Empresas brasileiras adotam férias coletivas após tarifaço de Trump
A falta de reversão das taxas ou abertura de novos mercados levou os representantes dos setores madeireiro, calçadista e de armamento a solicitar apoio do governo federal para evitar demissões em massa.
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 22/08/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
As indústrias madeireira, calçadista e de armamentos no Brasil estão passando por dificuldades significativas devido às tarifas elevadas impostas pelos Estados Unidos. Como resposta imediata a essa situação crítica, diversas empresas têm implementado férias coletivas para gerenciar custos operacionais. A falta de uma reversão das taxas ou a abertura de novos mercados levou os representantes desses setores a solicitar apoio do governo federal para evitar demissões em massa.
O setor madeireiro, por exemplo, se encontra em uma situação complicada, com estoques acumulados e vendas para os EUA paralisadas. A Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente (Abimci), que representa fabricantes de produtos como compensados e pisos, relatou que muitos contratos com o mercado norte-americano foram suspensos ou rescindidos. Em consequência disso, algumas empresas enfrentam escassez de espaço para armazenar mercadorias que estavam destinadas ao exterior.
A Millpar, uma das principais indústrias do segmento, adotou inicialmente férias coletivas em sua unidade localizada em Quedas do Iguaçu (PR). Contudo, diante da continuidade da crise, decidiu encerrar as atividades dessa unidade e redirecionar a produção para Guarapuava (PR). “Tomamos decisões extremamente difíceis, mas necessárias para garantir a sustentabilidade do negócio e preservar um número considerável de postos de trabalho”, declarou Ettore Giacomet Basile, presidente da empresa.
De acordo com Paulo Pupo, superintendente da Abimci, as demissões ainda são limitadas. Muitas empresas continuam a aplicar férias coletivas como medida de contenção. O setor estima ter um prazo adicional de uma a duas semanas antes que medidas mais drásticas sejam necessárias.
Os desafios não se restringem à indústria madeireira. O setor calçadista também adotou férias coletivas para seus trabalhadores. A Polimetal, uma fornecedora de peças para a Taurus, colocou 33 dos 50 funcionários em férias coletivas em São Leopoldo (RS). Em comunicado oficial, a Taurus informou que essa ação faz parte de uma estratégia para transferir parte da produção para os EUA visando minimizar os impactos das tarifas sobre as armas brasileiras.
A adoção de férias coletivas é considerada uma medida inicial que ajuda a aliviar os altos custos de produção sem vendas imediatas. Essa abordagem oferece tempo para que as empresas reavaliem suas estratégias a longo prazo e reduz os custos associados a rescisões trabalhistas, já que as férias não precisam ser pagas em dinheiro no caso de demissões.
Contudo, representantes dos setores alertam que a próxima etapa pode envolver demissões caso não haja mudanças nas tarifas ou abertura de novos mercados. Os empresários também sugerem alternativas como o uso do banco de horas e acordos diretos com sindicatos antes de considerar cortes efetivos no quadro funcional. A legislação trabalhista atual não abrange situações extraordinárias como pandemias ou tarifas internacionais.
Além disso, programas de demissão voluntária (PDV) estão sendo considerados como uma solução menos problemática do ponto de vista legal. Ao aderir ao PDV, o funcionário renuncia ao direito de entrar com ações judiciais futuras contra a empresa.
Os setores afetados buscam apoio governamental para manter os empregos. Embora tenham elogiado o plano apresentado pelo governo na semana passada, pedem medidas mais concretas semelhantes às implementadas durante a pandemia do coronavírus em 2020.
A recente medida provisória do governo Luiz Inácio Lula da Silva destina R$ 30 bilhões em crédito aos exportadores prejudicados pelas tarifas americanas, condicionando esse suporte ao compromisso das empresas em não demitir funcionários. Também foram prometidos benefícios tributários; no entanto, muitos detalhes sobre a implementação dessas medidas ainda precisam ser definidos.
Giovanni Cesar, advogado e professor de direito do trabalho, enfatiza que o papel do poder público é crucial na preservação dos empregos. Durante a pandemia anterior, muitos trabalhadores receberam assistência financeira do governo enquanto estavam afastados.
A Abicalçados apresentou propostas ao governo federal com sugestões como redução temporária da jornada e salário proporcionais e suspensão contratual por até 90 dias. O presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, reafirmou o comprometimento do setor em trabalhar pela criação de medidas protetivas similares às anteriores para mitigar os efeitos das tarifas até que a situação seja resolvida.