Entre Deus, o Datafolha e o desalento de Tarcísio
O moderado que virou mártir antes de conseguir o primeiro milagre político
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 21/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Abertura
Tão logo o Datafolha divulgou a popularidade de seu futuro adversário, Tarcísio de Freitas acordou com a sensação de que o futuro chegou antes da fé. O governador de São Paulo, apontado como sucessor natural do bolsonarismo civilizado, passou a enxergar Lula como invencível e o próprio espelho como inimigo. Reza para 2026 não virar uma missa fúnebre da direita — mas já prepara o terço. O homem que se vendia como técnico e racional descobriu que o Brasil não elege engenheiros; e sim santos, mártires ou palhaços bem treinados.
A conversão segundo o Datafolha
Era tudo tão belo no passado, o antes “moderado” gozava da prerrogativa como decidir calmamente as possibilidades para seu futuro vice na chapa a definir, porem não durou muito tempo. O vento virou com as pesquisas do Datafolha, que além escancarar o cenário próximo de 26, serviram para tortura o governador como se fossem parábolas de um novo evangelho político. Seu calvário mora nos números que de acordo com os amuletos e cruzes do Datafolha, indicam Lula subindo, enquanto Bolsonaro apodrece.
Assim, Tarcísio balança mais que pesqueiro sem pegada virando sushiman, que persiste tentando salvar a alma do eleitor moderado que nunca aparece na urna. Ele culpa o governo, a imprensa, o alinhamento das estrelas — qualquer coisa, menos o próprio radicalismo de conveniência. Depois do 7 de Setembro, quando chamou Alexandre de Moraes de ditador, percebeu que tinha cruzado o Rubicão do bom senso.
Quase como trombetas os números do Datafolha ecoaram como sermões modernos — cheios de fé, mas sem salvação. Entre um desabafo e outro, confidencia a aliados que Lula já tem a reeleição “na mão”. É o tipo de frase que um político só diz quando percebe que a esperança virou planilha. Enquanto isso, o Planalto observa com ironia o novo profeta da autocomiseração: aquele que quis se manter limpo, mas tropeçou no óleo santo do bolsonarismo. Tarcísio tenta lavar as mãos — mas Pilatos, em Brasília, sempre acaba molhando a gravata.
Para Rodrigo Maia, que virou oráculo de banqueiros, o governador “foi contaminado pela agenda maluca do bolsonarismo”. Os salões da Faria Lima, após o Datafolha da semana, soaram como uma missa de descrentes e mais, a frase ecoou pelos salões do limers como diagnóstico de uma epidemia moral. Os empresários, antes encantados com o estilo tecnocrático, agora tratam Tarcísio como o primo que trocou o MBA por um grupo de oração de WhatsApp. No jantar seguinte, ninguém mais quis abrir o vinho: temiam que viesse ungido com cloroquina.
Tudo desandou por conta das tais pesquisas do Datafolha, que empurraram Maia a afirmar que Lula virou tão populista “como Dilma em 2014”, e Tarcísio, sem perceber, ajudou a ressuscitar o messianismo que fingia combater. Enquanto o petista investe no discurso dos pobres contra os ricos, o governador parece perdido entre o púlpito e o planalto. Nesta cruz(ada) entre espada e o altíssimo, que Deus salve o Datafolha — e os que ainda creem nas margens de erro, assim chega sua via-crúcis e o eleitorado, uma procissão que não segue mais santos de concreto armado.
A missa dos arrependidos
Mesmo o Datafolha demonstra que arrependimento não é exclusividade do eleitor de São Paulo, mas um sentimento que chega pra azedar o chope geladinho. Agora o governador começou a ser visto como o “moderado que exagerou”. Gilberto Kassab, sempre com o instinto de sobrevivência ligado, elogia o chefe em público e cochicha em privado que 2030 pode ser um ano melhor — sem Bolsonaro, sem fanatismo, sem essa ressaca institucional. A elite paulista, que sonhava com uma direita gourmet, agora serve o prato frio da decepção.
Durante um jantar em homenagem a Kassab, um empresário da área médica resumiu o clima: “Tarcísio era o remédio, virou efeito colateral”. Houve risos, mas não de alívio. A direita paulista perdeu o paladar, e o governador perdeu o cardápio. O bolsonarismo radical o rejeita por cálculo; o centrismo o tolera por pena. É como se o engenheiro tivesse errado a medida do concreto — e o prédio desabasse antes da inauguração.
No mesmo encontro, Kassab, pragmático como um contador de milagres, falou em Ratinho Jr. como alternativa “mais estável”. Tarcísio virou o fantasma de um projeto que envelheceu rápido: o bolsonarismo com moderação, a fé sem fanatismo, o discurso duro com verniz técnico. A fórmula soava sofisticada no PowerPoint, entretanto, na urna, parece catequese de Excel.
Os comensais, entre goles e cochichos, mencionaram até Boulos como herdeiro legítimo da retórica lulista. “Ao menos ele acredita no que fala”, ironizou um advogado. Entre risadas discretas, a elite liberal percebeu que sua direita ideal mora num grupo de WhatsApp desativado. O governador, ao ouvir os relatos, deve ter sentido o peso de um arrependimento sem confissão. Nem o Datafolha perdoa quem tenta ser moderado num país que prefere santos e demônios.

O altar da contradição
Enquanto o Datafolha exibe a montanha-russa da opinião pública, Tarcísio tenta parecer estável dentro do próprio terremoto político., é assim o dilema vivido por Tarcísio, quase teológico. Para vencer Lula, precisa do eleitor de Bolsonaro; para governar São Paulo, precisa fingir que não conhece Bolsonaro. É o que em Brasília chamam de “contradição estratégica” — e em qualquer outro lugar, de falta de coluna vertebral. O governador se equilibra entre o púlpito e o palanque, abençoado por um centrão que já prepara o próximo sacrifício.
Rodrigo Maia, com o cinismo de quem já perdeu todas as ilusões e uma reeleição, diz que o Congresso “perdeu a coerência”. Ele não explicou quando é que teve. Falou em responsabilidade fiscal e citou Fernando Henrique como se acendesse vela pra um santo aposentado. A plateia aplaudiu por educação, e por medo de parecer herege diante do capital.
O próprio Tarcísio sabe que seu maior pecado é acreditar na pureza da engenharia num país governado pela dramaturgia. Tentou ser técnico em meio a padres, generais e influencers. Descobriu que, no Brasil, moderação não dá voto — dá bocejo. E bocejar, em política, é mais perigoso que discordar.
Enquanto Bolsonaro enfrenta sentenças e Trump flerta com Lula, o governador paulista observa o altar desmoronar. A direita virou uma paróquia sem pároco, e o centrismo, um coral que desafina em todas as oitavas. O bolsonarismo ainda reza por intervenção, o PSDB por relevância, e Tarcísio por misericórdia.
Entre o arrependimento e o cálculo
A cada pesquisa ruim, Tarcísio dá uma entrevista moderada. A cada jantar com empresários, promete equilíbrio. Mas o 7 de Setembro, ergueu a voz — e o radicalismo veio cobrar os royalties. Agora, tenta apagar o fogo com água benta. O problema é que Brasília não perdoa quem muda de tom: prefere fanáticos a convertidos.
Nos bastidores, aliados dizem que ele cogita não disputar a Presidência em 2026, mas isso soa mais como ensaio de recato do que convicção. Lula, experiente, já lê o script: “todo político que diz não querer concorrer está apenas ensaiando o discurso de aceitação do chamado divino”. O petista, afinal, conhece de vocação tanto quanto de sobrevivência.
A elite paulista, fiel ao hábito de eleger decepções, agora busca outro messias de terno. Kassab acena com Ratinho Jr. — Maia sonha com Leite, e todos fingem acreditar num centro que não existe fora dos coquetéis. O Brasil, no fundo, sempre preferiu extremos: um grita, o outro governa; o resto comenta.
Enquanto isso, o eleitor médio continua confuso, tentando entender se Tarcísio ainda é engenheiro, pastor ou apenas mais um convertido ao evangelho da conveniência. Brasília o observa como quem assiste a um milagre ao contrário: o santo que perdeu a fé antes da canonização.
Epílogo: o deserto dos moderados
Com uma foice da morte, o Datafolha mais recente selou o deserto dos moderados: ninguém morre de sede por falta de água — e sim de aplauso. Por fim, novamente a benção do senhor merece a repetição do mantra em que o leitor clama novamente: Deus salve o Datafolha — e quem ainda acredita na margem de erro como sinal de esperança, pena.
Em política, ninguém morre de sede por falta de água — e sim de aplauso. Tarcísio sente a secura do palco vazio. O bolsonarismo o considera traidor; o centrismo, um ex-funcionário da fé. Lula, confortável, assiste do alto do Planalto: sabe que o inimigo dividido já perdeu metade da guerra.
A cena lembra uma parábola contada por Veríssimo e escrita por Jabor: o homem que quis salvar o país com cálculo estrutural e descobriu que o alicerce era emocional. No Brasil, quem constrói pontes demais acaba sem margem. Quando o próximo Datafolha sair, talvez reste apenas a fé estatística — e o milagre dos 40 %.
Talvez Tarcísio ainda tenha tempo de reaprender a fingir moderação. Mas Brasília não é lugar pra redenção: é pra reincidência. O milagre da política não é ressuscitar reputações — é reaproveitá-las. E, no altar da conveniência, todo arrependido cabe.
Enquanto o governador ora por 2026, o país segue sua missa laica: a liturgia do desencanto. E mais uma vez, entre o amém e o sarcasmo, ecoa o coro: Deus salve o Datafolha — e quem ainda confunde margem de erro com margem de fé. E assim no Brasil, onde até os milagres precisam de planilha, os santo são humanos, a urna é divina, e o resto: não passa de estatística travestida de esperança.