Escritores do ABC transformam desafios em resistência, fé e literatura
Jovens autores e vozes da periferia mostram como a escrita no ABC inspira, denuncia e rompe barreiras culturais e sociais
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 26/08/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Alguns influenciadores do ABC já revelaram que sentem ter menos oportunidades em comparação com os da capital paulista. Mas essa realidade se repete no mundo da literatura? Para descobrir, o portal ABCdoABC ouviu três escritores do ABC para entender os pontos fortes e os obstáculos que a escrita local enfrenta.
Moradores de Mauá, dois jovens autores, Adrian Felipe e Camila Oliveira, ambos de 24 anos, são escritores do ABC que transformam suas experiências de vida em livros que inspiram. Eles nos mostram que a paixão pela escrita, aliada à fé e à resiliência, pode superar desafios e impactar a vida de muitas pessoas.
A escrita como propósito
A jornada de Adrian começou cedo. Aos 15 anos, escreveu seu primeiro livro, O Antes e o Depois da Adolescência com Jesus. A obra, publicada pela editora Querigma, é uma guia de autoajuda e espiritualidade que explora as transformações da vida de um adolescente após um encontro com a fé.
“Esse livro se divide em reflexões práticas e espirituais, testemunhos e orientações que servem como guia para adolescentes, pais e educadores compreenderem melhor esse período e enxergarem nele uma oportunidade de crescimento com Cristo”, comenta Adrian.
O sucesso do primeiro livro o inspirou a escrever outros. A Janela, um romance sobre amor, fé e superação, foi escrito e lançado durante a pandemia. A obra teve um impacto social significativo: toda a renda gerada foi revertida para a compra de cestas básicas para famílias em necessidade. Um exemplo concreto de como a escrita pode ser uma ferramenta de transformação.



A escrita a dois: a força de uma parceria

A história de Camila com a escrita começou em 2023, quando Adrian a convidou para coescrever o livro Nascidos para serem amados. A obra, também publicada pela Querigma, narra a trajetória do casal e como eles decidiram dedicar suas vidas a Deus. “Ele me convidou porque disse que a minha história fazia parte da inspiração do processo do livro”, relata Camila.

O livro, que mistura relatos pessoais com reflexões sobre propósito, mostra que a vida comum pode ser extraordinária quando vivida com fé. “Não existe nada que glorifique tanto a Deus do que pessoas comuns, que no seu cotidiano, decidiram se entregar e dedicarem suas vidas a Ele”, afirmam.
Os desafios e o futuro da escrita
Embora a venda dos livros não seja a principal fonte de renda do casal, que também administra o Ateliê Caad, a paixão pela escrita se mantém forte. Eles reconhecem que escritores do ABC enfrentam desafios maiores para alcançar o reconhecimento que autores da capital têm. “A maior dificuldade foi encontrar uma editora que acreditasse na minha história”, conta Adrian. Ele enfrentou o desafio de ser um autor desconhecido em uma época dominada por influenciadores.
Em um cenário onde a leitura perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024, segundo a pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, Adrian e Camila incentivam a prática. Eles destacam a importância de aproveitar pequenos momentos para ler, seja no transporte público ou em pausas do dia, e enfatizam que a leitura transforma, aumenta o vocabulário e inspira a ter mais sonhos e objetivos. A história de Adrian e Camila é um exemplo de como a escrita pode ser uma ferramenta de mudança e esperança.
Onde encontrar as obras: Os livros podem ser comprados online, nas redes sociais dos autores e em algumas livrarias do ABC.
A voz da periferia: como a escrita de Guilherme de Andrade se tornou um grito de resistência e esperança
Guilherme de Andrade, um escritor de Santo André, transformou as dores e a beleza da vida na periferia em uma poderosa ferramenta de expressão. O escritor se estabeleceu como uma voz marcante na literatura, usando seus livros para refletir sobre a realidade e inspirar a comunidade.
A escrita de Guilherme, que começou cedo, ganhou um novo propósito quando ele teve contato com a obra de Sérgio Vaz. “Antes, eu pensava que periférico não podia escrever”, ele conta. “Quando chega ‘Colecionador de Pedras’ nas minhas mãos, eu penso que a gente, não só pode, como deve escrever”. Inspirado por essa percepção, ele mergulhou em seus pensamentos artísticos para dar vida aos seus primeiros poemas e contos.
Sua inspiração vem da vida real. “Tenho inspiração em tudo o que vivo e observo”, revela. Em suas publicações, ele aborda temas que refletem sua vivência:
“Canto do povo, raízes de liberdade” é um manifesto poético, um “grito de denúncia do genocídio dos jovens periféricos, sobretudo, os negros”. O livro é um retrato da dor e da luta diária pela existência, retratando a busca por um lugar no mundo.

“Cria de favela” continua a narrativa de luta, mas com um olhar que celebra a cultura e a força da periferia. É um livro que exala a busca por ser e resistir, mesmo diante dos obstáculos.

“Esquinas Corporais” se diferencia dos outros, explorando os caminhos do amor, do desejo e dos relacionamentos através de poemas eróticos-românticos.

Literatura no ABC
Publicar o primeiro livro, segundo Guilherme, foi uma jornada de desafios, principalmente na busca por uma editora e no investimento financeiro. “Para escrever não tive tanta dificuldade”, ele conta. “Mas para publicar, houve várias. Tive que procurar editoras, entender o processo de publicação e, principalmente, juntar o dinheiro necessário para o investimento, o que considero o mais difícil.”, ele diz. O processo, desde a finalização até a publicação, levou cerca de dois anos.
Apesar das dificuldades, a carreira de escritor já trouxe algum retorno, embora não seja sua única fonte de renda. Atualmente, os livros “Canto do povo” e “Cria de Favela” estão em processo de relançamento em um volume único. “Esquinas Corporais” pode ser adquirido diretamente com o autor ou com a editora C.I Editorial.
Sobre o reconhecimento de escritores da região, Guilherme acredita que a qualidade é a mesma da capital. “Acredito que a literatura está muito distante da população de um modo geral e isso faz com que todos nós, escritores, estejamos em um limbo de reconhecimento”, pondera.
Para incentivar a leitura, ele sugere que ela seja incorporada à rotina diária, mesmo que por poucos minutos. “Ler é saúde e uma viagem à imaginação.”, conclui.