Escala 6x1: redução da jornada pode mudar produtividade
Redução da jornada para 40 horas pode mudar rotina das empresas
- Publicado: 03/09/2026 16:03
- Alterado: 03/09/2026 16:12
- Autor: Thiago Antunes
A discussão sobre o fim da escala 6×1 deixou de ser apenas sobre a quantidade de dias de descanso dos trabalhadores e passou a envolver uma questão mais ampla: como empresas e profissionais podem manter ou até elevar a produtividade com menos horas de trabalho. A PEC 221/2019, aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, prevê a redução da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, além de dois dias de repouso remunerado, sem redução salarial. A proposta ainda precisa ser analisada pelo plenário da Casa.
Mais do que a mudança na legislação, o avanço da proposta traz um debate sobre o próprio conceito de produtividade. Para o pesquisador e doutor Rodrigo de Barros, a quantidade de horas trabalhadas não deve ser confundida com a capacidade de uma equipe de produzir resultados. Segundo ele, criatividade, aprendizagem e experimentação são componentes fundamentais da inovação e dependem de condições que permitam ao cérebro trabalhar de maneira adequada.
“A criatividade, principal matéria-prima da inovação, depende diretamente das capacidades de aprendizagem, experimentação e desenvolvimento humano”, afirma o pesquisador. Na avaliação de Rodrigo, jornadas menores podem, em determinadas condições, favorecer justamente esses processos e resultar em ganhos de produtividade.
Menos horas não significam necessariamente menor produção

A principal mudança provocada pelo fim da escala 6×1 seria a necessidade de reorganizar a relação entre tempo de trabalho e entrega. Atualmente, a jornada máxima prevista é de 44 horas semanais. Com a PEC, esse limite cairia para 40 horas, mantendo os salários.
Para Rodrigo de Barros, a redução precisa ser analisada sob uma visão que vá além do número de horas disponíveis. O pesquisador desenvolveu, durante seu doutorado na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), um modelo voltado a avaliar a relação entre pressão temporal e criatividade. A pesquisa partiu de um levantamento de 1.004 artigos científicos e chegou a um conjunto de 101 estudos considerados de maior impacto para a construção do modelo.
A conclusão defendida por Rodrigo é que ambientes submetidos constantemente à pressão, ao medo e à insegurança tendem a favorecer respostas imediatas, enquanto prejudicam processos necessários para a inovação de longo prazo.
“A criatividade não surge sob pressão permanente. Ela depende de processos de aprendizagem, reflexão e elaboração que exigem tempo e condições cognitivas adequadas”, explica.
Nesse cenário, uma eventual redução da jornada pode obrigar as empresas a rever processos internos, reuniões, distribuição de tarefas e prioridades. A lógica seria substituir parte do tempo gasto em atividades pouco produtivas por uma organização mais eficiente.
Pressão e excesso de trabalho podem afetar inovação

A discussão ganha relevância em um momento em que empresas enfrentam uma cobrança crescente por inovação. Rodrigo afirma ouvir frequentemente, em palestras realizadas para grandes companhias brasileiras, relatos relacionados à dificuldade de criar novos produtos, processos e soluções.
Segundo o pesquisador, a transformação digital aumentou a velocidade das operações, mas também reduziu os limites entre trabalho e vida pessoal. Aplicativos corporativos, mensagens instantâneas e reuniões constantes podem manter os profissionais conectados durante grande parte do dia, aumentando a sobrecarga cognitiva.
“Vivemos uma crise criativa”, afirma Rodrigo, ao destacar que a inovação depende de profissionais capazes de estabelecer novas conexões, solucionar problemas complexos e propor alternativas.
Para ele, jornadas excessivas podem comprometer justamente essas capacidades. Em situações prolongadas de estresse, o organismo permanece em estado de alerta, o que pode prejudicar funções como memória, aprendizagem, planejamento e pensamento criativo.
O efeito econômico disso não é necessariamente imediato, mas pode aparecer na forma de erros, retrabalho, queda de engajamento, dificuldade de retenção de profissionais e menor capacidade de desenvolver novas soluções.
Empresas podem precisar produzir mais por hora

É nesse ponto que o debate sobre a escala 6×1 se aproxima diretamente da produtividade. Se a quantidade total de horas disponíveis diminui, a tendência é que as organizações precisem extrair mais resultado de cada hora trabalhada.
Para Rodrigo, isso passa pela revisão dos processos. Empresas que adotam jornadas menores precisam identificar atividades que consomem tempo sem gerar valor, reduzir interrupções, reorganizar reuniões e proteger períodos destinados à concentração.
Experiências internacionais citadas pelo pesquisador em países como Islândia, Japão, Nova Zelândia e Reino Unido indicam que a redução da jornada pode estar associada a ganhos de produtividade, satisfação e desempenho. Em alguns casos, a diminuição do tempo de trabalho foi acompanhada por mudanças na maneira como as atividades eram distribuídas.
A tese, portanto, não é simplesmente trabalhar menos mantendo exatamente a mesma estrutura. A mudança envolve trabalhar de maneira diferente.
“Em vez de simplesmente reduzir horas trabalhadas, essas organizações passaram a redesenhar seus processos, eliminando reuniões desnecessárias, simplificando fluxos de decisão e protegendo períodos de concentração profunda”, afirma Rodrigo.
Custo da hora trabalhada também deve aumentar

Do lado das empresas, porém, a alteração traz um impacto financeiro que não pode ser ignorado. O advogado trabalhista Gilson de Souza Silva, do CNF Advogados, calcula que, caso o salário permaneça igual enquanto a jornada passa de 44 para 40 horas semanais, o custo da hora trabalhada aumenta aproximadamente 10%.
A pressão tende a ser maior em atividades que dependem diretamente de mão de obra e precisam manter equipes funcionando durante períodos prolongados. Comércio, serviços e determinados segmentos industriais estão entre os setores que podem enfrentar maiores dificuldades para reorganizar suas operações.
“Em muitos casos, a empresa terá de reorganizar as escalas, pagar horas extras ou contratar trabalhadores para cobrir as horas que deixam de ser cumpridas”, explica Gilson.
O impacto, entretanto, não seria igual para todas as empresas. Grandes companhias podem ter mais condições de investir em automação, tecnologia e reorganização de processos. Já micro, pequenas e médias empresas podem encontrar mais dificuldades para absorver custos adicionais, principalmente quando trabalham com margens reduzidas.
Indústria terá desafio adicional com operações contínuas

No setor industrial, o impacto também depende das características de cada atividade. O CIESP Santo André alerta que determinados segmentos trabalham com operações contínuas e dependem de turnos organizados para manter a produção.
Para o diretor titular da entidade, Eduardo Batistella Mazurkyewistz, uma mudança uniforme na legislação pode não considerar as diferenças existentes entre os setores.
“Em muitos segmentos industriais, a produção não pode ser simplesmente reduzida ou interrompida. Isso exige escala, turnos e continuidade. Qualquer mudança na jornada precisa considerar essa realidade”, avalia.
A entidade defende que alterações nas jornadas sejam acompanhadas de negociação entre trabalhadores e empregadores, levando em conta as particularidades de cada atividade. Entre as preocupações estão custos, competitividade, produtividade e manutenção dos postos de trabalho.
Automação e qualificação podem ganhar espaço

Outro possível efeito da redução da jornada é a aceleração de investimentos em tecnologia e qualificação. Para Gilson, empresas que não conseguirem absorver o aumento do custo por hora poderão buscar alternativas como automação, jornadas parciais e reorganização das equipes.
Rodrigo de Barros acrescenta que esse processo pode ser positivo quando utilizado para eliminar tarefas repetitivas e liberar os profissionais para atividades de maior valor intelectual.
A questão ganha ainda mais importância com o avanço da inteligência artificial. À medida que sistemas automatizam tarefas analíticas e repetitivas, competências como criatividade, pensamento crítico, colaboração e resolução de problemas complexos passam a ter maior peso.
Para o pesquisador, o diferencial competitivo tende a migrar da quantidade de horas de conexão para a capacidade de transformar conhecimento em soluções.
“A tendência indica que o diferencial competitivo das empresas não estará na quantidade de horas que seus profissionais permanecem conectados, mas na qualidade das ideias que conseguem produzir”, afirma.
O desafio será equilibrar produtividade e custos

O fim da escala 6×1, portanto, pode provocar efeitos diferentes conforme o setor, o porte da empresa e o modelo de operação. Para alguns negócios, a mudança poderá representar aumento de custos e necessidade de contratação. Para outros, poderá funcionar como estímulo à automação, reorganização dos processos e melhoria da produtividade.
O ponto central, na avaliação de Rodrigo, é abandonar a ideia de que produtividade significa simplesmente permanecer mais tempo trabalhando. Em uma economia cada vez mais baseada em conhecimento e inovação, descanso, aprendizagem e capacidade criativa também podem produzir efeitos econômicos.
“Organizações que protegem o tempo de recuperação física e mental de seus colaboradores aumentam sua capacidade de inovação, fortalecem o engajamento e constroem equipes mais preparadas para enfrentar problemas complexos”, afirma.
Nesse sentido, a discussão sobre a escala 6×1 ultrapassa a definição de quantos dias o trabalhador permanece na empresa. A eventual redução da jornada poderá obrigar organizações a responder a uma pergunta mais complexa: como produzir mais valor em menos tempo?
A resposta poderá envolver tecnologia, negociação coletiva, novos modelos de escala, qualificação profissional e revisão de processos. Para Rodrigo de Barros, porém, existe um elemento que tende a permanecer central nessa equação: o desenvolvimento humano.
Em vez de avaliar produtividade apenas pelo volume de horas trabalhadas, empresas podem precisar medir sua capacidade de aprender, adaptar processos e criar soluções. Se essa transformação ocorrer, a redução da jornada poderá deixar de ser apenas uma mudança na legislação trabalhista e se tornar também um teste para a capacidade das organizações de produzir mais com eficiência, inovação e inteligência.