Estudo brasileiro identifica mutação rara ligada à hipoglicemia
Pesquisa conduzida por USP e Unicamp propõe método mais acessível para identificar pacientes com condição genética associada a crises graves de hipoglicemia
- Publicado: 07/06/2026 15:35
- Alterado: 07/06/2026 15:35
- Autor: Suzana Rezende
- Fonte: FolhaPress
Um estudo realizado por pesquisadores do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em parceria com a Unicamp, identificou 18 novos casos de uma mutação genética rara associada à hipoglicemia hiperinsulinêmica. O trabalho, publicado em maio de 2026 na revista científica Frontiers in Endocrinology, também apresenta uma estratégia de rastreamento clínico que pode facilitar o diagnóstico da condição e reduzir custos para pacientes e sistemas de saúde.
A hipoglicemia ocorre quando os níveis de glicose no sangue caem para valores abaixo de 55 mg/dL, situação que exige atenção médica imediata. Entre os principais sintomas estão tremores, suor excessivo, confusão mental, fraqueza, sonolência, tontura, dor de cabeça, visão embaçada e, em casos mais graves, convulsões.
Embora seja frequentemente associada ao diabetes, a condição também pode afetar pessoas sem a doença. Nesses casos, as causas podem incluir alterações hormonais, doenças hepáticas, tumores produtores de insulina e fatores genéticos.
Mutação afeta receptor de insulina
O foco da pesquisa está em alterações no gene do receptor de insulina (INSR). Esse receptor é responsável por permitir que a glicose entre nas células do organismo. Quando há defeitos genéticos nessa estrutura, o corpo tenta compensar a falha produzindo quantidades excessivas de insulina.
O resultado é justamente o oposto do esperado: o excesso de insulina provoca quedas acentuadas nos níveis de açúcar no sangue, desencadeando episódios recorrentes de hipoglicemia.
Segundo o endocrinologista Ramon Marcelino do Nascimento, autor principal do estudo, a pesquisa surgiu da necessidade de tornar o diagnóstico mais acessível.
“Pensamos numa forma de tornar o diagnóstico clínico mais fácil para selecionar esses pacientes candidatos ao teste molecular, que na rede privada custa em torno de R$ 5.000”, afirma.
O pesquisador explica que muitos pacientes convivem durante anos com sintomas sem saber a causa exata do problema.
“Quando começamos a investigar, percebemos que os parentes tinham hipoglicemia também. É como um sintoma inespecífico, ou seja, passa mal, fica sudoreico, taquicárdico, e a pessoa não valoriza”, diz.
Critérios ajudaram a identificar os pacientes
Para desenvolver o estudo, os pesquisadores avaliaram 94 pacientes com hipoglicemia hiperinsulinêmica atendidos entre janeiro de 2020 e janeiro de 2025 em uma clínica especializada do Ambulatório de Endocrinologia do Hospital das Clínicas de São Paulo.
A seleção considerou indivíduos com índice de massa corporal (IMC) inferior a 25, mas que apresentavam sinais clínicos de resistência à insulina. Também foram aplicados critérios de exclusão para tornar a amostra mais específica.
Após essa triagem, cinco pacientes preencheram os requisitos necessários e aceitaram participar da pesquisa. Inicialmente, eles passaram por um exame de sequenciamento completo do exoma, técnica que permite analisar grandes porções do DNA em busca de alterações genéticas.
Na etapa seguinte, familiares de primeiro grau desses pacientes foram convidados para avaliação clínica e realização de exames genéticos complementares. A partir desse processo, os pesquisadores chegaram aos 18 novos casos identificados.
Estratégia reduz custos dos testes genéticos
Um dos principais avanços apresentados pelo estudo é a criação de um modelo de investigação que pode diminuir significativamente os custos do diagnóstico.
Os pesquisadores utilizaram inicialmente o sequenciamento do exoma para localizar a mutação. Depois, recorreram ao sequenciamento por Sanger nos familiares, método mais simples e econômico quando a alteração genética já é conhecida.
Segundo Nascimento, a diferença de custo entre os exames é significativa.
“O sequenciamento por Sanger é muito mais barato do que o sequenciamento por exoma, mas ele só vê uma parte muito específica do DNA. Então, se não sabemos onde é a mutação, pedimos o Exoma.”
A proposta é que médicos utilizem sinais clínicos específicos para selecionar pacientes com maior probabilidade de apresentar a mutação no gene INSR, reduzindo a necessidade de exames genéticos complexos em larga escala.
Brasil contribui para avanço científico internacional
Os 18 novos casos identificados representam quase um terço de todos os registros já descritos na literatura científica mundial. Antes da publicação do estudo, aproximadamente 50 pacientes com essa condição genética haviam sido documentados globalmente.
O resultado reforça a relevância da pesquisa brasileira no campo das doenças metabólicas raras e amplia o conhecimento disponível para especialistas de diferentes países.
Além de aumentar o número de casos conhecidos, o trabalho oferece subsídios para a criação de protocolos diagnósticos mais eficientes, capazes de acelerar a identificação da doença e melhorar o acompanhamento dos pacientes.
Diagnóstico precoce pode melhorar qualidade de vida
Os autores destacam que reconhecer precocemente os sinais clínicos da hipoglicemia hiperinsulinêmica pode reduzir o tempo necessário para chegar ao diagnóstico correto.
Para pessoas que convivem com episódios recorrentes de baixa glicose sem explicação definida, a confirmação da origem genética da doença pode representar uma mudança importante no tratamento e no monitoramento médico.
“Para muitas pessoas, descobrir a causa genética das crises de hipoglicemia significa finalmente entender a própria doença e receber um acompanhamento mais adequado. É um passo importante para que a condição deixe de ser negligenciada”, afirma Nascimento.
Com a ampliação do conhecimento sobre a condição e a adoção de estratégias diagnósticas mais acessíveis, especialistas esperam aumentar a identificação de casos que atualmente permanecem sem diagnóstico ou são confundidos com outras doenças metabólicas.