Escrever é se reinventar todo dia
Artigo de Nelson Albuquerque Jr. com algumas reflexões sobre a escrita, suas missões e seus prazeres
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 02/05/2020
- Autor: Redação
- Fonte: Multiplan MorumbiShopping
José Saramago (1922-2010) nos deixou a seguinte sentença: “Todo mundo é escritor, a diferença é que uns escrevem e outros não”. E para esses que escrevem existem vários motivos: prazer, missão, obrigação, necessidade de se expressar, e por aí vai.
Colocar uma história no papel é, antes de tudo, escancarar suas ideias, medos, valores, conhecimentos, memórias, desejos, vitórias e fracassos. É, sim, estar exposto para o mundo. Isso pode ser visto com certa cautela ou receio, mas no fundo é extremamente libertador. Não tem nada melhor que encarar o mundo com suas verdades e suas próprias armas.
O grande barato da escrita é que, contar uma história e se expor, pode ser feito de mil formas diferentes. Para isso temos o “eu poético”, temos personagens, a ficção, a dissertação e, acima de tudo, temos nós inteiros ali como autores.
Por isso costumo dizer que escrever é se reinventar todos os dias. É continuar se encantando e se indignando com as coisas que a vida nos oferece. E, então, se perguntando: Como vou contar isso agora?
AUTÊNTICO, AMPLO, PROFUNDO
Charles Bukowski (1920-1994), em forma de poema, falou muito bem sobre o ato de escrever: “Se não irrompe de dentro de você, apesar de tudo, não faça/ A menos que venha sem pedir do seu coração e da sua mente e da sua boca e das suas entranhas, não faça/ Se tiver tentando escrever como outra pessoa, esqueça”. Esses são apenas alguns trechos de um belo texto que nos motiva à autenticidade e visceralidade em nossos textos.
Na mesma linha de pensamento, encontramos a regra número 14 que a Pixar estabelece a seus roteiristas: “Por que você precisa contar esta história? Qual a crença queimando dentro de você que mantém a história acesa? Esse é o coração dela”.
Posso agora citar a nossa diva literária Clarice Lispector (1920-1977) para dizer que, para bem expressar as nossas sensações e percepções, precisamos expandir nosso vocabulário. Isso nos permite explorar recantos sentimentais com muito mais precisão e verdade. Ela disse: “Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento”. E, também, sobre essa busca constante: “O que eu não sei dizer é mais importante do que o que eu digo”.
TERAPÊUTICO, FORTEMENTE ATIVO
Escrever é um exercício libertador, é terapêutico e é, sim, uma ação concreta. Porque o texto é uma forma de telepatia, de se comunicar através de barreiras imaginárias e inimagináveis. Stephen King (1947) falou: “Todas as artes dependem de telepatia em algum grau, mas acredito que a escrita é pura destilação”. E é uma destilação porque a gente faz uma ideia se condensar em palavras, viajar no espaço e no tempo, e novamente se vaporizar para a mente e coração do leitor. Esse processo ocorre a todo momento numa leitura (está ocorrendo agora) e é totalmente sem controle para o autor. E, por isso, é tão libertador e terapêutico.
Ao escrever, abrimos nosso coração e expomos nossas virtudes e deficiências. E quem vai ler? Não importa. O que vão pensar? Não interessa. Como vão julgar? Problema deles. Afinal, depois que o autor entrega seu texto para o mundo, este não é mais dele. É do leitor, e ele que se entenda com isso.
Cada um terá sua interpretação (óbvio, dentro do que o escritor propõe no texto), porque cada pessoa tem seu repertório e seu momento de vida. Uma história brilha de forma diferente para cada um. Essa é a beleza da escrita. E é o oásis libertador do escritor.
PARA TERMINAR
Eliane Brum (1966) é uma jornalista gaúcha que migrou para a escrita literária. Em um texto depoimento, ela conta: “Aos 7 anos, a literatura me deu mundos para onde escapar e me emprestou corpos que eu podia habitar”. E, aos 20 e poucos, ela entendeu uma nova forma de se expressar: “Percebi que algumas realidades só a ficção suporta. Eu precisava de uma voz na ficção”.