República Federativa dos Estados Unidos do Brasil

Entre bandeiras importadas e manifestações, o julgamento de Bolsonaro no STF expõe a contradição de um patriotismo com selo “Made in USA”

Crédito: Reprodução/Redes Sociais

O Brasil acordou hoje com a alma de shopping outlet: verde-amarelo por cima, mas costuras azuis e vermelhas aparecendo por baixo. Brasília, São Paulo e Rio viraram um grande manifestódromo, onde cada esquina parecia ensaiar um trailer para o julgamento de Bolsonaro que recomeça amanhã. O detalhe mais gritante não veio dos gritos, mas das costas cobertas de bandeiras dos Estados Unidos — um país inteiro com a autoestima terceirizada, implorando por intervenção made in Miami.

“Trump, salve Bolsonaro”, dizia uma das faixas mais fotografadas do dia, segurada por uma família sorridente como quem espera a foto com o Mickey. A cena tinha realmente um quê de parque temático dos Estados Unidos: bandeiras americanas tremulando, chapéus de cowboy improvisados e um ar de road trip sem visto no passaporte. Só faltava a pipoca com manteiga.

Enquanto isso, o STF, a poucas quadras dali, preparava o palco para amanhã. Mas não estava exatamente em silêncio: Gilmar Mendes aproveitou o dia para criticar os atos, chamando-os de “tentativas de intimidar a Justiça”. Do outro lado, num movimento inesperado, Tarcísio de Freitas — governador de São Paulo e aliado histórico de Bolsonaro — saiu publicamente em defesa de Alexandre de Moraes, dizendo que “o Supremo precisa ter liberdade para julgar sem pressão das ruas”.

Na prática, a política brasileira conseguiu a proeza de se manifestar contra si mesma.

Patriotismo terceirizado

De um lado, os manifestantes pró-Bolsonaro: bandeiras brasileiras de tamanho olímpico, camisetas da seleção, cartazes plastificados com memes de Moraes dignos de Photoshop de rodoviária. Mas o que mais saltava aos olhos era a profusão de bandeiras dos Estados Unidos— não só hasteadas, mas vestidas como capas de super-herói.

“Sem Trump, acabou”, dizia um senhor de boné verde e camisa camuflada, enquanto vendia chaveiros patrióticos ao lado da Catedral de Brasília. “É nossa última esperança.” O tom não era metafórico: para muitos ali, o julgamento de Bolsonaro não é assunto para a Justiça brasileira — é um problema diplomático a ser resolvido em inglês.

É o tipo de patriotismo que vem com etiqueta: Made in USA. O 7 de Setembro virou 4th of July com sotaque do Cerrado. E, para completar o delírio, um pastor distribuía pequenos terços com a foto de Bolsonaro no centro, ao lado de santinhos com a imagem de Trump. Uma fé bilíngue, talvez.

O Supremo no centro e na mira

STF - Estados Unidos
Antônio Cruz/Agência Senado

O tribunal, ao contrário do que parecia, não está calado. O julgamento retoma amanhã, com a sessão aberta às 9h por Cristiano Zanin. Alexandre de Moraes, relator, vai começar com os embates preliminares: anular ou não delações, revisar provas, discutir cerceamento de defesa. Depois, vem o mérito — a acusação de tentativa de golpe de Estado.

Só que hoje, nas ruas, o STF era personagem principal e antagonista ao mesmo tempo. Gilmar Mendes jogou gasolina no debate ao dizer que os atos são pressão ilegítima. E Tarcísio, talvez calculando sua própria biografia política, fez questão de blindar Moraes, como quem diz: hoje não, vamos respeitar a liturgia.

Resultado: até quem deveria estar do mesmo lado fala línguas diferentes. Brasília parece uma torre de Babel onde cada um traduz democracia do seu próprio jeito.

Trump, o mito importado

É impossível ignorar o fetiche americano que explodiu hoje. As bandeiras não eram só adereços; eram promessas de redenção. Como se o julgamento de Bolsonaro fosse uma espécie de referendo global e Trump, um salvador de toga invisível.

Em São Paulo, uma manifestante segurava um cartaz com letras vermelhas — sim, vermelhas, a cor do “comunismo” que eles juram combater — estampando: “Sem Trump, sem liberdade”. Para ela, Trump poderia pressionar a Suprema Corte. Parece mais fácil acreditar na intervenção de um bilionário estrangeiro do que na própria Constituição.

O irônico é que Trump, atolado em processos nos Estados Unidos, nem se manifestou sobre o caso. No máximo, entre uma tarifa de 50% e outra, ele virou peça simbólica de um teatro tropical, onde o ato principal se passa no STF, mas o figurino vem do Walmart.

A independência dos outros

Quando o sol caiu sobre a Esplanada, o verde-amarelo continuava vibrando, mas a cena tinha virado outra coisa. Era como se a independência nacional tivesse sido atualizada para uma versão beta: o Brasil gritando soberania com bandeira importada nas costas.

Não é só política — é estética, é identidade, é espetáculo. O julgamento de amanhã é, sim, histórico. Mas o que vimos hoje já diz muito: o Brasil não discute o país, discute quem pode salvá-lo. E, para muitos, a aposta não está mais em Brasília, está nos Estados Unidos.

Uma independência performada, terceirizada e com o logotipo estampado: Made in USA — país de alma alugada, bandeira emprestada e liberdade sob licença estrangeira. No fundo, não é submissão: é desejo. Uma velha paixão pela coleira do colonizador.

João Pedro Mello

João Pedro Mello
Divulgação

𝐏𝐞𝐫𝐟𝐢𝐥 𝐞𝐦 𝐕𝐞𝐫𝐬𝐨𝐬: à 𝐥𝐚 𝐋𝐞𝐦𝐢𝐧𝐬𝐤𝐢 (𝐉. 𝐌𝐞𝐥𝐥𝐨)
𝘌𝘯𝘵𝘳𝘦 𝘱𝘢𝘭𝘢𝘷𝘳𝘢𝘴, 𝘵𝘦𝘭𝘢𝘴 𝘦 𝘴𝘢𝘶𝘥𝘢𝘥𝘦𝘴 (𝘦)𝘵𝘦𝘳𝘯𝘢𝘴

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𝚓𝚘𝚛𝚗𝚊𝚕𝚒𝚜𝚝𝚊 𝚏𝚘𝚛𝚖𝚊𝚍𝚘 𝚗𝚊 𝚏𝚘𝚖𝚎 𝚍𝚘 𝚎𝚗𝚌𝚊𝚗𝚝𝚘.
𝚎𝚜𝚌𝚛𝚎𝚟𝚎 — 𝚙𝚊𝚛𝚊 𝚘𝚞𝚝𝚛𝚘𝚜, 𝚙𝚊𝚛𝚊 𝚜𝚒 𝚎 𝚙𝚊𝚛𝚊 𝚘 𝚝𝚎𝚖𝚙𝚘 𝚚𝚞𝚎 𝚙𝚊𝚜𝚜𝚊,
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𝚂𝚎𝚓𝚊 (𝚎)𝚝𝚎𝚛𝚗𝚘. 𝚂𝚎𝚖𝚙𝚛𝚎

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 08/09/2025
  • Fonte: Sorria!,