Estudo revela inconclusões sobre faixa azul para motocicletas em São Paulo
Pesquisa da USP e UFC questiona eficácia da faixa azul para motos em reduzir acidentes. Dados mostram aumento de 33% em acidentes em cruzamentos.
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 30/07/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Um novo levantamento conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Ceará (UFC), do Instituto Cordial e da organização de saúde Vital Strategies, trouxe à tona informações relevantes acerca da eficácia da faixa azul, destinada à sinalização viária para motocicletas. A pesquisa, realizada ao longo de um ano, sugere que não é possível afirmar com certeza que essa medida contribui para a diminuição de lesões e fatalidades no trânsito.
Os resultados do estudo foram divulgados durante um evento em Brasília, realizado na quarta-feira (30), em celebração à Semana Nacional de Prevenção a Acidentes com Motociclistas, uma iniciativa nova que foi estabelecida por meio de uma legislação sancionada em outubro do ano passado.
A investigação focou no comportamento dos motociclistas em 190 quilômetros de vias sinalizadas, com a expectativa de expansão desse número para 240 quilômetros até a publicação do relatório final, programada para setembro.
A faixa azul começou a ser implementada como um projeto-piloto na cidade de São Paulo em 2022 e atualmente cobre 232,7 km em 46 ruas da capital paulista, separando as motocicletas dos demais veículos. Cidades como São Bernardo do Campo e Santo André, além das capitais Salvador e Recife, também estão testando essa sinalização.
A administração municipal de São Paulo defende a eficácia da faixa azul e enviou representantes para Brasília com o intuito de apresentar o projeto como um modelo bem-sucedido. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) reporta que a iniciativa resultou em uma redução significativa no número de mortes entre motociclistas, afirmando uma queda de 47,2%, passando de 36 óbitos em 2023 para 19 em 2024 nas áreas onde a sinalização foi aplicada.
Para que a faixa azul se torne uma política pública oficial no trânsito, é necessário que seja aprovada pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), que está atualmente avaliando os dados fornecidos pelos municípios, antes que o projeto seja submetido ao Conselho Nacional de Trânsito (Contran). Até o momento, não há previsão para essa aprovação.
Os pesquisadores destacaram que o estudo teve início após perceber que análises cruciais estavam ausentes nos relatórios previamente apresentados à Senatran. “A adoção dessa sinalização inovadora requer avaliações utilizando métodos mais robustos”, afirma o documento. Embora os dados atuais não permitam concluir se a política efetivamente reduz mortes ou lesões no trânsito, eles indicam tendências variáveis dependendo da via analisada.
O levantamento também apontou um aumento de 33% nos acidentes envolvendo motociclistas em cruzamentos – pontos reconhecidos como críticos para riscos viários – enquanto houve uma redução equivalente nos acidentes ocorridos entre quadras. Isso sugere que a faixa azul pode contribuir para a diminuição dos acidentes em algumas áreas ao mesmo tempo em que aumenta o risco em outras.
Adicionalmente, o monitoramento revelou que cerca de 70% dos motociclistas ultrapassam os limites de velocidade nas vias com faixa azul, contrastando com apenas 10% nas vias sem essa sinalização. Essa mudança de comportamento levanta preocupações sobre um potencial aumento na gravidade dos acidentes. Ezequiel Dantas, diretor de Vigilância de Lesões no Trânsito da Vital Strategies, ressaltou: “A velocidade elevada reduz o tempo disponível para reações e aumenta a severidade das lesões. Essa dinâmica é particularmente crítica nas áreas com travessias para pedestres e conversões.” Dantas enfatizou a necessidade urgente de implementar uma estratégia rigorosa para fiscalização das velocidades nas faixas azuis.
Na última sexta-feira (25), Adrualdo de Lima Catão, secretário nacional de Trânsito, declarou à Folha que ainda não há consenso sobre a faixa azul. Enquanto a prefeitura paulistana aponta uma redução nos óbitos nas áreas onde a sinalização foi instalada, o número total de mortes entre motociclistas na cidade tem apresentado um aumento contínuo. Dados do Infosiga mostram que as fatalidades aumentaram de 366 para 433 entre 2023 e 2024.
Diferente do modelo adotado na Malásia e Vietnã, onde as pistas destinadas às motos são fisicamente separadas do restante do tráfego, o sistema implementado em São Paulo não possui tal segregação física, elevando os riscos associados ao trânsito. Os resultados preliminares deste estudo não recomendam uma expansão imediata do projeto. A crescente violação dos limites de velocidade pelos motociclistas os coloca em uma posição vulnerável. Assim sendo, é imperativo realizar um aprofundamento na análise dos impactos da faixa azul antes que haja uma regulação apropriada visando à preservação da vida no trânsito.