Responsabilidade social pós-Carnaval: ESG entre discurso e prática
Após as cinzas, o ESG é confrontado: sem orçamento, governança e métricas reais, a responsabilidade social segue como narrativa
- Publicado: 19/01/2026
- Alterado: 20/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Multiplan MorumbiShopping
A Quarta-feira de Cinzas marca o fim do Carnaval. E deveria marcar também o fim da hipocrisia. O confete está no chão. A serpentina perdeu a cor. O discurso inspirador ficou restrito ao LinkedIn. O que sobra é o que sempre sobra: desigualdade intacta, exclusão normalizada e empresas prontas para atravessar o ano como se responsabilidade social fosse apenas um capítulo opcional do relatório ESG.
A pergunta que se impõe depois da última batucada não é se a responsabilidade social vai renascer das cinzas. A pergunta real é se o ESG vai parar de fingir que nasceu para transformar alguma coisa. O problema não é falta de recurso. É falta de decisão.
O ESG brasileiro tornou-se confortável demais. Confortável para relatórios, rankings, prêmios e narrativas institucionais. Mas perigosamente inofensivo para a realidade social que diz enfrentar.
A maioria dos projetos sociais corporativos não fracassa por falta de verba. Fracassa porque nasce sem intenção real de gerar impacto estrutural. São iniciativas desenhadas para não gerar atrito interno, não questionar privilégios e não exigir mudança no modelo de negócio. Em outras palavras: projetos seguros para quem não quer mudar nada.
Depois das cinzas, algumas verdades precisam ser encaradas

Responsabilidade social não é marketing sofisticado. É gestão de risco social. Empresas que tratam o tema como acessório acumulam riscos reputacionais, sociais e humanos. Não existe neutralidade em um país desigual. Existe posicionamento — mesmo quando ele é omisso.
Doação pontual não é projeto. É anestesia. Ajudar uma vez por ano não transforma sociedade; apenas alivia consciências por alguns dias. Impacto social exige recorrência, previsibilidade e compromisso público. Se não entra no orçamento fixo, na agenda do conselho e nos indicadores estratégicos, não é ESG — é cosmética.
Escolher uma causa não é estratégia de branding. É assumir lado. Empresas que tentam abraçar todas as causas não aprofundam nenhuma. Impacto exige foco, permanência e exposição. Quem não aguenta permanecer não deveria começar.
Projeto social que não incomoda a empresa não muda a sociedade. Se não questiona processos, não envolve liderança e não expõe incoerências internas, não é transformador — é decorativo. E impacto não se mede em curtidas, prêmios ou releases. Mede-se em acesso garantido, permanência, autonomia e mudança concreta na vida de pessoas reais. Se não pode ser medido, provavelmente não aconteceu.
ESG no pós-Carnaval

Depois do Carnaval, não faltam frases bonitas. Falta coragem para fazer diferente quando não há palco, aplauso ou holofote. Ou a responsabilidade social renasce como estratégia estrutural, integrada à governança e à cultura corporativa, ou o ESG seguirá sendo o maior exercício coletivo de autoengano empresarial da década.
Cinzas são o que sobra quando tudo que é superficial queima. O que nasce depois disso ou é estrutural — ou não merece nem entrar no relatório ESG.
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