Estudo revela benefícios da dieta rica em fibras na proteção contra infecções intestinais
Roedores alimentados com dieta rica em fibras solúveis lidaram melhor com bactéria que causa diarreia; o acetato, gerado no intestino, ajuda a modular a imunidade
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 03/03/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Uma pesquisa colaborativa entre cientistas brasileiros e norte-americanos, publicada na prestigiada revista Cell Host & Microbe, apresenta novas evidências sobre como uma alimentação rica em fibras solúveis pode atuar como um escudo contra bactérias nocivas no intestino.
A investigação se baseou em experimentos realizados com camundongos expostos à bactéria Clostridioides difficile, conhecida por provocar inflamações no cólon e diarreias severas, afetando anualmente cerca de 500 mil pessoas nos Estados Unidos. Dados epidemiológicos referentes ao Brasil são limitados.
O pesquisador José Fachi, primeiro autor do estudo e doutorando na Washington University em Saint Louis, explicou que a suplementação da dieta com fibras solúveis mostrou-se eficaz na recuperação de camundongos já infectados. “Essas fibras são fermentadas pela microbiota intestinal, resultando na produção de compostos como o acetato, que desencadeia uma série de interações levando a uma resposta imune apropriada para combater a infecção”, afirmou.
A pesquisa foi realizada em parceria com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Os resultados indicaram que os camundongos alimentados com uma dieta rica em fibras solúveis apresentaram níveis elevados de acetato no intestino. Esse aumento foi crucial para regular a resposta imunológica na camada epitelial intestinal, tornando-a mais eficaz no combate à C. difficile.
O acetato é um ácido graxo de cadeia curta gerado pela digestão das fibras solúveis pelas bactérias intestinais. Por outro lado, os camundongos que seguiram uma dieta com baixa quantidade de fibras produziram quantidades insuficientes desse composto, o que resultou em uma superexpressão de moléculas do complexo principal de histocompatibilidade de classe 2 (MHC-II) no epitélio intestinal. Embora o MHC-II seja vital na defesa contra infecções, sua produção exacerbada pode causar inflamações prejudiciais aos tecidos.
Sarah de Oliveira, doutoranda no Instituto de Biologia da Unicamp e coautora do artigo, comparou esse fenômeno a situações observadas em casos graves de Covid-19, onde a resposta imune exagerada provoca danos teciduais significativos. “No nosso estudo, a ingestão de fibras solúveis foi capaz de regular essa resposta imune”, destacou Oliveira.
O projeto está inserido no escopo da pesquisa sobre os mecanismos moleculares envolvidos nas interações entre metabólitos da microbiota e células do hospedeiro durante processos inflamatórios. O financiamento é proveniente da Fapesp e sob coordenação do professor Marco Vinolo, que supervisiona tanto o doutorado de Oliveira quanto o de Fachi.
A infecção por C. difficile é frequentemente contraída por pacientes idosos hospitalizados que passaram por tratamento com antibióticos. Essa infecção pode levar a diarreias graves, sepse e até morte. O desafio terapêutico é intensificado pelo fato de muitas cepas serem resistentes aos tratamentos disponíveis, um problema ainda mais acentuado no Brasil devido à escassez de estudos e testes diagnósticos adequados.
No experimento, os animais alimentados com uma dieta deficiente em fibras mostraram uma resposta imunológica exacerbada, com as células epiteliais produzindo excesso de MHC-II para ativar linfócitos T CD4+, essenciais na luta contra infecções. Contudo, essa superativação dos linfócitos intraepiteliais (IELs) levou à liberação excessiva de mediadores inflamatórios, como o interferon gama, resultando em inflamações mais severas e danos teciduais significativos.
Com os dados obtidos nos testes com camundongos, os pesquisadores também analisaram biópsias de pacientes acometidos pela infecção por C. difficile. Os achados revelaram que casos mais graves apresentavam maior quantidade de MHC-II e linfócitos T CD4+, corroborando os resultados observados nos modelos animais.
Vinolo enfatizou a relevância deste estudo ao elucidar o papel das fibras alimentares no sistema imunológico. Embora pesquisas anteriores já tenham demonstrado a conexão entre ácidos graxos de cadeia curta e a imunidade, esta investigação traz à tona um novo entendimento sobre as interações entre microbiota, epitélio intestinal e células imunes durante infecções.
A equipe conclui reiterando a importância de uma dieta equilibrada e rica em fibras para manter a saúde intestinal. Alimentos como frutas, verduras e cereais integrais não apenas previnem problemas intestinais como também podem reduzir o risco de infecções sérias causadas por patógenos como C. difficile. “Decisões alimentares simples podem ter um impacto significativo na proteção contra infecções intestinais”, finaliza Fachi.