Escritores do ABC transformam desafios em resistência, fé e literatura
Jovens autores e vozes da periferia mostram como a escrita no ABC inspira, denuncia e rompe barreiras culturais e sociais
- Publicado: 26/08/2025 09:45
- Alterado: 26/08/2025 10:04
- Autor: Larissa Rodrigues
Alguns influenciadores do ABC já revelaram que sentem ter menos oportunidades em comparação com os da capital paulista. Mas essa realidade se repete no mundo da literatura? Para descobrir, o portal ABCdoABC ouviu três escritores do ABC para entender os pontos fortes e os obstáculos que a escrita local enfrenta.
Moradores de Mauá, dois jovens autores, Adrian Felipe e Camila Oliveira, ambos de 24 anos, são escritores do ABC que transformam suas experiências de vida em livros que inspiram. Eles nos mostram que a paixão pela escrita, aliada à fé e à resiliência, pode superar desafios e impactar a vida de muitas pessoas.
A escrita como propósito
A jornada de Adrian começou cedo. Aos 15 anos, escreveu seu primeiro livro, O Antes e o Depois da Adolescência com Jesus. A obra, publicada pela editora Querigma, é uma guia de autoajuda e espiritualidade que explora as transformações da vida de um adolescente após um encontro com a fé.
“Esse livro se divide em reflexões práticas e espirituais, testemunhos e orientações que servem como guia para adolescentes, pais e educadores compreenderem melhor esse período e enxergarem nele uma oportunidade de crescimento com Cristo”, comenta Adrian.
O sucesso do primeiro livro o inspirou a escrever outros. A Janela, um romance sobre amor, fé e superação, foi escrito e lançado durante a pandemia. A obra teve um impacto social significativo: toda a renda gerada foi revertida para a compra de cestas básicas para famílias em necessidade. Um exemplo concreto de como a escrita pode ser uma ferramenta de transformação.



A escrita a dois: a força de uma parceria

A história de Camila com a escrita começou em 2023, quando Adrian a convidou para coescrever o livro Nascidos para serem amados. A obra, também publicada pela Querigma, narra a trajetória do casal e como eles decidiram dedicar suas vidas a Deus. “Ele me convidou porque disse que a minha história fazia parte da inspiração do processo do livro”, relata Camila.

O livro, que mistura relatos pessoais com reflexões sobre propósito, mostra que a vida comum pode ser extraordinária quando vivida com fé. “Não existe nada que glorifique tanto a Deus do que pessoas comuns, que no seu cotidiano, decidiram se entregar e dedicarem suas vidas a Ele”, afirmam.
Os desafios e o futuro da escrita
Embora a venda dos livros não seja a principal fonte de renda do casal, que também administra o Ateliê Caad, a paixão pela escrita se mantém forte. Eles reconhecem que escritores do ABC enfrentam desafios maiores para alcançar o reconhecimento que autores da capital têm. “A maior dificuldade foi encontrar uma editora que acreditasse na minha história”, conta Adrian. Ele enfrentou o desafio de ser um autor desconhecido em uma época dominada por influenciadores.
Em um cenário onde a leitura perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024, segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, Adrian e Camila incentivam a prática. Eles destacam a importância de aproveitar pequenos momentos para ler, seja no transporte público ou em pausas do dia, e enfatizam que a leitura transforma, aumenta o vocabulário e inspira a ter mais sonhos e objetivos. A história de Adrian e Camila é um exemplo de como a escrita pode ser uma ferramenta de mudança e esperança.
Onde encontrar as obras: Os livros podem ser comprados online, nas redes sociais dos autores e em algumas livrarias do ABC.
A voz da periferia: como a escrita de Guilherme de Andrade se tornou um grito de resistência e esperança
Guilherme de Andrade, um escritor de Santo André, transformou as dores e a beleza da vida na periferia em uma poderosa ferramenta de expressão. O escritor se estabeleceu como uma voz marcante na literatura, usando seus livros para refletir sobre a realidade e inspirar a comunidade.
A escrita de Guilherme, que começou cedo, ganhou um novo propósito quando ele teve contato com a obra de Sérgio Vaz. “Antes, eu pensava que periférico não podia escrever”, ele conta. “Quando chega ‘Colecionador de Pedras’ nas minhas mãos, eu penso que a gente, não só pode, como deve escrever”. Inspirado por essa percepção, ele mergulhou em seus pensamentos artísticos para dar vida aos seus primeiros poemas e contos.
Sua inspiração vem da vida real. “Tenho inspiração em tudo o que vivo e observo”, revela. Em suas publicações, ele aborda temas que refletem sua vivência:
“Canto do povo, raízes de liberdade” é um manifesto poético, um “grito de denúncia do genocídio dos jovens periféricos, sobretudo, os negros”. O livro é um retrato da dor e da luta diária pela existência, retratando a busca por um lugar no mundo.

“Cria de favela” continua a narrativa de luta, mas com um olhar que celebra a cultura e a força da periferia. É um livro que exala a busca por ser e resistir, mesmo diante dos obstáculos.

“Esquinas Corporais” se diferencia dos outros, explorando os caminhos do amor, do desejo e dos relacionamentos através de poemas eróticos-românticos.

Literatura no ABC
Publicar o primeiro livro, segundo Guilherme, foi uma jornada de desafios, principalmente na busca por uma editora e no investimento financeiro. “Para escrever não tive tanta dificuldade”, ele conta. “Mas para publicar, houve várias. Tive que procurar editoras, entender o processo de publicação e, principalmente, juntar o dinheiro necessário para o investimento, o que considero o mais difícil.”, ele diz. O processo, desde a finalização até a publicação, levou cerca de dois anos.
Apesar das dificuldades, a carreira de escritor já trouxe algum retorno, embora não seja sua única fonte de renda. Atualmente, os livros “Canto do povo” e “Cria de Favela” estão em processo de relançamento em um volume único. “Esquinas Corporais” pode ser adquirido diretamente com o autor ou com a editora C.I Editorial.
Sobre o reconhecimento de escritores da região, Guilherme acredita que a qualidade é a mesma da capital. “Acredito que a literatura está muito distante da população de um modo geral e isso faz com que todos nós, escritores, estejamos em um limbo de reconhecimento”, pondera.
Para incentivar a leitura, ele sugere que ela seja incorporada à rotina diária, mesmo que por poucos minutos. “Ler é saúde e uma viagem à imaginação.”, conclui.