Estresse no trabalho despenca, mas desafios persistem no ABC

Estudo global People at Work 2025 mostra queda no estresse, mas especialistas apontam que prosperar ainda é um desafio para profissionais do ABC

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A pressão cotidiana, as metas apertadas e a cobrança por resultados continuam sendo parte da rotina profissional. Mas o novo relatório People at Work 2025, do ADP Research, trouxe uma notícia alentadora: o estresse no trabalho crônico caiu pela metade no Brasil, passando de 14% em 2023 para 8% em 2024. O país, segundo o levantamento, foi o que registrou a maior redução da América Latina. Ainda assim, a sensação de sobrecarga e a dificuldade de prosperar no ambiente corporativo permanecem como sinais de alerta, especialmente em regiões de alta produtividade como o Grande ABC.

Para entender os bastidores dessa mudança, o ABCdoABC conversou com Fabiana Santana, diretora de Recursos Humanos da Prometeon para a América Latina, que compartilhou a visão de quem vive a gestão de pessoas no setor industrial, um dos mais exigentes da região. Segundo ela, os avanços são importantes, mas ainda insuficientes para transformar a relação entre desempenho e bem-estar. “A notícia sobre a queda do estresse crônico no Brasil é extremamente positiva e mostra que as estratégias de bem-estar adotadas pelas empresas estão gerando resultados concretos. No entanto, esse resultado não permite complacência. É fundamental garantir que essa melhora seja sentida de forma capilar, em todos os níveis da organização”, afirma a executiva.

Menos estresse no trabalho, mas ainda distante da prosperidade

O relatório global revela que, embora a frequência do estresse negativo, o chamado distresse, aquele que compromete o desempenho e o bem-estar, esteja em queda, a proporção de profissionais que se sentem “prosperando” ainda é pequena. Globalmente, 32% dos trabalhadores que vivenciam estresse no trabalho diário dizem estar sobrecarregados, enquanto apenas 7% relatam prosperar. Já entre aqueles que sentem estresse uma vez por semana ou menos, os números se invertem: 34% afirmam estar prosperando, contra 11% sobrecarregados.

Estresse no Trabalho -Ansiedade - Saúde Mental
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A economista-chefe da ADP, Nela Richardson, destaca que a ausência de estresse não garante felicidade ou engajamento. “A simples ausência de estresse negativo no trabalho não garante que os colaboradores prosperem. Outros fatores, como a falta de relações de confiança com colegas ou líderes, ou sentimentos de liberdade e flexibilidade limitadas no ambiente de trabalho também podem estar envolvidos”, avalia. Segundo ela, o estresse no trabalho reduz eficiência e aumenta a rotatividade. “Em contraste, funcionários que prosperam tendem a permanecer em suas posições”, destaca.

Fabiana Santana concorda. Para ela, prosperar é sentir-se reconhecido e com propósito. “A dificuldade de prosperar indica que a camada mais profunda da satisfação profissional ainda não está sendo plenamente atendida”, explica. Ela afirma que muitos profissionais seguem enfrentando desafios como a falta de clareza sobre oportunidades de crescimento e lideranças despreparadas para inspirar. “Estamos investindo no fortalecimento das lideranças, na ampliação dos espaços de escuta e no alinhamento entre propósito e desempenho”, completa Fabiana.

O retrato do ABC: produtividade e pressão

Grande ABC - Vista Aérea
(Divulgação/PMSBC)

Com tradição industrial e cultura de alta performance, o ABC Paulista concentra milhares de profissionais em ambientes fabris e administrativos onde o ritmo é intenso e há muito estresse no trabalho. Fabiana observa que, mesmo com a melhora dos indicadores nacionais, é preciso olhar para o território com atenção especial. “No setor em que atuo, a pressão por performance e a rotina intensa, tanto no chão de fábrica quanto nos escritórios, demandam um cuidado contínuo”, comenta.

A executiva destaca que o equilíbrio entre produtividade e bem-estar tem sido um dos maiores desafios da gestão moderna. Na Prometeon, isso se traduz em programas permanentes de saúde física e emocional, suporte psicológico e incentivo a práticas saudáveis dentro e fora do ambiente de trabalho. “Temos investido em iniciativas que se integrem à rotina dos colaboradores, com foco em uma cultura de segurança psicológica que desmistifique o cuidado com o bem-estar, especialmente no ambiente fabril”, esclarece Fabiana.

Essas medidas, segundo ela, têm ajudado a consolidar uma nova mentalidade nas organizações do ABC, a de que cuidar das pessoas é parte da estratégia de produtividade. “A combinação de conscientização, escuta ativa e ações consistentes é o que vem nos ajudando a construir um ambiente mais equilibrado e sustentável”, completa.

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A liderança como ponte entre confiança e desempenho

Outro ponto de destaque do estudo é o impacto psicológico da percepção de julgamento no ambiente de trabalho. Cerca de 32% dos entrevistados disseram sentir-se observados ou julgados, especialmente em contextos híbridos e remotos. Essa sensação tem efeito direto na motivação e na produtividade: trabalhadores que se sentem julgados têm 3,4 vezes menos probabilidade de prosperar.

Fabiana destaca que a resposta para esse cenário está na liderança. “O líder deve ser um facilitador, não um fiscal. Em vez de focar no ‘como’, ele precisa concentrar energia no ‘o quê’ precisa ser entregue, oferecendo suporte para que o time alcance seus objetivos da melhor forma possível”, explica.

Fabiana Santana - ABC Cast Conexões - Prometeon - ESG
Fabiana Santana, diretora de Recursos Humanos da Prometeon, durante entrevista ao ABC Cast Conexões
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

A executiva defende que as reuniões de acompanhamento servem para remover obstáculos, e não para punir, pois a liderança empática e transparente é fundamental para reduzir o estresse no trabalho e fortalecer a confiança. “Na Prometeon, trabalhamos para desenvolver lideranças mais próximas e humanas, mas sem complacência. As reuniões de check-in, dentro de nosso ciclo anual de performance, devem ser espaços de diálogo e suporte, e não de prestação de contas punitiva”, explica Fabiana.Quando o líder compartilha suas próprias dificuldades, ele humaniza o processo e cria um ambiente onde os erros são oportunidades de aprendizado e essa cultura tem gerado impacto real em engajamento e inovação”, informa Fabiana, destacando que o modelo de gestão baseado em confiança é um dos pilares mais sólidos da companhia.

Saúde mental e desenvolvimento caminham juntos

A pesquisa People at Work 2025 também mostra que o bem-estar emocional e o engajamento profissional caminham lado a lado. Funcionários que se sentem saudáveis mentalmente têm menor propensão à rotatividade e maior engajamento. Esse dado reforça o papel das empresas como agentes ativos de cuidado.

Fabiana afirma que, na Prometeon, produtividade e bem-estar são vistos como aliados. “Acreditamos que produtividade e bem-estar podem caminhar juntos. Por isso, nossas estratégias de gestão passam por três pilares integrados: saúde mental e física, desenvolvimento contínuo e ambiente de confiança”, explica.

A companhia mantém uma agenda robusta de campanhas preventivas, programas de qualidade de vida e acompanhamento próximo dos colaboradores, tanto nas áreas administrativas quanto no chão de fábrica. Além disso, aposta em trilhas de aprendizado e capacitação técnica e comportamental. “Nosso objetivo é garantir que cada colaborador tenha condições para entregar resultados sustentáveis, sem abrir mão do equilíbrio emocional e do senso de propósito”, informa a diretora.

Para ela, o segredo está na cultura de diálogo. “Acreditamos que um time saudável é mais produtivo, criativo e conectado ao futuro que queremos construir”, acrescenta Fabiana, reforçando que a diversidade de ideias e perfis fortalece o ambiente corporativo.

Diversidade, inclusão e o antídoto ao estresse no trabalho

Diversidade no Trabalho
(Imagem: Reprodução/Freepik)

Entre os fatores que contribuem para ambientes mais equilibrados, as políticas de diversidade e inclusão ganham cada vez mais relevância. O estudo global reforça que empresas diversas tendem a registrar níveis mais baixos de estresse no trabalho e rotatividade. Fabiana confirma essa percepção ao destacar o papel da inclusão na cultura organizacional da Prometeon.

“Políticas de diversidade e inclusão não são apenas uma questão de justiça social; são um pilar fundamental para a saúde mental e o engajamento”, afirma. Segundo ela, quando um profissional sente que precisa esconder quem é, ele gasta uma energia mental enorme, o que inevitavelmente leva ao estresse crônico. “A inclusão constrói o senso de pertencimento. Em um ambiente verdadeiramente inclusivo, as pessoas sentem que podem ser autênticas, e isso é a base da segurança psicológica”, explica Fabiana.

A executiva ressalta que a diversidade é também uma ferramenta de inovação. “Quando o time é diverso e se sente seguro, a inovação floresce e o engajamento dispara. É um ciclo virtuoso, e nós temos praticado continuamente, seja na inclusão de mulheres no chão de fábrica ou no topo da organização, no incentivo à convivência de diferentes gerações ou na criação de vagas específicas para minorias raciais e pessoas com deficiência”, detalha.

Desconexão e o desafio do novo modelo de trabalho

O estudo aponta que 29% dos profissionais latino-americanos relatam sentir-se julgados ou monitorados em excesso, uma percepção que pode se intensificar com o avanço dos modelos híbrido e remoto. Fabiana observa que, embora a flexibilidade traga benefícios, exige também disciplina e políticas claras de desconexão. “Modelos flexíveis elevam o bem-estar ao oferecer maior autonomia e reduzir o tempo de deslocamento, mas é crucial evitar o que chamo de ‘hiperconexão remota’, onde o trabalho invade o tempo pessoal”, comenta.

Na Prometeon, os dias presenciais são planejados para fomentar colaboração e pertencimento. “Nossos dias de trabalho presencial são momentos de conexão, celebração e alinhamento, para garantir que a essência da nossa cultura seja mantida e fortalecida”, diz Fabiana. A empresa incentiva pausas e o respeito aos limites pessoais como parte da rotina corporativa. “Garantir tempo de descanso é essencial para preservar a criatividade e a saúde emocional”, completa Fabiana.

O futuro do trabalho no ABC

O People at Work 2025 mostra que a América Latina é hoje uma das regiões mais otimistas quando o tema é prosperidade no trabalho. Ainda assim, a transição de um modelo reativo, baseado apenas em apagar incêndios e conter danos, para um modelo verdadeiramente sustentável de bem-estar corporativo segue em construção.

Fabiana acredita que o ABC Paulista tem potencial para liderar essa transformação, justamente por unir tradição industrial, inovação tecnológica e diversidade de talentos. “Estamos construindo um ambiente em que o bem-estar não é apenas um discurso, mas uma prática diária. Isso exige comprometimento e coerência entre o que se fala e o que se faz”, conclui. Segundo ela, o futuro do trabalho será desenhado por lideranças humanas, por organizações que se importam genuinamente com as pessoas e por uma cultura empresarial que compreende que resultados duradouros nascem de equipes equilibradas.

O estresse no trabalho pode estar diminuindo, mas o desafio agora é outro, transformar o alívio estatístico em transformação real. No coração industrial do ABC, onde a produtividade é parte da identidade regional, o verdadeiro progresso não virá apenas da redução do estresse, e sim da capacidade de fazer do trabalho um espaço de propósito, pertencimento e prosperidade compartilhada.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 23/10/2025
  • Fonte: Multiplan MorumbiShopping