Esporte em transição: federações divergem sobre regras para atletas trans

O cenário atual revela um esporte em transição, no qual o debate sobre gênero, identidade e justiça competitiva

Crédito: Divulgação/Freepik

Nos últimos anos, o cenário esportivo internacional passou por mudanças significativas nas regras que regulamentam a participação de atletas transgênero, especialmente mulheres trans, em competições femininas.

As novas diretrizes, adotadas por diferentes federações, refletem uma tentativa de equilibrar inclusão com critérios de equidade esportiva — mas também levantam controvérsias e desafios jurídicos e científicos.

Regras rígidas e exceções: um mosaico de políticas

Após o Comitê Olímpico Internacional (COI) atualizar suas diretrizes em 2021, permitindo que cada federação criasse seus próprios critérios, uma onda de decisões restritivas foi tomada. Federações como World Aquatics (natação), World Athletics (atletismo) e UCI (ciclismo) passaram a proibir a participação de mulheres trans que tenham passado pela puberdade masculina.

Além disso, foi fixado um limite de testosterona no sangue, geralmente abaixo de 2,5 nanomoles por litro — patamar considerado compatível com o de mulheres cisgênero.

O caso mais emblemático foi o da nadadora norte-americana Lia Thomas, impedida de disputar as seletivas para os Jogos Olímpicos de Paris, mesmo após vencer uma competição universitária nos Estados Unidos.

O recurso apresentado por sua equipe ao Tribunal Arbitral do Esporte foi negado, sob alegação de que a atleta não era filiada à federação nacional no momento da ação.

Modelos alternativos e pioneirismo brasileiro

Enquanto muitas entidades impõem limitações rigorosas, outras exploram caminhos alternativos. A World Triathlon, por exemplo, criou uma categoria aberta por faixa etária em 2025, permitindo a participação de qualquer atleta, independentemente do gênero.

Já a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) adotou uma política própria em 2022, fixando o limite de testosterona em 5 nmol/L nos 12 meses anteriores à competição.

A jogadora Tifanny Abreu, que mantém níveis hormonais abaixo de 0,2 nmol/L, tornou-se em 2025 a primeira mulher trans a vencer a Superliga feminina de vôlei, simbolizando os impactos diretos de políticas mais inclusivas no esporte nacional.

Debate em aberto: entre ciência, direitos e esporte

Ainda não há consenso entre as entidades esportivas, nem respaldo científico definitivo sobre quais limites asseguram a equidade entre atletas cis e trans.

Entidades como a Federação Internacional de Xadrez (FIDE), apesar de não envolver esforço físico significativo, também vetaram a participação de atletas trans em torneios femininos, justificando a decisão com base na falta de diretrizes jurídicas e científicas consolidadas.

Enquanto algumas federações aguardam estudos mais aprofundados ou casos concretos para se posicionar, como a FIFA, no futebol, especialistas alertam para o risco de decisões excludentes e discriminatórias. A advogada Mariana Araújo, especialista em Direito Esportivo, destaca que a judicialização do tema deve se intensificar nos próximos anos.

O cenário atual revela um esporte em transição, no qual o debate sobre gênero, identidade e justiça competitiva segue em curso — e ainda sem linha de chegada visível.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 11/05/2025
  • Fonte: Sorria!,