O que sua empresa mede na era da inteligência artificial?

Segundo artigo da série especial do caderno Estratégia Sem Filtro analisa por que indicadores de adoção podem esconder o impacto real da IA

Crédito: (Imagem/Magnific)

No primeiro artigo desta série, discutimos um dos fatores menos lembrados quando organizações investem em inteligência artificial: a cultura. Afinal, nenhuma tecnologia produz transformação consistente quando encontra um ambiente que resiste silenciosamente à mudança. Mas, supondo que essa primeira barreira tenha sido superada, surge uma questão igualmente estratégica. Como saber se a inteligência artificial está, de fato, gerando valor para o negócio?

A resposta parece simples, mas raramente é. Em muitas organizações, a dificuldade não está na falta de informações, e sim no excesso delas. Empresas acompanham dezenas de indicadores relacionados à adoção da tecnologia, apresentam dashboards sofisticados aos Conselhos e demonstram evolução em praticamente todos os gráficos. Ainda assim, poucas conseguem responder, com segurança, se todo esse movimento realmente melhorou a qualidade das decisões, reduziu riscos ou fortaleceu a capacidade competitiva da organização.

Números que parecem sucesso e não significam resultado

Imagine a seguinte situação. Um Conselho de Administração recebe, trimestre após trimestre, relatórios mostrando o avanço da inteligência artificial dentro da empresa. O número de licenças ativas cresce, o percentual de colaboradores treinados aumenta e a quantidade de projetos-piloto continua se multiplicando. À primeira vista, tudo indica que a organização está avançando exatamente como planejado. No entanto, basta fazer uma pergunta simples para que o entusiasmo dê lugar ao silêncio: essa tecnologia está produzindo valor real para o negócio?

Esse descompasso entre métricas de atividade e métricas de resultado tornou-se um dos sinais mais evidentes de organizações que aceleraram sua adoção de inteligência artificial sem revisar aquilo que realmente deveria ser acompanhado. A empresa passa a medir o esforço empregado na implementação da tecnologia, mas deixa de medir o impacto que ela efetivamente produz sobre decisões, processos e resultados.

A armadilha das métricas de vaidade

Governança Corporativa - Equipe - Empresas - Inteligência Artificial
(Imagem/Magnific)

Toda transformação tecnológica precisa de indicadores. O problema começa quando aquilo que é mais fácil de medir passa a ocupar o espaço daquilo que realmente importa.

Número de licenças contratadas mede investimento, não retorno. Percentual de colaboradores treinados mede exposição ao tema, não competência. Quantidade de projetos-piloto ativos mede movimento, mas não necessariamente direção. São métricas legítimas durante as fases iniciais de adoção, quando o objetivo principal ainda é construir familiaridade com a tecnologia. O risco aparece quando esses indicadores continuam ocupando o centro das discussões executivas mesmo depois que a organização deveria estar avaliando geração de valor.

Nesse momento, a empresa passa a comemorar atividade como se ela fosse sinônimo de transformação. Os relatórios melhoram, os dashboards ficam mais sofisticados, mas a pergunta essencial permanece sem resposta: o negócio realmente ficou melhor por causa da inteligência artificial?

Três perguntas que valem mais do que dezenas de dashboards

Organizações que conseguem avaliar, com honestidade, o impacto da inteligência artificial costumam construir sua análise a partir de perguntas muito mais estratégicas do que da simples quantidade de ferramentas utilizadas.

A primeira delas é direta: essa aplicação de IA reduziu o tempo entre identificar um problema e decidir o que fazer a respeito dele? Em ambientes complexos, velocidade de decisão costuma revelar muito mais sobre maturidade organizacional do que qualquer indicador de utilização de software.

A segunda pergunta desloca o olhar da quantidade para a qualidade: essa aplicação melhorou as decisões tomadas ou apenas aumentou o volume de informações disponíveis? Mais dados não significam, necessariamente, melhores escolhas. Em muitos casos, representam apenas mais ruído sendo interpretado por pessoas que ainda não desenvolveram critérios suficientes para separar o que realmente importa do que apenas ocupa espaço.

A terceira pergunta costuma aparecer com menos frequência nos relatórios corporativos, embora talvez seja a mais relevante de todas: essa aplicação reduziu algum risco importante para o negócio? Seja operacional, regulatório, reputacional ou financeiro, reduzir risco representa uma das maiores contribuições que a inteligência artificial pode oferecer às organizações e, paradoxalmente, continua sendo um dos aspectos menos medidos.

Empresas capazes de responder a essas três perguntas com evidências concretas estão, de fato, avaliando geração de valor. Já aquelas que conseguem apresentar apenas números de utilização continuam documentando atividade, sem necessariamente demonstrar transformação.

Nem toda inteligência artificial produz valor da mesma forma

Outro equívoco frequente está na tentativa de avaliar iniciativas completamente diferentes utilizando exatamente o mesmo conjunto de indicadores. Essa simplificação parece conveniente, mas costuma produzir interpretações equivocadas sobre o desempenho dos projetos.

Um sistema de inteligência artificial voltado para automação do atendimento ao cliente produz valor de maneira completamente diferente de uma solução desenvolvida para apoiar decisões de investimento, gestão de riscos ou planejamento estratégico. Esperar que ambos apresentem os mesmos indicadores significa ignorar a natureza distinta dos resultados que cada iniciativa busca alcançar.

Iniciativas voltadas para eficiência operacional podem, naturalmente, ser avaliadas por indicadores como redução de custos, ganho de produtividade, tempo de execução ou aumento da capacidade de atendimento. Já projetos que apoiam decisões estratégicas exigem outro tipo de avaliação. Seu valor costuma estar associado à qualidade dos julgamentos, à capacidade de antecipar cenários, à redução de incertezas e ao fortalecimento da tomada de decisão em ambientes complexos.

Quando essas duas categorias passam a ser avaliadas pela mesma régua, decisões importantes acabam sendo distorcidas. Projetos estratégicos podem ser interrompidos por não apresentarem retorno imediato, enquanto iniciativas que geram economias pontuais permanecem sendo tratadas como grandes casos de sucesso, embora pouco contribuam para transformar o negócio no longo prazo.

Medir também é uma decisão de governança

Governança Corporativa - Equipe - Empresas - Inteligência Artificial
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Definir o que será acompanhado nunca foi uma tarefa exclusivamente técnica. Trata-se, acima de tudo, de uma decisão de governança. Afinal, toda métrica comunica uma prioridade e direciona o comportamento das pessoas dentro da organização.

É justamente nesse ponto que muitas empresas criam uma lacuna sem perceber. A definição dos indicadores acaba ficando concentrada nas áreas responsáveis pela implementação da tecnologia, que naturalmente tendem a reportar aquilo que conseguem medir com maior facilidade. Não há nada de errado nisso. O problema surge quando facilidade de mensuração passa a ocupar o lugar da relevância estratégica.

Cabe à liderança executiva, com apoio do Conselho de Administração, estabelecer desde o início qual valor a organização espera capturar com cada iniciativa de inteligência artificial. Essa definição deveria anteceder qualquer contratação de tecnologia, qualquer projeto-piloto e qualquer plano de implementação. Sem essa clareza, os indicadores deixam de orientar decisões e passam apenas a justificar, retrospectivamente, investimentos que já foram realizados.

O desafio não é medir mais, mas medir melhor

A maturidade na adoção da inteligência artificial não será definida pela quantidade de ferramentas contratadas nem pelo número de usuários ativos. Esses indicadores continuarão existindo e cumprem um papel importante na gestão operacional, mas dificilmente explicarão se a organização se tornou mais inteligente, mais preparada ou mais competitiva.

Empresas que conseguirem desenvolver métricas conectadas ao valor efetivamente gerado terão uma vantagem silenciosa sobre aquelas que permanecem impressionadas pelos próprios números de adoção. Aos poucos, a pergunta deixará de ser quanto a organização utiliza inteligência artificial e passará a ser muito mais estratégica: quanto essa inteligência está ajudando a produzir decisões melhores, reduzir riscos e gerar resultados sustentáveis?

Essa mudança de perspectiva, no entanto, conduz a uma questão ainda mais complexa. Afinal, alguém precisa interpretar esses indicadores, desafiar conclusões precipitadas e garantir que as decisões tomadas a partir deles estejam alinhadas aos interesses da organização. Não basta medir corretamente se não existe quem tenha autoridade, conhecimento e visão estratégica para transformar informação em ação.

É exatamente nesse ponto que muitos Conselhos de Administração descobrem uma lacuna que ainda preferem não admitir publicamente. E é sobre ela que trataremos no próximo e último artigo desta série, dedicado ao papel da alta liderança e da governança na construção de organizações realmente preparadas para a era da inteligência artificial.

Leandro Roberto de Oliveira

Leandro Roberto de Oliveira
(Divulgação)

Leandro Roberto é especialista em gestão estratégica de projetos, portfólio e riscos, com mais de 25 anos de experiência em consultoria, auditoria e transformação organizacional, incluindo atuação em empresas como Allianz, KPMG e Ernst & Young. Reconhecido por sua expertise em PMO, governança corporativa e metodologias ágeis, destaca-se na conexão entre estratégia e execução, priorização de portfólio e gestão de riscos baseada em padrões internacionais. É graduado em Administração de Empresas e possui MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC/SP.

  • Publicado: 16/07/2026 15:13
  • Alterado: 16/07/2026 15:13
  • Autor: Leandro Roberto de Oliveira
  • Fonte: ABCdoABC

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