Endividamento das famílias em SP atinge maior nível em quase 4 anos
Pesquisa da FecomercioSP mostra que 74,1% dos lares paulistanos têm dívidas, enquanto inadimplência e comprometimento da renda registram queda em junho
- Publicado: 16/07/2026 09:30
- Alterado: 16/07/2026 09:30
- Autor: Suzana Rezende
- Fonte: Fecomercio
O endividamento das famílias da cidade de São Paulo permaneceu em patamar elevado em junho e alcançou o maior nível dos últimos quatro anos, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), divulgada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). Apesar do cenário de alto uso do crédito, os indicadores de inadimplência e comprometimento da renda apresentaram melhora no período.
De acordo com o levantamento, 74,1% das famílias paulistanas estavam endividadas em junho, percentual praticamente estável em relação aos 74,2% registrados em maio, mas superior aos 71,4% observados no mesmo mês de 2025. Em números absolutos, cerca de 3,33 milhões de lares possuem algum tipo de dívida.
Inadimplência recua mesmo com crédito elevado
Embora o nível de endividamento continue elevado, a pesquisa aponta uma redução da inadimplência. O percentual de famílias com contas em atraso caiu de 21,1% para 20,7% entre maio e junho. O índice também ficou abaixo do registrado em junho do ano passado, quando atingia 21,6%.
Na avaliação da FecomercioSP, o resultado indica que, mesmo diante da inflação dos alimentos e da manutenção dos juros em níveis elevados, as famílias conseguiram manter maior controle sobre suas finanças.
Entre as famílias com renda de até dez salários mínimos, a inadimplência passou de 25,5% para 25,1%. Já entre aquelas com renda superior a dez salários mínimos, o índice caiu de 10% para 9,8%.
O endividamento, por sua vez, permaneceu praticamente estável nas duas faixas de renda. Entre os lares de menor renda, o percentual variou de 77,5% para 77,4%, enquanto nas famílias com renda mais elevada passou de 64,6% para 64,5%. Em ambos os casos, os índices seguem acima dos registrados em junho de 2025.
Cartão de crédito lidera entre as modalidades de dívida
O cartão de crédito continua sendo a principal modalidade de endividamento dos consumidores paulistanos. Segundo a pesquisa, 79,8% das famílias endividadas possuem débitos nessa modalidade, percentual praticamente igual ao de maio.
Outro destaque foi o financiamento imobiliário, que atingiu 17,6%, o maior percentual desde o início da série histórica da pesquisa. Segundo a FecomercioSP, esse desempenho está relacionado ao mercado de trabalho aquecido e às características desse tipo de financiamento, cujas taxas nem sempre acompanham diretamente as variações da taxa Selic.
Também houve avanço no uso do crédito consignado, que passou de 5,8% para 6,2%, enquanto o crédito pessoal voltou a crescer e alcançou 12,4%.
Para a entidade, esses movimentos indicam que parte dos consumidores busca modalidades de crédito com custos menores e prazos mais longos para enfrentar o aumento das despesas, especialmente com alimentos.
Tempo de atraso e comprometimento da renda diminuem
A pesquisa também registrou melhora nos indicadores relacionados ao pagamento das dívidas.
Pela primeira vez em 2026, o tempo médio de atraso caiu, passando de 66,7 dias para 66,1 dias. Também diminuiu o percentual de famílias com contas atrasadas há mais de 90 dias, que recuou de 54,1% para 53%.
Outro indicador positivo foi a redução da parcela da renda comprometida com o pagamento de dívidas. Em junho, esse percentual ficou em 26%, mantendo a trajetória de queda iniciada em janeiro, quando atingia 27,5%.
Já o tempo médio de comprometimento da renda permaneceu estável em 6,8 meses, abaixo dos 7,4 meses registrados no mesmo período do ano passado.
Além disso, caiu de 8,9% para 8,5% o percentual de famílias que afirmam não ter condições de quitar suas dívidas.
Intenção de contratar crédito também recua
O levantamento mostra ainda uma redução no interesse dos consumidores em contratar novos financiamentos ou empréstimos.
A intenção de recorrer ao crédito nos próximos três meses passou de 11,2% para 10,8%, movimento considerado esperado para um período sem grandes datas comemorativas que costumam estimular o consumo.
Entre aqueles que pretendem buscar crédito, 81,5% afirmaram que utilizarão os recursos para compras e consumo.
Segundo a FecomercioSP, os resultados indicam que o crédito continua sendo utilizado pelas famílias como forma de equilibrar o orçamento diante da inflação, mas sem provocar, até o momento, uma deterioração mais intensa da capacidade de pagamento.
Como é feita a pesquisa
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) é realizada mensalmente pela FecomercioSP desde 2004. O levantamento entrevista aproximadamente 2,2 mil consumidores da cidade de São Paulo e acompanha indicadores como nível de endividamento, inadimplência, modalidades de crédito, comprometimento da renda e capacidade de pagamento das famílias. A série atual é comparável a partir de 2010, quando a metodologia foi adaptada para integrar a pesquisa nacional da Confederação Nacional do Comércio (CNC).