Escala 6x1, pejotização e o direito ao tempo de vida do trabalhador

Advogado Erazê Sutti analisa a legislação vigente da atual escala 6x1 e o que um novo modelo de jornada de trabalho implicaria.

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O debate sobre o fim da escala 6×1 cada vez mais ganha espaço no cenário nacional e, com ele, surgem também muitas distorções que acabam afastando o trabalhador da compreensão do que efetivamente está em jogo para a sua própria vida. Não se trata apenas de reorganizar dias de trabalho, mas de discutir saúde, dignidade e o próprio equilíbrio das relações de trabalho em uma sociedade que já mudou, mas que ainda opera com lógicas antigas.

Ao longo das últimas décadas, a tecnologia permitiu que se produzisse mais, melhor e com menos esforço humano. Esse avanço, no entanto, não foi acompanhado por uma redistribuição social do tempo de trabalho. Ao contrário, o que se observa é a intensificação das jornadas, somada ao aumento do tempo de deslocamento e à compressão do tempo de descanso.

O que eu acabei de descrever não é uma percepção isolada. A própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que jornadas extensas estão associadas ao aumento de doenças e à redução da qualidade de vida. No Brasil, esse quadro se agrava quando se considera a realidade urbana, marcada por longos deslocamentos, infraestrutura de transporte insuficiente e concentração dos postos de trabalho em regiões específicas das cidades. Segundo dados do IBGE, o trabalhador chega a gastar, em média, mais de 4,8 horas semanais apenas no trajeto entre casa e trabalho, número que piora em grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro.

Isso significa que, mesmo quando não está formalmente dentro do ambiente laboral, o tempo de vida do profissional segue sendo consumido pelas exigências da atividade econômica. Ao se somar jornada, deslocamento e, muitas vezes, horas extras ou regimes de compensação, cria-se uma rotina em que o período disponível para descanso, lazer e convivência familiar se torna extremamente reduzido.

O que a legislação prevê hoje?

A Constituição Federal de 1988 estabelece como limite a jornada de oito horas diárias e 44 horas semanais. A CLT garante um descanso semanal de vinte e quatro horas, preferencialmente aos domingos. A partir dessa combinação, consolidou-se no país o modelo que conhecemos como escala 6×1.

Dados do Ministério do Trabalho mostram que cerca de 35 milhões de trabalhadores formais estavam contratados para jornadas acima de 40 horas semanais, o que representa a maioria da força de trabalho formal no país.

O que propõem os projetos em discussão?

As propostas atualmente em tramitação no Congresso Nacional buscam reduzir a jornada semanal e ampliar o descanso, sem redução salarial. O Projeto de Lei 1838/2026 estabelece o limite de 40 horas semanais (8h diárias) e garante dois dias de repouso semanal remunerado (5×2).

A própria justificativa do projeto reconhece que jornadas prolongadas estão associadas ao aumento de adoecimentos e à queda de produtividade, o que demonstra que a mudança não é apenas social, mas também econômica.

Esse movimento acompanha uma tendência internacional. Experiências recentes analisadas pelo DIEESE mostram que a redução da jornada tem sido associada à melhora da saúde mental, redução do estresse e até aumento da produtividade em diversos países. Entre os exemplos citados estão Bélgica, que adotou a semana de quatro dias por lei (4×2), Chile, que aprovou a redução da jornada para 40 horas semanais, e iniciativas em países como Reino Unido e Portugal, onde programas piloto indicaram resultados positivos tanto para trabalhadores quanto para empresas.

Impactos concretos para o trabalhador e para a economia

A ideia de que o fim da escala 6×1 geraria prejuízos generalizados não se sustenta quando confrontada com dados reais e com a própria lógica econômica.

Pesquisa do Sebrae revela que 62% dos pequenos negócios não veem impacto negativo com o fim dessa escala, sendo que 11% identificam possibilidade de impacto positivo. Isso indica que o principal motor da economia interna não enxerga a mudança como uma ameaça.

Quando se observa o impacto direto, os efeitos tendem a ser amplos: redução de adoecimentos físicos e mentais, já que jornadas longas estão ligadas a maior risco de doenças e afastamentos, conforme estudos da OIT e do DIEESE; melhoria da produtividade por hora trabalhada, com trabalhadores mais descansados e menos expostos ao desgaste contínuo; aumento do consumo interno; e possibilidade de reorganização das escalas, com geração de novos postos de trabalho em determinados setores.

Além disso, dados históricos mostram que aumentos de custo no trabalho não necessariamente resultam em desemprego. Estudos do IPEA indicam que elevações do salário mínimo no Brasil, em momentos anteriores, foram absorvidas pelo mercado sem os impactos negativos que se projetavam.

Produtividade e o equívoco do argumento isolado

O argumento do risco na piora da produtividade tem sido frequentemente utilizado como obstáculo à redução da jornada. No entanto, essa análise desconsidera fatores estruturais que influenciam diretamente esse indicador para cima.

O Brasil ocupa a 94ª posição no ranking mundial de produtividade por hora trabalhada, segundo dados da OIT. Isso não significa que o trabalhador brasileiro produza pouco, mas sim que há problemas estruturais na economia, como baixa qualificação média, infraestrutura precária e menor investimento em tecnologia.

Nesse sentido, a jornada de trabalho no Brasil, com teto de 44h semanais (frequentemente 6×1), é uma das mais altas do G20, superando EUA, França, Japão, Austrália, Argentina, Coreia do Sul, Reino Unido, Alemanha, Itália e Canadá, onde jornadas médias são inferiores a 39h semanais.

Reduzir a jornada, portanto, não é incompatível com o aumento da produtividade. Há estudos científicos em que a redução da jornada excessiva acarretou no aumento da produção e na diminuição dos custos operacionais, ou seja, a mudança para uma jornada 5×2, no mínimo, pode ser justamente o caminho para isso.

A importância também do debate sobre pejotização

Qualquer avanço na discussão sobre jornada de trabalho precisa necessariamente enfrentar a pejotização. Aqui, estamos falando de uma prática que tenta afastar a aplicação da legislação trabalhista para impedir que direitos básicos alcancem uma parcela significativa dos trabalhadores.

É essencial distinguir duas realidades completamente diferentes. De um lado, temos o trabalhador autônomo, que possui efetiva liberdade para organizar sua atividade, incluindo como pessoa jurídica. E, do outro, há o trabalhador sem autonomia real, que trabalha dependendo economicamente daquela relação, configurando uma relação de emprego pela CLT, mas, ao contrário, é formalmente tratado como empresa, um pejotizado em fraude à lei e sem direitos trabalhistas.

Quando há dependência, não existe autonomia real, apenas a retirada de direitos. Se essa distorção não for enfrentada, qualquer avanço legislativo tende a se tornar parcial, beneficiando apenas quem já está formalmente protegido. O debate sobre a escala 6×1 precisa caminhar junto com a correção dessas fraudes, sob pena de se tornar uma solução incompleta. Há uma enorme parcela de pejotizados, precarizados, com jornada 7×1 e mais de 12h de trabalho por dia – e sem acesso aos direitos trabalhistas.

A redução da jornada para 5×2 não é uma ruptura, mas uma continuidade histórica. Em outros momentos, limitar a jornada para oito horas também foi visto como inviável. Hoje, essa limitação é um direito consolidado.

O que está em discussão agora é a necessidade de adequar o trabalho à realidade atual, em que o avanço tecnológico permite produzir mais com menos tempo. Ignorar isso significa manter um modelo que já demonstra sinais claros de esgotamento.

  • Publicado: 22/05/2026 22:28
  • Alterado: 22/05/2026 22:28
  • Autor: Erazê Sutti
  • Fonte: Erazê Sutti