Escutar o paciente ainda é o maior ato médico

Artigo produzido por Cíntia Baulé, médica de família e diretora da DoctorAssistant.ai

Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Em um mundo onde a tecnologia avança de forma vertiginosa e o sistema de saúde se torna cada vez mais compartimentalizado, a medicina de família surge como um dos últimos redutos de resistência ao modelo fragmentado, apressado e, muitas vezes, desumanizado que predomina hoje. Falar sobre medicina de família é, antes de tudo, recuperar a ideia de vínculo. É reconhecer que cuidar da saúde não se resume a interpretar exames ou prescrever medicamentos, mas a escutar histórias, acolher fragilidades e acompanhar processos ao longo do tempo.

Na contramão da lógica dominante — que separa o corpo em especialidades, como se fôssemos um amontoado de órgãos isolados —, o médico de família enxerga o paciente como uma totalidade: alguém inserido em um contexto social, familiar, emocional e histórico. Esse olhar integral faz com que a relação entre médico e paciente transcenda a consulta, transformando-se em uma parceria contínua e afetiva, sustentada pela confiança mútua.

E essa confiança não é retórica: ela tem efeitos concretos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), países que investem em atenção primária têm sistemas de saúde mais eficientes, equitativos e sustentáveis. A razão é simples — quando há continuidade no cuidado, os diagnósticos são mais precisos, os tratamentos são mais aderentes e as internações desnecessárias diminuem drasticamente. Ainda assim, o Brasil caminha lentamente nesse sentido: estudo da USP, publicado em 2023, revelou que apenas 3% dos médicos brasileiros possuem residência em Medicina de Família e Comunidade. É um dado chamativo para um país em que mais da metade da população adulta convive com ao menos uma doença crônica, segundo o IBGE.

Num cenário de medicalização excessiva, prescrições padronizadas e tempo cronometrado para cada consulta, o médico de família propõe algo revolucionário: escutar sem pressa. É essa escuta qualificada que permite decisões compartilhadas, planos terapêuticos mais realistas e um cuidado que respeita os valores, as crenças e as prioridades de cada pessoa. Em vez de tratar apenas sintomas, trata-se de compreender o que está por trás deles. E muitas vezes, o que o paciente diz nas entrelinhas vale mais do que qualquer laudo.

No entanto, que fique claro: esse modelo não exclui a tecnologia — pelo contrário, se serve dela. Ferramentas como a transcrição automática de prontuários liberam tempo do médico, que pode focar no que realmente importa: o paciente. Não se trata de rejeitar o progresso, mas de usá-lo como aliado para resgatar o que a medicina tem de mais valioso: o cuidado humano.

A medicina de família é também uma resposta concreta aos desafios estruturais do sistema. Ela atua na prevenção, no manejo de condições crônicas e no cuidado de quadros agudos, reduzindo custos e tornando o sistema mais eficiente. Mas sua maior força talvez esteja no que não pode ser quantificado: a construção de vínculos duradouros, a dignidade no atendimento e o sentimento de ser verdadeiramente visto.

Tratar doenças é importante. Mas tratar pessoas é essencial. Em tempos de pressa, burnout médico e descrença no sistema, a medicina de família não é apenas um modelo assistencial. É uma filosofia, um resgate, um convite a reumanizar a prática médica. E talvez, mais do que nunca, seja disso que estejamos precisando.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 15/04/2025
  • Fonte: Fever