Especialista analisa caso de racismo contra Vinícius Júnior

Em entrevista exclusiva ao ABCdoABC, o Dr. Cláudio Klement Rodrigues analisa o caso de racismo envolvendo Vinícius Júnior e Gianluca Prestianni

Crédito: Reprodução/X-Twitter

Em uma partida que deveria ser celebrada pelo equilíbrio técnico, o empate em 1 a 1 entre Benfica e Real Madrid, pela Champions League, foi manchado por mais um episódio de intolerância. O atacante brasileiro Vinícius Júnior voltou a ser alvo de insultos racistas, desta vez desferidos, supostamente, pelo argentino Gianluca Prestianni.

Para entender as complexas ramificações jurídicas e desportivas deste caso, o portal ABCdoABC conversou com exclusividade com o Dr. Cláudio Klement Rodrigues, advogado especialista em Direito Desportivo.

Advogado Cláudio Klement Rodrigues analisa caso Vinícius Júnior ontem pela Champions League – Reprodução/Arquivo Pessoal

O “Pacto de Silêncio“: a estratégia de esconder a ofensa contra Vinícius Júnior

Vinícius Júnior em comemoração de gol pela Champions League, na última terça - Reprodução/TNT Sports
Vinícius Júnior em comemoração de gol pela Champions League, na última terça – Reprodução/TNT Sports

A polêmica ganhou contornos dramáticos após o gol de Vinícius Júnior, aos cinco minutos do segundo tempo. Durante a comemoração, Prestianni teria proferido a palavra “mono” (macaco, em espanhol), enquanto cobria a boca com a camisa — um gesto que, segundo especialistas, visa dificultar a prova material.

Jogador Gianluca Prestianni tampou a boca com a camisa ao se direcionar ao Vini Jr – Reprodução/TNT Sports

Em entrevista ao ABCdoABC, o Dr. Cláudio Klement Rodrigues pondera sobre a dificuldade probatória:

“O que se viu foi uma discussão em que Vinícius Júnior proferiu ofensas, com sites publicando a leitura labial do atleta, mas as falas de Prestianni não puderam ser claramente identificadas, pois ele tampou a boca. É importante notar que somente os dois jogadores envolvidos sabem o que realmente foi dito no calor do jogo.”

Apesar da dificuldade técnica da leitura labial no agressor, o especialista é categórico: Nada justifica o racismo.

O conflito entre o Direito Humanitário e os Regulamentos da UEFA

Um dos pontos mais sensíveis do embate sobre o Vinícius Júnior foi a reação de Kylian Mbappé, que acusou o adversário diretamente e sugeriu o abandono da partida. No entanto, o Dr. Cláudio alerta para os riscos jurídicos de uma saída unilateral de campo por parte do Real Madrid.

A rigidez das normas de competição

De acordo com o especialista, o ímpeto de justiça dos jogadores para com Vinícius Júnior pode colidir com a burocracia desportiva:

  • Punição ao Clube: O Real Madrid sofreria sanções previstas no regulamento por abandonar o jogo (derrota por W.O. ou perda de pontos).
  • O Veredito do Especialista: “O direito humanitário não se sobrepõe à rigidez dos regulamentos de competição da UEFA nesses casos”, enfatiza o Dr. Cláudio.

Jurisdição: Onde o crime será julgado?

O caso de Vinícius Júnior tramitará em duas frentes distintas. O Dr. Cláudio Klement detalha a separação entre as leis nacionais e as normas da entidade máxima do futebol:

1. Esfera Criminal (Portugal)

Como o incidente ocorreu no Estádio da Luz, em Lisboa, a jurisdição é portuguesa. O crime de discriminação em solo lusitano pode resultar em penas severas de detenção e multas cíveis.

2. Esfera Desportiva (FIFA/UEFA)

Segue o Código Disciplinar da FIFA, especificamente o Artigo 15, que trata de discriminação.

Tipo de SançãoDetalhes da Punição
Suspensão IndividualMínimo de 10 partidas para o atleta infrator.
Multas FinanceirasTeto atualizado em 2025 para até 5 milhões de francos suíços.
Sanções ao ClubePerda de pontos, portões fechados ou interdição de setores.

O “Gesto do X” e os três Passos do protocolo Anti-Racismo

Um diferencial histórico nesta partida foi a aplicação imediata das diretrizes atualizadas no Congresso da FIFA de 2024. Pela primeira vez em um palco desta magnitude, o árbitro utilizou o gesto universal contra o racismo (braços cruzados na altura dos pulsos).

Entenda o Protocolo Ativado:

  1. Paralisação: Interrupção de 10 minutos com avisos sonoros no estádio.
  2. Ameaça de Suspensão: Reunião com capitães; se o abuso persistisse, as equipes iriam ao vestiário.
  3. Abandono Definitivo: Caso a hostilidade continuasse no retorno, o jogo seria encerrado com W.O. contra o infrator.

“Não vou parar de dançar”: A Resposta de Vini Jr.

Vinícius Júnior diz continuará dançando em suas comemorações – Divulgação/Real Madrid

Mesmo diante da agressão, Vinícius Júnior manteve sua postura de enfrentamento. Após o jogo, o brasileiro criticou a passividade da arbitragem em campo, que o puniu com cartão amarelo pela comemoração, enquanto o agressor não foi advertido de imediato.

“Racistas são, acima de tudo, covardes. Precisam tapar a boca com a camisa para mostrar o quanto são fracos”, desabafou o atleta em suas redes sociais.

A investigação agora segue para os tribunais da UEFA. Com o apoio de provas testemunhais (como o depoimento de Mbappé) e relatórios dos delegados da partida, o desfecho deste caso poderá se tornar um marco na jurisprudência desportiva internacional em 2026.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 18/02/2026
  • Fonte: Fever