Estudantes de baixa renda no Brasil sofrem com desempenho em leitura
Estudo revela que 50% dos alunos de baixa renda estão abaixo do nível básico em leitura
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 25/04/2025
- Autor: Redação
- Fonte: MIS Experience
Um novo estudo revela que estudantes brasileiros provenientes de famílias com menor nível socioeconômico (NSE) apresentam um desempenho significativamente inferior em habilidades de leitura. De acordo com os dados coletados pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), quase 50% desses alunos estão em níveis de aprendizado considerados “abaixo do básico”. Em contraste, a grande maioria dos estudantes com renda mais alta, cerca de 83,9%, demonstra um aprendizado adequado na leitura.
A análise foi realizada a partir dos microdados do Estudo Internacional de Progresso em Leitura (PIRLS), que teve sua primeira aplicação no Brasil em 2021, com resultados gerais divulgados em 2023. O estudo incluiu a participação de 65 países e regiões e destacou uma discrepância alarmante: a diferença de desempenho entre os grupos socioeconômicos no Brasil chega a impressionantes 58 pontos percentuais, sendo essa a maior variação entre os países analisados.
Os dados revelam que apenas 5% dos alunos brasileiros estão inseridos em um nível socioeconômico elevado, correspondente a famílias com rendimentos superiores a R$ 15 mil mensais, e esses estudantes são os que mais se destacam em termos de aprendizado. Por outro lado, 64% da população estudantil vive em condições menos favorecidas, com rendimentos inferiores a R$ 4 mil, e é nesse grupo que se observa o pior desempenho nas habilidades de leitura. Um adicional de 31% dos alunos pertence à classe média.
Segundo o Iede, essa desigualdade educacional é particularmente preocupante e deve ser abordada com urgência. A comparação internacional mostra que o Brasil está seguido pelos Emirados Árabes Unidos, onde a diferença é de 52 pontos percentuais, e pela Hungria e Bélgica Francesa, ambas com uma disparidade de 51 pontos percentuais.
A avaliação do PIRLS é conduzida a cada cinco anos pela Associação Internacional para Avaliação do Desempenho Educacional (IEA), e na edição de 2021, abrangeu uma amostra representativa de escolas públicas e privadas em todo o território nacional. Ao todo, foram avaliados mais de 4.900 alunos do 4º ano do ensino fundamental no Brasil, enquanto globalmente aproximadamente 400 mil estudantes participaram do estudo.
O conceito de “nível adequado de aprendizagem” utilizado na análise refere-se ao mínimo intermediário necessário para garantir que os estudantes adquiram competências que possibilitem o desenvolvimento futuro. Infelizmente, essa meta está longe de ser alcançada por muitos alunos de baixa renda; cerca de 49% deles estão situados abaixo do nível básico de aprendizado. Em contrapartida, esse percentual diminui para 16% entre os estudantes das classes média e alta.
Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Iede, expressou sua preocupação diante desse cenário: “Não se pode ignorar que existe um cenário positivo em termos educacionais no Brasil, mas ele é restrito a poucos. Isso deveria nos incomodar profundamente”. Faria questiona as razões pelas quais um pequeno grupo consegue atingir um nível competitivo em aprendizado internacional enquanto muitos alunos de baixa renda enfrentam sérias dificuldades.
As habilidades de leitura são fundamentais para o desenvolvimento acadêmico geral dos estudantes. Em média, quase 40% dos alunos brasileiros do 4º ano não dominam as habilidades básicas necessárias para interpretar textos. Faria ressalta que a leitura é uma competência essencial que transcende disciplinas escolares: “A leitura é vital para o desenvolvimento não apenas nas ciências sociais ou naturais, mas também para a capacidade do aluno viver bem em sociedade”.
A análise ainda aponta outras desigualdades relevantes, como as diferenças de proficiência entre gêneros. Os dados indicam que 44,1% dos meninos estão abaixo do nível básico em leitura, comparado a 33,3% das meninas. No grupo dos alunos com alto desempenho, esses números se invertem ligeiramente: 9,7% dos meninos atingem esse nível contra 12,7% das meninas.
A frequência ao contato com leitura antes da educação formal também influencia os resultados; entre aqueles que tiveram acesso regular à leitura antes do ensino fundamental, quase metade (49,7%) alcançou o patamar adequado. Para os alunos que reportaram contato ocasional com a leitura, esse percentual cai para 36%. Além disso, os hábitos de leitura dos pais têm um impacto significativo: apenas 32,6% das crianças cujos pais não gostam de ler alcançam um aprendizado adequado em comparação com 47,6% das crianças cujos pais demonstram interesse pela leitura.
Faria conclui que é essencial implementar políticas públicas eficazes voltadas à redução dessas desigualdades educacionais. Ele defende que mais recursos sejam direcionados às áreas mais vulneráveis e enfatiza a necessidade de atrair bons professores para essas regiões: “É crucial que o Brasil priorize políticas educacionais focadas na equidade e na melhoria da infraestrutura das escolas atendendo alunos com baixo nível socioeconômico”.