Educadores encaram desafio da leitura na era da IA
Estudo mostra queda no número de leitores e reforça importância de aproximar jovens dos livros para desenvolver discernimento e empatia
- Publicado: 26/01/2026
- Alterado: 01/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Maria Clara e JP
De acordo com a edição 2024 da Pesquisa Retratos da Leitura, nos últimos quatro anos houve uma redução de 6,7 milhões de leitores no país. Conforme o estudo, 53% das pessoas não leram nem parte de um livro, impresso ou digital, de qualquer gênero, atingindo uma proporção maior do que o número de leitores na população brasileira.
O cenário traz um alerta à importância do ato de ler, seja literatura, ensaios ou textos informativos, que contribui para a formação do pensamento crítico, amplia a capacidade de análise e estimula a empatia. Tais funções se tornam ainda mais necessárias em tempos de algoritmos que entregam respostas prontas e conteúdos personalizados, além da ascensão da inteligência artificial presente em tarefas cotidianas, sobretudo entre jovens estudantes.
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Wagner Venceslau Dias, diretor pedagógico do Colégio Leonardo da Vinci, reforça que a leitura contínua, no entanto, exige concentração, interpretação e contato com múltiplas perspectivas: “Ler com consistência fortalece nossa habilidade de discernimento. Sem esse treino, ficamos mais vulneráveis às manipulações automatizadas e às simplificações que atendem apenas ao que queremos ouvir. Junto a isso há o impacto social da leitura, onde obras de ficção, por exemplo, permitem ao leitor vivenciar diferentes realidades e perspectivas”.
Além dos benefícios emocionais e cognitivos, o diretor destaca que a prática também influencia diretamente no desempenho acadêmico e profissional. Estudos mostram que leitores frequentes desenvolvem vocabulário mais rico, maior compreensão textual e domínio da comunicação escrita e oral, competências decisivas em um mercado de trabalho que exige clareza e adaptabilidade.
No país, os dados revelam ainda que a motivação para a leitura por prazer diminui mesmo em momentos de lazer. Ainda segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, na 6ª edição, 81% da população brasileira usa o tempo livre na internet, enquanto somente 20% informaram ler livros no tempo livre.
“É preciso traçar novas estratégias para aproximar os jovens da leitura. Incentivar clubes de leitura nas escolas, integrar debates sobre livros às aulas de diferentes disciplinas e utilizar recursos digitais para conectar leitura a plataformas já utilizadas pelos adolescentes são alguns caminhos possíveis. É preciso associar a leitura à experiência cultural dos jovens, mostrando que ela pode dialogar com filmes, séries, músicas e até games. Quando o estudante percebe que a leitura amplia a compreensão do que já gosta, a motivação aumenta”, observa Dias.
Outro fator relevante é a valorização do exemplo dentro de casa: pais e familiares que cultivam o hábito de ler tendem a estimular esse comportamento nos filhos.
“O estímulo à leitura deve estar ligado à liberdade de escolha. Permitir que o jovem selecione gêneros de seu interesse favorece o engajamento e o prazer pelo ato de ler. Quando a leitura se torna uma prática de descoberta e não apenas de cobrança, ela se transforma em ferramenta poderosa de formação pessoal e social”, conclui o porta-voz do Colégio Leonardo da Vinci.
Impactos da queda na leitura no desenvolvimento cognitivo
A coordenadora pedagógica do Colégio Arbos, do ABC Paulista, Rosana Rodrigues Araujo Ferreira, alerta que a redução do hábito da leitura entre crianças e adolescentes gera efeitos profundos que vão além da escola.
Para a especialista, cada livro lido funciona como um treino para o cérebro. “Ler é como treinar o cérebro todos os dias: cada página lida é um exercício que ajuda crianças e adolescentes a pensarem melhor e se comunicar com clareza”, explica.

Ela destaca ainda que esse hábito influencia diretamente a maneira como os jovens interpretam o mundo. “A leitura potencializa a capacidade de análise, inferência e construção de sentido. Sem esse exercício, compromete-se a habilidade de interpretar informações e de formar opiniões bem fundamentadas”, pontua.
Outro aspecto ressaltado é o impacto socioemocional. “Estudos em neurociência mostram que ler narrativas literárias ativa áreas do cérebro ligadas à empatia, favorecendo a compreensão das intenções e sentimentos dos outro”, comenta. Para Rosana, quando esse hábito não é cultivado, há risco de empobrecimento das competências emocionais. “Incentivar a leitura não é apenas formar bons estudantes, é formar seres humanos mais críticos, sensíveis e preparados para os desafios da vida”, conclui.
Os erros mais comuns ao incentivar a leitura
Apesar das boas intenções de pais e professores, algumas práticas acabam afastando as crianças dos livros. “Um dos erros mais comuns é usar a leitura como punição. Quem nunca ouviu ou disse: ‘vai ler porque tirou nota baixa’? Nesse momento, o livro deixa de ser um convite e passa a ser castigo. E quando isso acontece, a mágica se perde”, explica Rosana.
Outro equívoco, segundo a coordenadora, é impor apenas determinados tipos de obras. “Claro que eles têm valor, mas não podemos esquecer que gibis, mangás, revistas ou até textos digitais também abrem portas para o hábito de ler. O que motiva uma criança pode não ser o que nós escolheríamos, e tudo bem: o importante é que ela leia”, reforça.
Rosana também chama atenção para a influência do exemplo. “Se os pais e professores não demonstram prazer em ler, a mensagem implícita é clara: ler não é prioridade”, avalia.
Há ainda um risco silencioso: criar expectativas irreais de fluência imediata. “Um outro complicador é criar a expectativa de fluência leitora imediata, na qual se espera que a criança já leia rápido, realize interpretações imediatamente ao ler e acerte entonação, o que pode acarretar frustrações e distanciamento da leitura”, destaca. Comparações entre irmãos e colegas, mesmo sutis, também são apontadas como prejudiciais: “Comparações entre irmãos ou colegas, por mais sutis que sejam, podem abalar a confiança”, completa.
Leitura como antídoto à dispersão digital
No cenário atual, marcado por excesso de estímulos digitais e pela ascensão da inteligência artificial, a leitura ganha um papel de resistência. “Nesse cenário, a leitura se revela cada vez mais necessária, não como prática competidora com a tecnologia, mas como um equilíbrio fundamental para o desenvolvimento humano”, explica Rosana.
Ela observa que o hábito fortalece justamente as competências que o mundo digital enfraquece. “A leitura ensina a manter o foco em uma mesma tarefa por mais tempo. Cada página é um treino silencioso contra a dispersão do cotidiano”, diz.
Além disso, a memória também é diretamente beneficiada. “Um livro pede que o leitor se lembre do que aconteceu antes para compreender o que acontece agora. Essa exigência fortalece a memória sequencial e amplia as conexões do cérebro”, detalha. Para ela, o impacto vai além: “quando associamos uma história às nossas próprias experiências, criamos lembranças que permanecem vivas, como se cada capítulo deixasse marcas afetivas que o tempo não apaga.”
A coordenadora reforça ainda a profundidade que só a leitura proporciona. “Enquanto o mundo digital nos acostuma a consumir dados rápidos e fragmentados, o livro ensina a organizar ideias, relacionar causas e consequências e, sobretudo, pensar com calma. É essa prática que transforma informação em conhecimento e opinião em reflexão crítica”, ressalta.