Elo entre AVC e Alzheimer exige prevenção e diagnóstico
Neurologista explica por que o AVC aumenta o risco de demência e destaca a importância do cuidado integrado
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 26/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Multiplan MorumbiShopping
O Acidente Vascular Cerebral (AVC) e a Doença de Alzheimer (DA) são frequentemente vistos como males distintos. No entanto, a neurociência moderna tem iluminado um elo de conexão perigoso entre as duas condições, consolidando-as como os maiores desafios neurológicos impostos pelo envelhecimento populacional. A compreensão dessa relação é crucial para aprimorar as estratégias de prevenção e diagnóstico precoce, oferecendo uma melhor qualidade de vida para milhões de pessoas.
O AVC, popularmente conhecido como derrame, não é apenas um evento agudo que causa sequelas motoras; ele é um fator de risco significativo para o desenvolvimento de demência. Segundo estudos na área, pacientes que sofreram um AVC têm um risco de demência até 5,5 vezes maior em comparação com a população geral. Esse quadro tende a se manifestar em até cinco anos após o evento vascular, com uma prevalência de demência que pode atingir entre 6% e 32% dos sobreviventes.
A explicação reside no impacto direto do AVC no cérebro. O dano vascular compromete a circulação cerebral e, por consequência, a chamada reserva cognitiva—a capacidade do cérebro de resistir a danos sem manifestar declínio funcional. Além disso, o AVC desencadeia processos biológicos semelhantes aos observados no Alzheimer, incluindo a neuroinflamação e o acúmulo de proteínas como beta-amiloide e tau nas áreas lesionadas.
“O AVC compromete a circulação cerebral e reduz a reserva cognitiva. Quando associado a fatores de risco como hipertensão, diabetes e colesterol elevado, o cérebro fica mais vulnerável a desenvolver quadros de demência, incluindo o Alzheimer. É um elo claro entre doenças vasculares e neurodegenerativas”, explica o neurologista clínico da BP (Beneficência Portuguesa de São Paulo), Alex Machado Baeta.
O Alzheimer, por sua vez, é a principal causa de demência no mundo, sendo muitas vezes classificado como a “doença do século” devido ao seu crescente impacto em sociedades que envelhecem. Sua ausência de cura efetiva e a prevalência ascendente impõem um custo socioeconômico massivo, além de uma exaustiva sobrecarga emocional e física sobre familiares e cuidadores.
Urgência da prevenção vascular

Diante da conexão entre as duas doenças, a estratégia de combate deve ser dupla: atuar na prevenção do AVC e retardar a progressão da perda cognitiva. O caminho mais eficiente começa no controle rigoroso dos fatores de risco vasculares.
- Controle metabólico: Manter a pressão arterial, os níveis de diabetes e o colesterol sob controle é fundamental. A hipertensão é, isoladamente, um dos maiores inimigos da saúde cerebral.
- Hábitos de vida saudáveis: Adoção de uma dieta equilibrada, a prática regular de atividade física e o abandono do tabagismo são medidas que protegem tanto o sistema cardiovascular quanto o neurológico.
Após um AVC, a reabilitação cognitiva precoce se torna uma peça-chave. O objetivo é estimular a plasticidade cerebral, ajudando o cérebro a criar novas conexões e a compensar as áreas danificadas, o que comprovadamente reduz o risco de deterioração cognitiva subsequente.
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Cuidado integrado como modelo
Quando o AVC e o Alzheimer ocorrem juntos (demência mista), o declínio cognitivo tende a ser mais acelerado e intenso, exigindo uma abordagem de cuidado integrado e multidisciplinar. Este modelo envolve o trabalho conjunto de neurologistas, geriatras, profissionais de reabilitação e neuropsicólogos, além de um suporte robusto às famílias. O foco é duplo:
- Reduzir a recorrência de novos AVCs através do acompanhamento cardiovascular.
- Preservar a autonomia e a qualidade de vida do paciente por meio de programas adaptados de reabilitação física e cognitiva.
O diagnóstico de demência, seja ela pura ou mista, deve ser acessível e eficaz. Começa com uma avaliação clínica detalhada de alterações na memória, linguagem e funções executivas. Testes cognitivos de triagem e exames laboratoriais ajudam a descartar outras causas, com exames de imagem e biomarcadores de alta complexidade sendo reservados para a confirmação e o direcionamento do tratamento em casos selecionados.
“O diagnóstico deve ser construído de forma acessível. Primeiro identificamos sinais clínicos e cognitivos e, só depois, em casos selecionados, avançamos para biomarcadores e exames de alta complexidade. Esse caminho garante eficiência e evita desigualdades no acesso”, finaliza o especialista da BP.
O enfrentamento do AVC e do Alzheimer passa inevitavelmente pela integração entre prevenção vascular, diagnóstico em tempo hábil e terapias que visam reduzir a carga da doença. É um desafio do século, mas também uma oportunidade para promover a longevidade com qualidade cognitiva.