Estudo revela avanços e desafios das lideranças negras no Poder Executivo Brasileiro

Pesquisa traça perfil e aponta barreiras enfrentadas por essas pessoas

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um novo estudo intitulado Lideranças Negras no Estado Brasileiro (1995-2024) foi divulgado, revelando um perfil de indivíduos altamente qualificados, predominantemente negros, que ocupam cargos de liderança no Poder Executivo. Apesar do aumento significativo na representação desses grupos ao longo dos últimos 25 anos, ainda existem barreiras que dificultam o acesso a posições de maior prestígio.

Realizada pelo Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial (Afro-Cebrap) com o apoio da Fundação Lemann e da Imaginable Futures, a pesquisa destaca que a proporção de lideranças negras e indígenas em ministérios, autarquias e fundações cresceu de 22% para 39% entre 1999 e 2024. Entretanto, homens brancos continuam a dominar o cenário, ocupando 35% das posições de liderança.

A pesquisa envolveu entrevistas com 20 líderes autodeclarados negros ou pardos que atuaram em diversas funções governamentais entre 1994 e 2024. Os participantes, dez homens e dez mulheres com idades entre 31 e 65 anos, representaram todas as regiões do Brasil. Os pesquisadores optaram por não identificar os entrevistados.

Flavia Rios, socióloga e professora da Universidade Federal Fluminense, coordenou o estudo e ressaltou a elevada qualificação dos participantes. “Esses indivíduos não só possuem uma formação educacional robusta, mas também uma experiência profissional significativa. O nível de conhecimento técnico que eles trazem é realmente impressionante”, afirma Rios.

Outro aspecto relevante identificado pela pesquisa é que a maioria das lideranças negras provém de classes sociais populares. “Dada a estrutura social desigual do Brasil, era esperado que aqueles que encontramos nas posições de liderança tivessem origens humildes. Raramente encontramos alguém vindo de uma trajetória elitista”, explica Rios.

Os relatos coletados revelam ainda as dificuldades enfrentadas por esses líderes para acessar cargos estratégicos, frequentemente dependentes de recomendações pessoais. A falta de redes de apoio é uma realidade para muitos deles, tornando-se um obstáculo significativo. “Elas são as primeiras em suas famílias a ocupar tais cargos; portanto, não possuem o capital social que facilita esse processo”, ressalta Rios.

Além das barreiras sociais, as entrevistas apontaram a presença constante de situações constrangedoras enfrentadas por líderes negros em suas funções. Um exemplo é o tratamento desrespeitoso recebido por um secretário que foi confundido com um segurança durante eventos oficiais.

Apesar das conquistas individuais sem o auxílio de ações afirmativas, todos os entrevistados se mostraram favoráveis à implementação de políticas como cotas para aumentar a diversidade no Poder Executivo Federal. A necessidade de formação em letramento racial para servidores públicos também foi enfatizada como crucial para garantir um ambiente mais inclusivo.

A pesquisa sugere que a criação do Concurso Público Nacional Unificado (CNU), que reserva vagas para pessoas negras e indígenas, pode ser uma estratégia eficaz para reduzir desigualdades históricas. No entanto, os entrevistados alertaram que o simples ingresso no serviço público não garante ascensão nas carreiras, que ainda são dominadas por pessoas brancas.

Os investigadores também exploraram os fatores que levaram os participantes às suas posições atuais. Entre as razões citadas estão experiências técnicas valiosas e conexões políticas significativas. Um dos entrevistados destacou ter conquistado cargos através de seleções abertas, enquanto outro mencionou ter recebido convites diretos de mulheres negras em posições influentes.

A pesquisa indica que assessorias voltadas à participação social e diversidade nos ministérios, estabelecidas em 2023, são vistas como oportunidades importantes para profissionais qualificados abordarem temas frequentemente negligenciados nas discussões decisórias.

Esse estudo oferece uma visão abrangente sobre os avanços e desafios enfrentados pelas lideranças negras no Brasil contemporâneo, destacando a importância da inclusão e diversidade nas esferas governamentais.

  • Publicado: 26/01/2026
  • Alterado: 26/01/2026
  • Autor: 28/03/2025
  • Fonte: Maria Clara e JP