Estudo do IBGE revela acesso limitado à infraestrutura para negros e pardos
Pessoas pretas e pardas têm acesso limitado a condições adequadas de moradia quando comparadas à população branca
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 17/04/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Um estudo recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), parte do suplemento do Censo 2022, revela uma alarmante disparidade na infraestrutura urbana entre diferentes grupos étnicos no Brasil. Os dados, divulgados nesta quinta-feira (17), evidenciam que as comunidades de pessoas pretas e pardas têm acesso limitado a condições adequadas de moradia quando comparadas à população branca.
O levantamento intitulado Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios analisa elementos fundamentais da infraestrutura urbana, como a presença de pavimentação, calçadas, sistemas de drenagem, iluminação pública, pontos de transporte coletivo, acessibilidade para cadeirantes, arborização e sinalização cicloviária.
Os números demonstram uma clara diferença nas condições de moradia entre os grupos. Por exemplo, enquanto 91,3% da população branca reside em ruas pavimentadas, essa porcentagem cai para 87% entre os pretos e 86% entre os pardos.
No que diz respeito à acessibilidade das calçadas, a situação se torna ainda mais preocupante. Um percentual significativo de 88,2% da população branca vive em áreas com calçadas adequadas. Em contraste, apenas 79,2% dos pretos e 81% dos pardos desfrutam desse benefício. Além disso, mesmo nas áreas onde existem calçadas, as condições não são uniformes; cerca de 63,7% da população branca enfrenta obstáculos em suas calçadas, número que aumenta para 67% entre os pardos e 65,2% entre os pretos.
A infraestrutura de transporte público também apresenta discrepâncias notáveis. A proporção de brancos que residem próximos a pontos de ônibus ou vans é superior à média nacional, com 10,6%, em comparação com 8,2% dos pretos e apenas 7,1% dos pardos.
A disponibilidade de infraestrutura voltada para ciclistas é um aspecto adicional onde a desigualdade se evidencia. Apenas 1,9% da população brasileira tem acesso a sinalizações para bicicletas. Contudo, este número chega a 2,5% entre os brancos, enquanto apenas 1,4% dos pretos e pardos têm acesso a tais facilidades.
Além disso, o acesso a rampas para cadeirantes segue o mesmo padrão. Embora a média nacional seja de 15,2%, a proporção para brancos é de 19,2%, comparada a apenas 11,1% para pretos e 11,9% para pardos.
Conforme esclarecido por Jaison Cervi, gerente de pesquisas do IBGE, as diferenças observadas refletem indicadores socioeconômicos desiguais e o fato de que uma grande parte da população preta e parda reside em favelas ou comunidades urbanas carentes. Em um levantamento realizado em novembro de 2024, constatou-se que esses grupos representam impressionantes 72,9% dos moradores dessas áreas.
A análise da presença de bueiros nas ruas também revela desigualdades: enquanto 60,8% da população branca vive em áreas com essa infraestrutura básica, apenas 50,7% dos pretos e 47,1% dos pardos têm acesso a esse serviço essencial.
No que diz respeito aos indígenas no Brasil, o IBGE registrou um acesso ainda mais restrito à infraestrutura urbana. A pesquisa revelou que apenas 75,3% da população indígena possui calçadas pavimentadas — um índice abaixo da média nacional.
Maikon Roberth de Novaes do IBGE destacou que as particularidades socioeconômicas e culturais das comunidades indígenas devem ser levadas em consideração ao interpretar esses dados. “A presença de pontos de ônibus ou calçadas pode não ser aplicável em áreas onde residem populações indígenas”, observou.
Para realizar esta pesquisa abrangente, aproximadamente 30 mil agentes censitários coletaram dados sobre as condições das vias onde habitam as pessoas. O IBGE analisou informações relativas a mais de 11 milhões de faces de quadra — segmentos específicos das ruas — representando uma amostra significativa das condições habitacionais no país. Esse conjunto abrange cerca de 63 milhões de domicílios e representa aproximadamente 85% da população brasileira.