Educadores encaram desafio da leitura na era da IA

Estudo mostra queda no número de leitores e reforça importância de aproximar jovens dos livros para desenvolver discernimento e empatia

Crédito: Freepik

De acordo com a edição 2024 da Pesquisa Retratos da Leitura, nos últimos quatro anos houve uma redução de 6,7 milhões de leitores no país. Conforme o estudo, 53% das pessoas não leram nem parte de um livro, impresso ou digital, de qualquer gênero, atingindo uma proporção maior do que o número de leitores na população brasileira.

O cenário traz um alerta à importância do ato de ler, seja literatura, ensaios ou textos informativos, que contribui para a formação do pensamento crítico, amplia a capacidade de análise e estimula a empatia. Tais funções se tornam ainda mais necessárias em tempos de algoritmos que entregam respostas prontas e conteúdos personalizados, além da ascensão da inteligência artificial presente em tarefas cotidianas, sobretudo entre jovens estudantes.

LEIA MAIS: Escola de Cubatão (SP) ganha prêmio de melhor do mundo; veja qual

Wagner Venceslau Dias, diretor pedagógico do Colégio Leonardo da Vinci, reforça que a leitura contínua, no entanto, exige concentração, interpretação e contato com múltiplas perspectivas: “Ler com consistência fortalece nossa habilidade de discernimento. Sem esse treino, ficamos mais vulneráveis às manipulações automatizadas e às simplificações que atendem apenas ao que queremos ouvir. Junto a isso há o impacto social da leitura, onde obras de ficção, por exemplo, permitem ao leitor vivenciar diferentes realidades e perspectivas”.

Além dos benefícios emocionais e cognitivos, o diretor destaca que a prática também influencia diretamente no desempenho acadêmico e profissional. Estudos mostram que leitores frequentes desenvolvem vocabulário mais rico, maior compreensão textual e domínio da comunicação escrita e oral, competências decisivas em um mercado de trabalho que exige clareza e adaptabilidade.

No país, os dados revelam ainda que a motivação para a leitura por prazer diminui mesmo em momentos de lazer. Ainda segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, na 6ª edição, 81% da população brasileira usa o tempo livre na internet, enquanto somente 20% informaram ler livros no tempo livre.

É preciso traçar novas estratégias para aproximar os jovens da leitura. Incentivar clubes de leitura nas escolas, integrar debates sobre livros às aulas de diferentes disciplinas e utilizar recursos digitais para conectar leitura a plataformas já utilizadas pelos adolescentes são alguns caminhos possíveis. É preciso associar a leitura à experiência cultural dos jovens, mostrando que ela pode dialogar com filmes, séries, músicas e até games. Quando o estudante percebe que a leitura amplia a compreensão do que já gosta, a motivação aumenta”, observa Dias.

Outro fator relevante é a valorização do exemplo dentro de casa: pais e familiares que cultivam o hábito de ler tendem a estimular esse comportamento nos filhos.

O estímulo à leitura deve estar ligado à liberdade de escolha. Permitir que o jovem selecione gêneros de seu interesse favorece o engajamento e o prazer pelo ato de ler. Quando a leitura se torna uma prática de descoberta e não apenas de cobrança, ela se transforma em ferramenta poderosa de formação pessoal e social”, conclui o porta-voz do Colégio Leonardo da Vinci.

Impactos da queda na leitura no desenvolvimento cognitivo

A coordenadora pedagógica do Colégio Arbos, do ABC Paulista, Rosana Rodrigues Araujo Ferreira, alerta que a redução do hábito da leitura entre crianças e adolescentes gera efeitos profundos que vão além da escola.

Para a especialista, cada livro lido funciona como um treino para o cérebro. “Ler é como treinar o cérebro todos os dias: cada página lida é um exercício que ajuda crianças e adolescentes a pensarem melhor e se comunicar com clareza”, explica.

Na era da inteligência artificial, hábito da leitura recua e desafia educadores
Foto: Unsplash

Ela destaca ainda que esse hábito influencia diretamente a maneira como os jovens interpretam o mundo. “A leitura potencializa a capacidade de análise, inferência e construção de sentido. Sem esse exercício, compromete-se a habilidade de interpretar informações e de formar opiniões bem fundamentadas”, pontua.

Outro aspecto ressaltado é o impacto socioemocional. “Estudos em neurociência mostram que ler narrativas literárias ativa áreas do cérebro ligadas à empatia, favorecendo a compreensão das intenções e sentimentos dos outro”, comenta. Para Rosana, quando esse hábito não é cultivado, há risco de empobrecimento das competências emocionais. “Incentivar a leitura não é apenas formar bons estudantes, é formar seres humanos mais críticos, sensíveis e preparados para os desafios da vida”, conclui.

Os erros mais comuns ao incentivar a leitura

Apesar das boas intenções de pais e professores, algumas práticas acabam afastando as crianças dos livros. “Um dos erros mais comuns é usar a leitura como punição. Quem nunca ouviu ou disse: ‘vai ler porque tirou nota baixa’? Nesse momento, o livro deixa de ser um convite e passa a ser castigo. E quando isso acontece, a mágica se perde”, explica Rosana.

Outro equívoco, segundo a coordenadora, é impor apenas determinados tipos de obras. “Claro que eles têm valor, mas não podemos esquecer que gibis, mangás, revistas ou até textos digitais também abrem portas para o hábito de ler. O que motiva uma criança pode não ser o que nós escolheríamos, e tudo bem: o importante é que ela leia”, reforça.

Rosana também chama atenção para a influência do exemplo. “Se os pais e professores não demonstram prazer em ler, a mensagem implícita é clara: ler não é prioridade”, avalia.

Há ainda um risco silencioso: criar expectativas irreais de fluência imediata. “Um outro complicador é criar a expectativa de fluência leitora imediata, na qual se espera que a criança já leia rápido, realize interpretações imediatamente ao ler e acerte entonação, o que pode acarretar frustrações e distanciamento da leitura”, destaca. Comparações entre irmãos e colegas, mesmo sutis, também são apontadas como prejudiciais: “Comparações entre irmãos ou colegas, por mais sutis que sejam, podem abalar a confiança”, completa.

Leitura como antídoto à dispersão digital

No cenário atual, marcado por excesso de estímulos digitais e pela ascensão da inteligência artificial, a leitura ganha um papel de resistência. “Nesse cenário, a leitura se revela cada vez mais necessária, não como prática competidora com a tecnologia, mas como um equilíbrio fundamental para o desenvolvimento humano”, explica Rosana.

Ela observa que o hábito fortalece justamente as competências que o mundo digital enfraquece. “A leitura ensina a manter o foco em uma mesma tarefa por mais tempo. Cada página é um treino silencioso contra a dispersão do cotidiano”, diz.

Além disso, a memória também é diretamente beneficiada. “Um livro pede que o leitor se lembre do que aconteceu antes para compreender o que acontece agora. Essa exigência fortalece a memória sequencial e amplia as conexões do cérebro”, detalha. Para ela, o impacto vai além: “quando associamos uma história às nossas próprias experiências, criamos lembranças que permanecem vivas, como se cada capítulo deixasse marcas afetivas que o tempo não apaga.”

A coordenadora reforça ainda a profundidade que só a leitura proporciona. “Enquanto o mundo digital nos acostuma a consumir dados rápidos e fragmentados, o livro ensina a organizar ideias, relacionar causas e consequências e, sobretudo, pensar com calma. É essa prática que transforma informação em conhecimento e opinião em reflexão crítica”, ressalta.

  • Publicado: 26/01/2026
  • Alterado: 26/01/2026
  • Autor: 01/10/2025
  • Fonte: Maria Clara e JP