Educação inclusiva: o que falta para dar certo no Brasil

Educação inclusiva ainda enfrenta barreiras estruturais, falta de formação docente e pouca acessibilidade para diversos perfis

Crédito: Divulgação

Em um tempo de tantas transformações na educação, a invisibilidade de estudantes com diferentes formas de aprender e pensar ainda é uma das faces mais persistentes da exclusão.

Os números mostram o tamanho do problema. De acordo com o Censo Demográfico de 2022 (IBGE), 63,1% das pessoas com deficiência de 25 anos ou mais não completaram o ensino fundamental, e apenas 7,4% chegaram ao ensino superior. Esses dados evidenciam o quanto o acesso à escola ainda não se traduz em aprendizagem, pertencimento e educação para a construção da autonomia — princípios centrais da Lei Brasileira de Inclusão (2015) e do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 da ONU, que refere-se à Educação de Qualidade e Inclusiva.

Barreiras estruturais e pedagógicas no dia a dia escolar

Educação inclusiva
Imagem criada por IA (chatgpt)

Por trás das estatísticas estão histórias de crianças e adolescentes que enfrentam barreiras diárias — físicas, pedagógicas, comunicacionais e, sobretudo, atitudinais. Estudantes com autismo, TDAH, dislexia, Síndrome de Down, deficiência intelectual e outras condições cognitivas continuam a lidar com currículos engessados, avaliações padronizadas e pouca ou nenhuma acessibilidade pedagógica. As escolas, muitas vezes, não dispõem de recursos formativos e estruturais que lhes permitam responder à diversidade humana como regra, e não como exceção.

Os professores, por sua vez, vivem muitas vezes a solidão de quem quer incluir, mas não encontra apoio e recursos para fazê-lo. Entre currículos padronizados e turmas heterogêneas, enfrentam o desafio de ensinar sem a formação adequada para lidar com a diversidade. A inclusão, porém, não é uma tarefa individual nem um dom de poucos: é uma construção coletiva que começa pela formação continuada e pelo compromisso institucional da escola. Quando a gestão garante tempo, espaço e suporte para o aprendizado do próprio educador, o professor deixa de ser um herói isolado e passa a fazer parte de uma rede que aprende junto. É nesse movimento que a inclusão se torna prática real — quando quem ensina também se sente acolhido, ouvido e capaz de transformar.

Tecnologia, linguagem e o caminho para uma inclusão efetiva

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Imagem criada por IA (chatgpt)

Nesse contexto, novas soluções têm surgido como aliadas importantes. A tecnologia, quando usada com propósito pedagógico e social, pode ser uma ponte entre a diferença e o aprendizado. Plataformas como a MAIA – Método Acessível para Inclusão e Aprendizagem, nascida da experiência do Espaço Mosaico, demonstram que a inteligência artificial pode servir à inclusão, sem abrir mão de um trabalho de curadoria humana, desenvolvido por professores de diferentes áreas. A partir de um ecossistema que conecta escolas, docentes, famílias e equipes de apoio, o sistema identifica o perfil pedagógico do aluno e sugere conteúdos e estratégias alinhados à BNCC (Base Nacional Comum Curricular), adaptados a diferentes níveis de complexidade e estilos de aprendizagem — sempre com linguagem simples e acessível.

Construir uma sociedade verdadeiramente inclusiva exige reconhecer que a diferença faz parte da humanidade. Mais do que classificar pessoas como “neurotípicas” ou “neurodivergentes”, é preciso reconhecer e acolher a pluralidade de modos de aprender, comunicar e existir. É necessário também refletir sobre as terminologias e evitar trocar um rótulo por outro. A forma como nomeamos revela o modo como pensamos. As palavras mudam com a sociedade, e termos antes aceitos podem se tornar inadequados por reforçar visões ultrapassadas. Mais do que linguagem, trata-se de ética: cada palavra carrega valores e pode tanto perpetuar exclusões quanto abrir caminhos para novas formas de compreender e incluir.

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A inclusão não se sustenta em dicotomias — normal/anormal, típico/atípico —, mas na compreensão de que a deficiência e a diferença são parte da diversidade humana: variações, e não falhas. Novos termos surgirão, e que sejam melhores — capazes de refletir o modelo social da deficiência, que propõe justamente essa virada: o problema não está nas pessoas, mas nas barreiras que a sociedade cria. As palavras importam, mas só têm sentido se vierem acompanhadas de práticas e valores que reconheçam, de fato, todas as formas de existência e aprendizagem.

A escola do futuro será inclusiva não por reunir pessoas diferentes, mas por eliminar barreiras e ampliar possibilidades — garantindo a cada estudante o direito de participar, compreender e transformar o mundo à sua maneira.

Leide Maia

Leide Maia
Leide Maia – Divulgação

Leide Maia é historiadora formada pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização em História da África (UFES) e Psicopedagogia (UNIFAI). Cofundadora do Espaço Mosaico e da plataforma MAIA, é especialista em diversidade, inclusão e acessibilidade, além de consultora de emprego apoiado. Atua também como coordenadora do grupo de Autodefensoria da Região Sudeste da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down (FBASD), promovendo ações de defesa de direitos e inclusão de pessoas com deficiência intelectual. Leide tem trajetória marcada pelo engajamento em causas sociais e pela criação de soluções educacionais inovadoras voltadas à inclusão.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 19/01/2026
  • Fonte: FERVER