Educação ambiental avança no ABC, mas desafio ainda é nacional

Escolas da região ampliam projetos ambientais, enquanto pesquisa revela baixo conhecimento sobre mudanças climáticas no Brasil.

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Educação Ambiental desde a infância deixou de ser um ideal pedagógico e passou a ser uma necessidade global. A Agenda 2030 da ONU, o Acordo de Paris e, mais recentemente, a COP30, realizada em Belém (PA), reforçam que a educação para a sustentabilidade é um dos pilares no enfrentamento da crise climática. Nesse cenário, escolas públicas e privadas têm papel decisivo — especialmente em regiões urbanizadas e densas como o ABC Paulista, onde os efeitos das mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano dos estudantes: calor extremo, enchentes recorrentes e ilhas de calor cada vez mais intensas.

Enquanto políticas públicas tentam avançar, uma pesquisa recente da Frente Parlamentar Mista da Educação (FPME) em parceria com o Equidade.info acendeu um alerta nacional: apenas 1 em cada 10 estudantes brasileiros sabe o que é a COP30. A revelação coloca ainda mais peso sobre iniciativas locais que tentam transformar conteúdos ambientais em experiências reais de aprendizagem. No ABC, algumas escolas começam a se destacar por inserir o tema de forma contínua no currículo, e não apenas em semanas temáticas ou atividades pontuais.

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Educação ambiental como prática diária: o exemplo do Colégio Stocco

Entre as iniciativas mais estruturadas da região está o trabalho do Colégio Stocco, que transformou a educação ambiental em eixo contínuo, envolvendo desde a Educação Infantil até o Ensino Fundamental II. As coordenadoras Patrícia Vanessa Aroni de Barros (Educação Infantil), Simone Zambeli (Fundamental I) e Ana Carolina Béco Naldinho (Fundamental II) explicam que o tema não aparece apenas como disciplina: ele permeia o cotidiano escolar.

Educação ambiental avança no ABC, mas desafio ainda é nacional
Divulgação/Colegio Stocco

Localizada em uma chácara de 27 mil m² de área verde, a escola utiliza o próprio ambiente como laboratório vivo. “A natureza é uma grande sala de aula ao ar livre”. A vivência prática começa cedo: ainda na Educação Infantil, as crianças cuidam da horta e do pomar acompanhadas por um agrônomo que integra as atividades ao currículo oficial.

No Fundamental II, projetos apresentados na FECSTOCCO, feira científica do colégio, mostram como o tema já evolui para pesquisas mais complexas. Os estudantes estudaram biomas brasileiros e criaram protótipos para monitorar e propor soluções para impactos das mudanças climáticas, incluindo sensores, maquetes e estudos de mitigação.

Mudanças climáticas em sala de aula

A abordagem é integrada às disciplinas. No Fundamental I, por exemplo, os alunos observam variações do tempo e relacionam fenômenos cotidianos ao conteúdo teórico. “os estudantes realizam observações da variação do tempo ao longo de um mesmo dia, relacionando fenômenos cotidianos aos conteúdos estudados”, explica Simone.

No Fundamental II, Geografia e Ciências trabalham juntos para ampliar a escala de análise: clima local, regional e global, impactos sociais, fontes de emissão e ações coletivas. A metodologia estimula reflexão crítica, e não apenas listas de comportamentos individuais.

Feiras, tecnologia e premiações

O engajamento do colégio no tema das mudanças climáticas é chancelado pela participação e premiações em eventos externos. A Feira Cultural com o tema “O melhor de mim para um mundo melhor” reuniu diversos trabalhos focados no papel do estudante na sustentabilidade.

Nas aulas e oficinas de Robótica e Tecnologia, os estudantes desenvolveram projetos voltados à captação de dados climáticos e à investigação de temas como agricultura, rios aéreos e ilhas de calor. Esses projetos não ficaram apenas no ambiente escolar, conquistando premiações na MNR – Mostra Nacional de Robótica em categorias ligadas à automação na agroindústria, uma área estratégica para o desenvolvimento sustentável e o combate aos efeitos da crise climática.

COP30 chega às salas de aula

Um dos dados mais alarmantes da pesquisa nacional é que apenas 1 em cada 10 estudantes brasileiros sabe o que é a COP 30. No entanto, o Colégio Stocco demonstra uma postura proativa em relação à Conferência: “A COP30 foi apresentada às turmas em discussões sobre atualidades nas aulas de Ciências e Geografia, garantindo que todos tivessem contato com o tema.

Enquanto o tema foi brevemente introduzido para todos, o 5º ano do Fundamental I recebeu um aprofundamento especial, estudando a importância da Conferência para o planeta e pesquisando acordos e tratados internacionais. Esse esforço de conscientização é vital, pois a pesquisa evidencia uma forte desigualdade de conhecimento sobre o tema entre redes de ensino: a proporção de alunos da rede privada que sabem o que é a COP 30 é quatro vezes maior do que a da rede pública.

Desconhecimento nacional evidencia falhas estruturais

COP30
Tânia Rêgo/Agência Brasil

A pesquisa apresentada durante a COP30 revela problemas que se estendem por toda a rede de ensino. Apesar de 70% dos estudantes brasileiros já terem ouvido falar em mudanças climáticas, apenas um terço consegue explicar o significado do termo. E, ainda mais grave, 64% afirmam que a escola os prepara pouco ou nada para enfrentar situações reais, como ondas de calor.

Entre professores, o diagnóstico é ainda mais duro: 69% avaliam que as escolas não preparam adequadamente os jovens. O dado dialoga diretamente com outro achado: 53% dos docentes dizem não receber suporte pedagógico, e dois terços dos gestores reconhecem que o tema é tratado de maneira insuficiente nos planejamentos.

A desigualdade também pesa: o conhecimento sobre a COP30 é quatro vezes maior entre estudantes da rede privada. Em regiões como o Norte, os índices são melhores; no Nordeste, os mais baixos. Goiás, surpreendentemente, supera até o Pará, estado-sede da conferência.

Para a deputada Socorro Neri (PP/AC), é preciso encarar a educação ambiental como tema urgente:
Os estudantes já vivem o calor, a falta de água e as enchentes, mas não se sentem preparados para lidar com isso. Educação climática não é detalhe, precisa ser implementada de verdade”.

Leis avançam, mas a implementação emperra

Educação ambiental avança no ABC, mas desafio ainda é nacional
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A Lei 14.926/2024 determina que, a partir de 2025, todas as escolas abordem temas como mudanças do clima e proteção da biodiversidade. Contudo, a pesquisa mostra que a aplicação ainda é tímida. Avançam no Congresso propostas como:

  • PL 5622/2023: integra educação ambiental à justiça climática.
  • PL 2225/2024: garante o direito de crianças conviverem com a natureza.
  • PL 2809/2024: libera recursos do Fundo Nacional do Meio Ambiente para capacitação e preparação para emergências climáticas.

Mesmo com avanços legislativos, falta a peça-chave: formação continuada e materiais pedagógicos acessíveis. Como alerta a deputada Neri: “Professor não precisa de cobrança, precisa de apoio”.

ABC avança, mas país ainda precisa transformar discurso em ação

As experiências do ABC, inclusive o modelo do Colégio Stocco, mostram caminhos possíveis para que a educação ambiental seja concreta, prática e conectada à realidade dos estudantes. Hortas, feiras de ciências, projetos interdisciplinares e robótica aplicada ao clima são exemplos de como o conteúdo pode deixar de ser abstrato.

No entanto, sem investimento estruturado, formação docente consistente e políticas integradas entre municípios, estados e governo federal, o país corre o risco de manter a crise climática como assunto periférico, justamente quando ela já é parte do cotidiano de crianças e jovens.

Se a COP30 convocou o mundo a acelerar o enfrentamento ao aquecimento global, a escola brasileira precisa fazer o mesmo com a educação ambiental. E isso começa pela sala de aula, pela horta, pela feira de ciências, pelo debate e pela escuta dos estudantes. É ali que nasce, ou não, a próxima geração capaz de enfrentar a maior crise do século.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 20/11/2025
  • Fonte: Teatro Liberdade