 635 mil de mulheres da pobreza, a maior parte delas negras e jovens. Hoje no país 27 milhões de mulheres – uma em cada quatro – não têm acesso adequado à infraestrutura sanitária e o saneamento é variável determinante em saúde, educação, renda e bem-estar. Os resultados se somam as preocupações levantadas pela Campanha Outubro Rosa de atenção à saúde da mulher, portanto com base em dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos Ministérios da Saúde, Educação e Cidades (metodologia completa em www.tratabrasil.org.br), o estudo é feito pela BRK Ambiental em parceria com o Instituto Trata Brasil e apoio do Pacto Global, conduzida pela Ex Ante Consultoria.

O economista Fernando Garcia de Freitas, responsável pela pesquisa, lembra que quando há falta de água em casa ou quando alguém da família adoece em decorrência da falta de saneamento, em geral a rotina das mulheres é mais afetada – o impacto desses problemas no tempo produtivo delas é 10% maior que o dos homens.  “Temos um retrato evidente de como a falta de água e esgoto impacta a criança, a jovem, a trabalhadora, mãe e a idosa, impedindo a melhoria de vida e aprofundando as desigualdades”.

Teresa Vernaglia, presidente da BRK Ambiental, destaca que a pesquisa mostra a dupla jornada praticada pela maior parte das mulheres no Brasil e o peso que a falta de saneamento tem nessa rotina. “No Brasil é a mulher que cuida dos afazeres domésticos. É ela quem cozinha e é quem se ausenta do trabalho para levar o filho no posto de saúde.  Portanto, a falta de saneamento afeta diretamente a sua vida em diversas esferas, com impactos inclusive na sua mobilidade socioeconômica. São informações impactantes dada a importância da autonomia financeira para a igualdade de gênero e para o empoderamento da mulher, previstos no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 da Agenda 2030 da ONU”, afirma. “Parte da transformação dessa realidade depende de investimentos e do compromisso das empresas com a universalização de água e esgoto”, completa Teresa.

Um dos embaixadores do Instituto Trata Brasil, Dr. Artur Timerman, acrescenta que um diagnóstico específico sobre os impactos à saúde da família é importante para compreender os problemas que a ausência do saneamento básico provoca na sociedade. “A situação do saneamento básico no Brasil é preocupante e este estudo mostra que infelizmente estamos deixando gerações, sobretudo de mulheres brasileiras, às margens devido a um problema que não corrigimos ainda. A mulher é peça importante na sociedade e na construção de uma família, é ela na maioria das vezes quem tem a preocupação com a saúde familiar. Sem oferecer água tratada e esgotamento sanitário adequado a todos, estamos condenando o nosso futuro”. Artur Timerman é mestre em Infectologia pela Universidade de São Paulo, Chefe Serviço Controle infecção Hospitalar do Hospital Edmundo Vasconcelos, Presidente Sociedade Brasileira de Dengue/Arboviroses. Também atende no Hospital Israelita Albert Einsten. Tem grande experiência no atendimento clínico.

Na idade escolar, as meninas sem acesso a banheiro têm desempenho estudantil pior, com 46 pontos a menos em média no ENEM quando comparadas à média dos estudantes brasileiros. O saneamento impacta ainda no ingresso ao mercado de trabalho, uma vez que o acesso à água tratada, coleta e tratamento de esgoto poderia reduzir em até 10% o atraso escolar da estudante. Outro dado impactante aponta que 1,5 milhão de mulheres não tem banheiro em casa e que essas brasileiras têm renda 73,5% menor em comparação às trabalhadoras com banheiro em casa. 

Os números também mostram que a falta de acesso à água tratada e ao esgotamento sanitário é uma das principais causas de incidência de doenças diarreicas, que levam as mulheres a se afastarem 3,5 dias por ano, em média, de suas atividades rotineiras. O afastamento por esses problemas de saúde afeta principalmente o tempo destinado a descanso, lazer e atividades pessoais. Meninas de até 14 anos são as maiores vítimas desse quadro, com índice de afastamento por diarreia 76% maior que a média em outras idades (132,5 casos de afastamento por mil mulheres contra 76). Já no caso da mortalidade, o déficit de saneamento é mais perigoso para a mulher idosa, que corresponderam a 73,7% das mortes entre as mulheres sem acesso ao saneamento.

No caso da renda, o acesso ao saneamento traria ainda um acréscimo médio de R$ 321,03 ao ano para cada uma dessas brasileiras, o que representaria um ganho total à economia do país de mais de R$ 12 bilhões ao ano.

Investimentos necessários à universalização do saneamento

O Plano Nacional de Saneamento Básico (PLANSAB), lançado em 2013 pelo Governo Federal, prevê alcançar a universalização do abastecimento de água e da coleta e tratamento de esgoto até 2033, mas o país não tem conseguido investir o suficiente nos últimos 11 anos. Para cumprir esta meta, estudos do setor mostram que o Brasil necessitaria de investimentos da ordem de R$ 20 bilhões por ano contra os R$ 11,5 bilhões investidos em 2016.

Mauá é destaque em tratamento de esgoto na Região Metropolitana de São Paulo

Com o início de operação da Estação de Tratamento de Esgoto ocorrido em 2015 e a ampliação do Sistema Público de Esgotamento Sanitário de Mauá, a população da cidade passou a ter suporte diário de uma rede de esgoto responsável por coletar e afastar os efluentes gerados nas residências, escolas e comércios por meio de tubulações e transportar este material para o efetivo tratamento. 

Hoje a cidade de Mauá se destaca como uma das cidades que mais avançou nos últimos anos, com 93% de coleta e 70% de tratamento de esgoto, o melhor índice da Região Metropolitana de São Paulo. 

Para Lessandra Caño, professora de Ciências e Biologia da escola SESI Mauá o impacto na vida dos alunos após o avanço do saneamento na cidade é visível: “Hoje percebemos uma realidade diferente com relação a situação do saneamento na cidade. A grande maioria de nossos alunos vivem em locais onde o esgoto é enviado para uma rede e já tem tratamento. Portanto, quando falamos em sala de aula que muitas pessoas ainda vivem com esgoto a céu aberto, que precisam passar por cima de esgoto para ir para a um determinado local os alunos ficam chocados e questionam: ‘mas como professora, hoje em dia ainda tem essa situação?’ Eu sempre reforço em sala de aula que muitas crianças e adolescentes morrem no nosso País por causa de doenças causadas por esgoto a céu aberto e essa realidade está perto de nós e não somente no Norte ou Nordeste do País. O acesso ao saneamento é fundamental e as mulheres sofrem mais por terem que cuidar dos filhos. Os adolescentes ficam mais sozinhos em casa e aqui na escola percebemos que os alunos maiores já nessa fase da adolescência têm muita vergonha de dizer que faltaram na escola por problemas como diarreia ou por terem que cuidar de seus irmãos que estiveram doentes, mas os alunos menores do 1º ao 5º ano do ensino fundamental comentam bastante quando faltam por dor de barriga, por vomito.”

Com o avanço dos índices de coleta e tratamento de esgoto, o município de Mauá conta moderna estação de tratamento onde diariamente, mais de 50.000.000 de litros de esgoto são tratados antes de serem destinados novamente ao leito do Rio Tamanduateí.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 31/10/2018
  • Fonte: Farol Santander São Paulo