Contraponto: Recorde de Emigração de Profissionais Qualificados do Brasil para os EUA
Cresce em 2024 a migração de brasileiros qualificados para os EUA; Nada muda em 2025
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 05/06/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
O ano de 2024 testemunhou um aumento sem precedentes na emigração de brasileiros altamente qualificados para os Estados Unidos, mesmo em meio a um panorama de deportações elevadas. Nos primeiros oito meses do ano, foram emitidos 2.142 vistos EB-1 e EB-2, categorias que visam profissionais com habilidades extraordinárias ou grau acadêmico avançado. Este número representa um crescimento significativo de 58% em comparação ao mesmo período do ano anterior, conforme dados do Departamento de Estado dos EUA analisados pelo escritório de advocacia AG Immigration.
Esse total já supera a soma das emissões entre 2018 e 2021, bem como o total do ano de 2022. Especialistas em imigração projetam que até o final de 2024, as emissões podem ultrapassar também os números registrados em 2023, embora os dados finais ainda não tenham sido divulgados.
Qualificados Permanecem de Portas Abertas
Em contrapartida, os primeiros meses de 2025 foram marcados por um aumento nas deportações de imigrantes irregulares, especialmente da América Latina, como parte da política rigorosa implementada pelo novo presidente Donald Trump. Apesar dessa realidade, as regras para emissão de vistos para trabalhadores qualificados permanecem inalteradas até o momento.
Fuga de Cérebros
A situação no Brasil se agrava à medida que a emigração de profissionais qualificados intensifica a preocupação com a “fuga de cérebros”. Os vistos EB-1 e EB-2 são ferramentas essenciais utilizadas pelos EUA para atrair especialistas em diversas áreas, incluindo tecnologia, saúde e engenharia. Essas categorias permitem que os imigrantes consigam o green card — o cartão de residência permanente nos Estados Unidos — sem a necessidade de uma oferta de emprego formal.
Leda Oliveira, CEO da AG Immigration, comenta sobre o apelo que os EUA exercem sobre muitos brasileiros: “A proposta é clara: residir em um país desenvolvido com melhores condições de segurança e educação para suas famílias, além de valorização profissional”.
Luiz Gabriel Vasconcelos é um exemplo desse movimento. Engenheiro da computação com especialização em processamento de sinais, ele viu sua carreira prosperar após ser transferido temporariamente para o Vale do Silício em 2019. Motivado por novas oportunidades e crescimento profissional, decidiu solicitar o visto EB-2 NIW e obteve seu green card em junho do ano passado. Atualmente trabalha na Walt Disney Company em Los Angeles.
Embora a possibilidade de obter um visto EB-1 ou EB-2 seja atraente, o processo é desafiador e financeiramente exigente. Segundo Leda Oliveira, os brasileiros podem esperar entre seis meses e dois anos e meio pela aprovação do visto, com custos totais aproximados de US$ 30 mil (cerca de R$ 183 mil), incluindo taxas e assistência jurídica.
Larissa Salvador, CEO do escritório Salvador Law, observa um aumento significativo na demanda por esses vistos nos últimos anos, mas expressa preocupação com informações errôneas que podem levar a expectativas inadequadas sobre a elegibilidade.
No cenário atual dos EUA, enquanto mais profissionais brasileiros são contratados para posições especializadas e bem remuneradas, o programa de deportações se intensificou. No ano fiscal de 2024, os EUA deportaram 271 mil imigrantes irregulares — o maior número desde 2014 — sendo que 1.648 desses deportados eram brasileiros.
A pesquisa revela que cerca de 11 milhões de imigrantes vivem nos EUA sem documentação regular, com aproximadamente 230 mil brasileiros nessa situação.
Com a nova administração Trump focando no endurecimento das políticas anti-imigração, as mudanças nas regras relacionadas à imigração legal requerem aprovação do Congresso antes que possam ser implementadas. Especialistas acreditam que a atual escassez de mão-de-obra nos EUA (com 7 milhões de vagas abertas) deve garantir a continuidade da emissão dos vistos para profissionais qualificados.
No entanto, Margaret Peters, professora da UCLA, alerta sobre possíveis atrasos processuais devido à redução da força laboral nas embaixadas americanas e no Departamento de Segurança Nacional. Apesar disso, ainda há um otimismo moderado quanto ao impacto positivo da imigração legal.
A “fuga de cérebros” brasileira não é novidade; no entanto, os números recentes são alarmantes. Em 2023, os EUA emitiram um recorde histórico de 28.050 green cards para brasileiros através dos vistos EB-1 e EB-2. Entre esses novos residentes estão empresários e pesquisadores buscando melhores condições para desenvolver suas carreiras.
Cauê, empresário com mais de duas décadas na área da bioinformática e Inteligência Artificial (IA), também se mudou para Miami buscando estabelecer sua empresa no ambiente inovador dos EUA. Ele destaca que a proximidade com instituições renomadas aumentou suas oportunidades profissionais.
A migração não se restringe aos empresários; cientistas também buscam melhores condições para pesquisa. O CGEE estima que entre 2015 e 2022 o Brasil perdeu aproximadamente 6.700 cientistas para o exterior. Recentemente foram observados cortes significativos nos investimentos em pesquisa no Brasil; este cenário afugenta talentos para países como os EUA onde as oportunidades são mais abundantes.
A perspectiva é clara: os altos investimentos em pesquisa e desenvolvimento nos Estados Unidos contrastam fortemente com os limitados recursos disponíveis no Brasil. Enquanto o Brasil investe cerca de 1,2% do PIB na pesquisa científica, os EUA destinaram cerca de 3,5% em 2022.
A demanda por imigração também foi exacerbada pelos efeitos duradouros da pandemia da COVID-19 que impediu muitas pessoas de viajar ou imigrar temporariamente.
Os fatores pessoais como segurança e qualidade de vida continuam sendo determinantes na decisão dos brasileiros em buscar novas oportunidades nos Estados Unidos. Tiago Silva*, personal trainer e atleta reconhecido mundialmente no kettlebell sport, exemplifica essa busca por uma vida melhor ao se mudar para Nova York após conseguir seu visto EB-1.
Por outro lado, especialistas alertam sobre as consequências da perda desses talentos no Brasil; a queda na produção científica e as dificuldades enfrentadas por aqueles que permanecem no país podem impactar negativamente no futuro da ciência brasileira.
Embora muitos optem por permanecer nos EUA permanentemente devido às oportunidades únicas oferecidas lá, a interação entre profissionais que retornam ao Brasil após experiências internacionais pode trazer benefícios significativos ao país.